A doutrina do choque

10/02/2009 – 08h25

“A Doutrina do Choque” exibe em Berlim “capitalismo de desastre”

SILVANA ARANTES
enviada especial da Folha a Berlim

O documentário “A Doutrina do Choque”, exibido ontem no Festival de Berlim, prega resistência (à teoria da desregulação do mercado personificada pelo economista Milton Friedman) e ação popular, por outro “new deal”, que remodele a economia mundial.

O paralelo entre Obama e Franklin Roosevelt, o presidente americano que atravessou a Grande Depressão nos anos 1930, é feito pela jornalista Naomi Klein, em cujo livro (“A Doutrina do Choque: A Ascensão do Capitalismo de Desastre”) o filme se baseia.

Winterbottom disse que aceitou o convite de Klein por achar o livro “muito potente” e ver nele “a oportunidade de falar desses acontecimentos de uma perspectiva particular”.

Com numerosas imagens de arquivo, “A Doutrina do Choque” se propõe a traçar um painel da implementação das ideias de Friedman e seu grupo de colaboradores na universidade, os “meninos de Chicago”, em distintas partes do mundo, a começar pela América Latina.

O golpe que depôs e matou Salvador Allende no Chile é citado como primeiro exemplo de que o “incontrolável cassino capitalista” resultante das teorias de Friedman requereu regimes totalitários para se estabelecer fora dos EUA.

“No mundo anglofônico [EUA e Reino Unido]”, as guerras, a começar pela das Malvinas (1982), sob o comando de Margareth Thatcher, foram o elemento impulsionador da economia de livre mercado, sustenta o filme.

Klein participa do longa entrevistando pessoas e em extratos de palestras que profere, com a intenção por ela declarada de impedir que a “memória coletiva” se deixe tomar por uma enviesada versão da história do tempo corrente.

“A Doutrina do Choque” compara as vítimas civis da Guerra do Iraque com os desaparecidos durante a ditadura argentina (1976-83), igualando-os à condição de “pessoas que se opuseram” ao regime econômico que se tentou impor em seus respectivos países.

A estranhar no filme é sua trilha sonora pouco inventiva, considerando que Whitecross prepara agora um documentário sobre a banda Coldplay. Ecoando o chamado de Klein pelo engajamento popular, Whitecross disse, ontem: “O fato de Obama estar na presidência não significa que as coisas vão ficar melhores ou piores. Cabe às pessoas pressionarem a administração dele”.

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