debate: as revoluções nos países árabes

O Centro de Estudos Árabes e o
Departamento de Letras Orientais da USP
convidam para o debate

AS REVOLUÇÕES NOS PAÍSES ÁRABES NO SÉCULO 21

Debatedores:

Profª Dra. Deisy Ventura (IRI- USP)
Profº Dr. Mamede Mustafa Jarouche (DLO/FFLCH- USP)
Profº Dr. Osvaldo Coggiola (DH/FFLCH- USP)
Profª Isabele Somma (Doutoranda em História Social FFLCH-USP)
Profº Luiz Gustavo Porfírio (Pós-graduando FFLCH- USP)

30 de Março de 2011, quarta-feira
18:00 – 22:00
Anfiteatro da História. Avenida Prof. Lineu Prestes, 338, Cidade Universitária, São Paulo
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Filmes: o uso justo dos produtos.

Como o processo de transmissão de conhecimento entre as gerações fez-se de modo livre por toda a história da humanidade, é necessário superar os interesses particulares, derivados de uma consciência privatista, que orientam as ações legais recentemente. Nesse sentido, não se pode limitar o acesso aos produtos da cultura  – mesmo que à mercadoria da Indústria Cultural – pelos recursos financeiros necessários para adquiri-los.

Atuar pelo livre acesso à informação e ao conhecimento é um ato político.

Seguem os links para download dos filmes.

Jaguar, Jean Rouch – torrent / legenda em português

Os links “download direto” levam a sites de servidores de arquivos, que pedem que você espere ou pague para continuar. Não pague, ok?!

É sempre melhor optar pelo download grátis, mesmo que seja necessário esperar, ou que seja mais lento.
 
Lembrem-se de nunca digitar seus dados pessoais em sites desconhecidos.

Quem tem medo do Wikileaks?

Por Manuel Castells, La Vanguardia | Tradução Eduardo Graeff

Como documentei no meu livro Comunicação e Poder, o poder baseia-se no controle da comunicação. A reação histérica dos Estados Unidos e outros governos contra o Wikileaks confirma isso. Entramos numa nova fase da comunicação política. Não tanto porque se revelem segredos ou fofocas, mas porque eles se espalham por um canal que escapa aos aparatos de poder.

O vazamento de confidências é a fonte do jornalismo de investigação com que sonha qualquer meio de comunicação em busca de furos. Desde Bob Woodward e sua “Garganta Profunda” no Washington Post até as campanhas de Pedro J. [Ramírez, fundador do diário El Mundo] na política espanhola, a difusão da informação supostamente secreta é prática usual protegida pela liberdade de imprensa.

A diferença é que os meios de comunicação estão inscritos num contexto empresarial e político suscetível a pressões quando as informações resultam comprometedoras. Daí que a discussão acadêmica sobre se a comunicação pela internet é um meio de comunicação tem consequências práticas. Porque se o é (algo já estabelecido na investigação) está protegida pelo princípio constitucional da liberdade de expressão, e os veículos e jornalistas deveriam defender o Wikileaks porque um dia pode ser a vez deles.

Ocorre que ninguém questiona a autenticidade dos documentos vazados. De fato, destacados periódicos do planeta publicaram e comentaram esses documentos para regozijo e educação dos cidadãos que recebem um cursinho intensivo sobre as misérias da política nos corredores do poder (com efeito, por que [o primeiro ministro espanhol José Luis] Zapatero está tão preocupado?).

O problema, diz-se, é a revelação de comunicações secretas que poderiam dificultar as relações entre Estados (o perigo para vidas humanas é baboseira). Porém, este risco seria maior que o de ocultar a verdade sobre as guerras, dos cidadãos que pagam e sofrem por elas?

Em qualquer hipótese, ninguém duvida que, se essas informações chegassem aos meios de comunicação, estes também desejariam publicá-las (se poderiam é outra questão). E mais: uma vez difundidas na rede, publicam-nas. O que está em questão é o controle dos governos sobre seus próprios vazamentos e sobre sua difusão por meios alternativos que escapam à censura direta ou indireta. Um tema tão fundamental, que motivou uma reação sem precedentes nos Estados Unidos, com apelos ao assassinato de Assange por líderes republicanos e até colunistas do Washington Post e uma grita mundial generalizada (de Chávez até Berlusconi), com a honrosa exceção de Lula e a significativa reação de [Vladimir] Putin.

A esta cruzada para matar o mensageiro uniu-se a justiça sueca numa história rocambolesca onde o pseudofeminismo alia-se à repressão geopolítica. Dá-se que as namoradas suecas de Julian Assange (alguém investiga sua conexão com serviços de inteligência?) denunciaram-no  porque em pleno ato (consentido) a camisinha rasgou, ela diz que não queria continuar e Assange não pôde ou não quis interromper o coito e isso, segundo a lei sueca, poderia ser violação. O que não impediu que a violada organizasse no dia seguinte em sua casa uma festa de despedida para Assange.

