UEM 2009 – inverno

Questão 03
Considerando o shopping center como um dos espaços
contemporâneos nos quais as relações sociais podem se
estabelecer, assinale o que for correto.
 
01) Sua origem está nas lojas de departamento do século
XIX, na medida em que esses espaços, como aqueles,
constituem-se em lugares de encontro e de
sociabilidade burguesa.
02) O seu sistema de comercialização é baseado em um
tipo de ação social tradicional, tendo por fundamento
os costumes arraigados e as relações familiares.
04) As decisões de implantação e de construção desse
estabelecimento são geralmente tomadas por
pequenos empreendedores, motivados pelo interesse
em promover projetos de desenvolvimento social.
08) Trata-se de um espaço público, pois incorpora, no
formato de uma “cidade artificial”, todas as
dimensões de direitos e de participação política
encontradas na “cidade real”.
16) Ao associar as mercadorias a diversas formas de
espetáculos, ele transforma o consumo de
necessidades em consumo orientado pelo prazer.
 
resposta: 17

UEM 2009 – inverno

Questão 04
Leia o texto a seguir:
“Cada vez mais evidente, a pobreza é estigmatizada, quer
pelo caráter de denúncia da falência da sociedade e do
Estado em relação às suas funções junto à população,
quer pelo contraste com a abundância de produtos, quer
pelo perigo iminente de convulsão social que para ela
aponta. A violência e a agressividade aumentam, criando
um clima de guerra civil nas grandes cidades, onde os
índices de criminalidade são alarmantes. Ao medo e à
insegurança, gerados na população, associa-se o
preconceito e uma atitude de discriminação contra as
camadas pobres da população, as favelas e os centros das
cidades.” (COSTA, Cristina. Sociologia: introdução à
ciência da sociedade. São Paulo: Moderna, 2005, p.256-
257.)
Considerando o texto acima e os processos de exclusão
social no Brasil, é correto afirmar que
 
01) a estigmatização estabelece distinções sociais entre
grupos considerados dignos e outros associados com
noções de vergonha, desvio e criminalidade.
02) a população pobre é a principal responsável pelo
crescimento da criminalidade nos centros urbanos,
aliando-se a organizações ilegais e exaltando a
“cultura da pobreza” em produções culturais como o
rap ou o hip hop.
04) o apelo ao consumo, feito pelas campanhas
publicitárias veiculadas nos meios de comunicação
de massa, evidencia o contraste entre uma sociedade
construída nas propagandas e a situação de carência e
de exclusão de grande parte da população.
08) a principal causa da pobreza, sobretudo nos centros
urbanos, é a carência psicológica, ou seja, o
sentimento de autodesvalorização das populações
pobres em relação às ricas.
16) é possível identificar, no perfil biológico da
população de uma determinada cidade, as
justificativas para as condições precárias de
sobrevivência de certos grupos sociais.
 
resposta: 05

UEM 2008 – verão

INSTRUÇÃO: leia o texto a seguir para responder às
questões 09 e 10.
 
“[…] Ao acordá-lo, o rádio-relógio digital dispara
informações sobre o tempo e o trânsito. Ligando a FM, lá
está o U-2. O vibramassageador amacia-lhe a nuca,
enquanto o forno microondas descongela um sanduíche
natural. No seu micro Apple II, sua agenda indica:
REUNIÃO AGÊNCIA 10H/ TÊNIS CLUBE 12H/
ALMOÇO/ TROCAR CARTÃO MAGNÉTICO
BANCO/ TRABALHAR 15H/ PSICOTERAPIA 18H/
SHOPPING/ OPÇÕES: INDIANA JONES-BLADE
RUNNER VIDEOCASSETE ROSE, SE LIGAR/ SE
NÃO LIGAR, OPÇÕES: LER O NOME DA ROSA
(ECO) – DALLAS NA TV – DORMIR COM
SONÍFEROS VITAMINADOS.
Seu programa rolou fácil. Na rua divertiu-se pacas com a
manifestação feminista pró-aborto que contava com um
bloco só de freiras e, a metros dali, com a escultura que
refazia a Pietá (aquela do Miguelângelo) com baconzitos
e cartões perfurados. Rose ligou. Você embarcou no
filme Indiana Jones sentado numa poltrona estilo
Menphis – uma pirâmide laranja em vinil – desfiando
piadas sobre a tese dela de filosofia: Em Cena, a
Decadência. A câmera adaptada ao vídeo filmou vocês
enquanto faziam amor. Será o pornô que animará a
próxima vez.
Ao trazê-lo de carro para casa, Rose, que esticaria até
uma festa, veio tipo impacto: maquiagem teatral, brincos
enormes e uma gravata prateada sobre camisão lilás. Na
cama, um sentimento de vazio e irrealidade se instala em
você. Sua vida se fragmenta desordenadamente em
imagens, dígitos, signos – tudo leve e sem substância
como um fantasma. Nenhuma revolta. Entre a apatia e a
satisfação, você dorme.” (SANTOS, Jair Ferreira. O que
é Pós-Moderno. São Paulo. Editora Brasiliense, 1988.
p.8).
 
Questão 09
Utilizando seus conhecimentos sobre o tema “gostos e
estilos de vida”, assinale a(s) alternativa(s) correta(s)
sobre o texto.
 
01) Trata do cotidiano de um indivíduo urbano que
convive com a tecnologia eletrônica de massa e
individual.
02) Aborda a valorização do estilo de vida hedonista, no
qual predomina a busca pelo prazer individual e
imediato.
04) Exemplifica a lógica de uma sociedade que não é
pautada pelo consumo generalizado de bens e
serviços.
08) Retrata uma situação peculiar aos indivíduos que
vivem em sociedades altamente industrializadas que
oferecem acesso diferenciado às novas tecnologias.
16) Mostra o processo de fragmentação dos indivíduos
em uma sociedade baseada na tecnociência.
 
resposta: 27

UEM 2008 – verão

INSTRUÇÃO: leia o texto a seguir para responder às
questões 09 e 10.
 
“[…] Ao acordá-lo, o rádio-relógio digital dispara
informações sobre o tempo e o trânsito. Ligando a FM, lá
está o U-2. O vibramassageador amacia-lhe a nuca,
enquanto o forno microondas descongela um sanduíche
natural. No seu micro Apple II, sua agenda indica:
REUNIÃO AGÊNCIA 10H/ TÊNIS CLUBE 12H/
ALMOÇO/ TROCAR CARTÃO MAGNÉTICO
BANCO/ TRABALHAR 15H/ PSICOTERAPIA 18H/
SHOPPING/ OPÇÕES: INDIANA JONES-BLADE
RUNNER VIDEOCASSETE ROSE, SE LIGAR/ SE
NÃO LIGAR, OPÇÕES: LER O NOME DA ROSA
(ECO) – DALLAS NA TV – DORMIR COM
SONÍFEROS VITAMINADOS.
Seu programa rolou fácil. Na rua divertiu-se pacas com a
manifestação feminista pró-aborto que contava com um
bloco só de freiras e, a metros dali, com a escultura que
refazia a Pietá (aquela do Miguelângelo) com baconzitos
e cartões perfurados. Rose ligou. Você embarcou no
filme Indiana Jones sentado numa poltrona estilo
Menphis – uma pirâmide laranja em vinil – desfiando
piadas sobre a tese dela de filosofia: Em Cena, a
Decadência. A câmera adaptada ao vídeo filmou vocês
enquanto faziam amor. Será o pornô que animará a
próxima vez.
Ao trazê-lo de carro para casa, Rose, que esticaria até
uma festa, veio tipo impacto: maquiagem teatral, brincos
enormes e uma gravata prateada sobre camisão lilás. Na
cama, um sentimento de vazio e irrealidade se instala em
você. Sua vida se fragmenta desordenadamente em
imagens, dígitos, signos – tudo leve e sem substância
como um fantasma. Nenhuma revolta. Entre a apatia e a
satisfação, você dorme.” (SANTOS, Jair Ferreira. O que
é Pós-Moderno. São Paulo. Editora Brasiliense, 1988.
p.8).
 
Questão 10
Podemos considerar o texto anteriormente lido como uma
fábula. Baseado nela, assinale a(s) alternativa(s)
correta(s).
 
01) A fábula se passa em um espaço urbano, no qual o
indivíduo é saturado pela oferta de informações,
diversões e serviços.
02) O indivíduo da fábula pode contar com os avanços
tecnológicos para programar o seu dia-a-dia.
04) A fábula descreve um mundo dominado pelos meios
tecnológicos que podem promover uma
desconstrução estética da arte.
08) O indivíduo descrito na fábula tem ações que
demonstram uma sedução pelo “imediato” e falta de
interesse pelas atitudes reflexivas.
16) A fábula ocorre em uma sociedade movida pela
informação. Nela, os valores são trocados pelo
modismo e o indivíduo tende a ser tomado pelo
conformismo e pela apatia.
 
resposta: 31

UEM 2008 – inverno

11 – Considerando que a produção e a circulação de bens
e de serviços são o resultado da combinação de
trabalho, matéria-prima e instrumentos de produção,
assinale o que for correto.
 