A partir de tamanho ato de terrorismo sexual, a Interpol emite uma euroordem de prisão com nível de alerta máximo, desmentindo que seja por pressão dos Estados Unidos. E quando Assange se entrega em Londres, o juiz não aceita fiança, talvez para enviá-lo aos Estados Unidos via Suécia. [A fiança foi concedida na terça-feira,14/12, mas a Suécia entrou com pedido de apelação.]

Com o mensageiro atrás das grades, falta mandar para lá a mensagem. E aí começam pressões que levam a PayPal, Visa, MasterCard e o banco suíço Post Finance a fechar as contas do Wikileaks; e a Amazon a remover o domínio de seus servidores  (o que não impede a empresa de oferecer, por 7 dólares, o conjunto completo de e-mails vazados).

A contraofensiva internauta não se fez esperar. Os ataques de serviços de inteligência contra a rede do Wikileaks fracassaram porque proliferaram as redes-espelho, ou seja, cópias imediatas das redes existentes, mas com outro endereço. A esta altura há mais de mil em funcionamento (se quiser ver a lista google wikileaks.mirror).

Em represália à tentativa de silenciar o Wikileaks, Anonymous, uma popular rede hacker, coordenou ataques contra as empresas e instituições que o fizeram. Milhares de voluntários se juntaram à festa, utilizando o Facebook e Twitter, embora com crescentes restrições. Os amigos do Wikileaks no Facebook superaram o milhão e aumentam ao ritmo de uma pessoa por segundo. Wikileaks distribuiu a 100 mil usuários um documento encriptado com segredos supostamente mais danosos para os poderosos, cuja chave se espalharia caso a perseguição se intensifique.

Não está em jogo a segurança dos Estados (nada do revelado põe em perigo a paz mundial nem era ignorado nos círculos de poder). O que se debate é o direito do cidadão de saber o que fazem e pensam seus governantes. E a liberdade de informação nas novas condições da era da internet. Como dizia Hillary Clinton em sua declaração de janeiro de 2010: “A internet é a infraestrutura icônica da nossa era… Como acontecia com as ditaduras do passado, há governos que se voltam contra os que pensam de forma independente usando esses instrumentos”. Agora ela aplica a si mesma essa reflexão?

Porque a questão fundamental é que os governos podem espionar, legal ou ilegalmente, os seus cidadãos. Mas os cidadãos não têm direito à informação sobre aqueles que atuam em seu nome, a não ser na versão censurada que os governos constroem. Neste grande debate, vai se revelar o verdadeiro comportamento de empresas de internet que se autoproclamam plataformas de livre comunicação e dos meios de comunicação tradicionais, tão zelosos de sua própria liberdade.

A ciberguerra começou. Não uma ciberguerra entre Estados, como se esperava, mas entre os Estados e a sociedade civil internauta. Nunca mais os governos poderão estar seguros de manter seus cidadãos na ignorância de suas manobras. Porque enquanto houver pessoas dispostas a fazer leaks e uma internet povoada por wikis surgirão novas gerações de wikileaks.

Manuel Castells, Professor de comunicação, titular da cadeira Wallis Annenberg de comunicação, tecnologia e sociedade da Annenberg School for Communication, da Universidade de Southern California, em Los Angeles, Estados Unidos. Diretor do Projeto Internet Catalunya, da Universidade Oberta da Catalunha, Barcelona, Espanha. Autor, entre outros, de A Era da Informação (3 vol.), Ed. Paulinas, 1989. São Paulo

O que Egito e Tunísia dizem sobre Irã?

Por Pouya Alimagham, do Informed Comment | Tradução: Bruno Cava

Tem havido muito debate sobre se as recentes revoluções na Tunísia e Egito, especialmente a última, vão produzir um sistema semelhante àquele nascido da Revolução Islâmica no Irã, em 1979. Contudo, ao focar nesta que é, de fato, uma questão importante, dois pontos cruciais passam despercebidos. A velocidade com que essas duas revoluções aconteceram dizem-nos alguma coisa sobre a durabilidade do regime no Irã; ao mesmo tempo que contestam a narrativa da Revolução Islâmica sobre o discurso revolucionário no Oriente Médio.

Nitidamente, o regime egípcio — com todo o apoio regional e internacional, décadas de construção institucional e massivo aparato de segurança — colapsou depois de enfrentar somente 18 dias de um movimento de protesto, todavia incansável e articulado, que não admitiria qualquer compromisso menor do que a expulsão de Mubarak.

A inabilidade do governo egípcio em sobreviver ao movimento de protesto contrasta com a contínua manutenção do poder pelo governo iraniano. Depois de 12 de junho, durante a eleição presidencial de 2009, grandes frações da sociedade iraniana moldaram a campanha eleitoral de Mousavi como um protesto popular que cresceu rapidamente e alcançou cerca de três milhões de pessoas só em Teerã, três dias depois do anúncio dos resultados. A velocidade com que floresceram os protestos provocou o Líder Supremo Ali Khamanei a ordenar a repressão uma semana depois. Através do uso de coerçãop em massa e acionamento de seus próprios grupos de apoio, um número considerável, o regime sistematicamente recuperou o controle das ruas, depois de meses de manifestações intermitentes. A eficácia com que o regime exerceu a sua vontade nos manifestantes e sua habilidade de mobilizar centenas de milhares de simpatizantes significam a sua habilidade de subsistir em face de ameaças explosivas e prolongadas à autoridade.

Que um governo relativamente isolado como do Irã foi capaz de acalmar tão prolongada tempestade, durando oito meses no total, enquanto o regime poderoso do Egito, que desfrutava de suporte regional e internacional, em especial dos EUA, caiu depois de apenas 18 dias atesta a durabilidade do governo iraniano. Este é um ponto importante que merece consideração, quando se calcula como promover uma mudança não-violenta e democrática no Irã.

Quer dizer, marchas e demonstrações sozinhas não serão suficientes para uma mudança pacífica do regime no Irã. Enquanto a oposição iraniana tenta reavivar seu próprio movimento ao aproveitar o ímpeto das revoluções no Egito e Tunísia, a sua estratégia não deveria limitar-se à atividade nas ruas, como ocorreu no passado, mas expandi-la numa abordagem mais ampla, incluindo greves, acampamentos na Praça da Libertação do próprio Irã e, mais importante, estocar apoios das forças armadas do Irã — tudo isso que foram táticas vitais ao sucesso do Egito.

Além de solapar a capacidade da Revolução Islãmica em durar, e sublinhar a necessidade de uma estratégia mais ampla à ação não-violenta no Irã, as revoluções na Tunísia e Egito também apresentam um desafio ideológico ao discurso iraniano sobre a revolução. Especificamente, essas recentes revoluções trazem dúvida sobre a narrativa do regime que a Revolução Islâmica é o único caminho pelo qual é possível derrubar ditadores profundamente estabelecidos na região e com patrocínio estrangeiro. Até então, a Revolução Iraniana de 1979 tinha sido a única revolução popular no Oriente Médio. A Revolução Egípcia de 1952 e a Iraquiana de 1958 não foram revoluções no sentido tradicional, mas golpes militares com respaldo popular contra monarcas odiados. Como o único país a orquestrar uma revolução popular, o governo iraniano argumentou que a revolução é possível no Oriente Médio somente nos moldes do Revivalismo Islâmico [NT. Para mais a respeito: http://pt.wikipedia.org/wiki/Revivalismo%5D, colocando essa história como testamento para a contenção [dos protestos]. Argumentando que somente a crença do povo no Islã como ideologia conferiu força ao movimento revolucionário para derrubar o regime pró-ocidente do Xá, tal narrativa da Revolução Iraniana marginaliza outros fatores e grupos que contribuíram à emergência e sucesso revolucionários.

Embora permaneça incerta qual direção será afinal tomada, simplesmente por emergir de moldes seculares e nacionalistas, o triunfo atual das revoluções tunisiana e egípcia fornecem uma alternativa à teoria da revolução do governo iraniano. Assim, elas inadvertidamente destacam-se do escopo da Revolução Islâmica, que o governo iraniano há tempos é especialista. Noutras palavras, a Revolução Islâmica não pode mais reclamar ser o único caminho à revolução. Essa contestação ao discurso do governo iraniano sobre a revolução explica por que as autoridades no Irã, conquanto não convincentemente, tentam representar as revoluções recentes no Egito e Tunísia como parte de um Despertar Islâmico alargado.

Portanto, além das discussões repisadas sobre a improbabilidade dessas revoluções seguirem numa trajetória similar à do Irã em 1979, os dois pontos relacionados à durabilidade do regime iraniano e a contestação colocada à narrativa revolucionária demandam atenção, pelo insight crucial que oferecem aos observadores iranianos. A rapidez com que as ditaduras no Egito e Tunísia caíram ergue-se em contraste brilhante à sobrevivência do governo do Irã depois do tumulto pós-eleição em 2009 — um ponto crítico que precisa ser considerado quando se elaboram estratégias sobre como promover uma mudança democrática não-violenta no Irã.

Concomitantemente, essas revoluções recentes trazem à baila uma alternativa que desafia a narrativa do governo iraniano sobre a revolução, revelando que a revolução não precisa ser necessariamente islamista, de maneira a obter a vitória sobre um regime autoritário aparentemente invencível.

Pouya Alimagham é estudante Ph.D. na Universidade de Michigan, edita o blogue iPouya e é colunista do Informed Comment, mantido por Juan Cole.

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