01) Para Karl Marx, no capitalismo, os
trabalhadores encontram-se alienados pelo fato
de não se apropriarem dos resultados do seu
trabalho nem controlarem o processo produtivo.
02) Na produção capitalista contemporânea, a
ciência e a tecnologia tornaram-se forças
produtivas e agentes de acumulação do capital.
04) As atividades relacionadas às artes e à atividade
intelectual não podem ser consideradas trabalho,
pois não produzem riqueza material.
08) No modo de produção asiático, os escravos e os
camponeses entregavam a sua produção ao
Estado, porém o excedente da produção era
dividido igualmente por toda a população.
16) A partir das mudanças ocorridas em seu
processo de produção, o sistema feudal entrou
em declínio, assim, os países europeus
predominantemente agrários lentamente se
transformaram em urbano-industriais.
 
resposta: 11

Agrotóxicos: “Somos os campeões no consumo”.

Por Raquel Júnia

A batalha contra a intensa utilização de agrotóxicos no país ganhou também o Congresso Nacional. No final de 2011, a Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados aprovou um relatório que revela os riscos desses venenos para a saúde humana e ambiental. Após mais de seis meses de trabalho de investigação e de escuta de todos os setores envolvidos na produção, comercialização, utilização e pesquisa dos agrotóxicos, a subcomissão criada especialmente para estudar o tema concluiu que o ideal é que esses produtos parem totalmente de ser usados na agricultura do país.

O deputado Padre João (PT-MG), autor do relatório, conta, nessa entrevista, as falhas que os parlamentares encontraram na legislação brasileira, as contradições nos discursos dos defensores dos agrotóxicos e as alternativas ao uso desses venenos, vistas de perto pelos deputados. 

O relatório da subcomissão especial sobre o uso de agrotóxicos e suas consequências à saúde aponta que quando se fala de substâncias tóxicas, como os agrotóxicos, não há como suprimir o risco envolvido na utilização desses produtos, apenas reduzi-lo a níveis aceitáveis.

O Brasil hoje utiliza agrotóxicos de forma a reduzir os riscos a níveis aceitáveis?

Infelizmente não. E esse é um aspecto muito delicado, porque estamos falando de algo que está sendo ingerido junto com nossa alimentação. Não temos o controle sobre o uso dos agrotóxicos nem na produção, nem na comercialização, muito menos na utilização desses venenos, que é feita intensamente no campo e até mesmo nas cidades, onde existem as tais capinas químicas (método de controle da vegetação com o uso de agrotóxicos). Então, os agrotóxicos atingem diretamente o campo e a cidade e, indiretamente, toda a população brasileira na forma de resíduos nos alimentos.

Qual a dimensão do risco que a população brasileira está correndo?

Infelizmente somos os campeões no consumo de agrotóxicos, e esse título não gostaríamos nunca de carregar. Levando-se em conta toda a América Latina, 80% de todo o agrotóxico é consumido aqui no Brasil, apesar de haver outros países vizinhos com produção agropecuária, como a Argentina. Trata-se de um grande problema que nós temos no dia-a-dia e a população não tem clareza desse risco. O pessoal do agronegócio e, infelizmente, alguns setores da academia insistem em dizer que não há problema em utilizar agrotóxicos. Mas precisamos pensar: recomendamos às pessoas que comam frutas, porque elas têm miligramas de vitaminas e nutrientes. Apesar de serem pequenas partículas dentro de uma fruta, esses nutrientes são importantes para o organismo. Uma laranja, por exemplo, tem alguns miligramas de vitamina C. É algo pequeno, mas isso tem efeito positivo para a saúde das pessoas, mesmo que seja a médio e longo prazo. Agora, quando pensamos em termos de resíduos dos agrotóxicos, também estamos falando de partículas pequenas que são consideradas toleráveis. Porque vamos acreditar que, após 30, 40 anos de ingestão, esses resíduos não causam impacto negativo em nossa saúde, da mesma forma que os miligramas de nutrientes das frutas exercem impacto positivo? É um absurdo a própria academia insistir na tese de que há níveis toleráveis de agrotóxicos e que essas quantidades não têm efeito negativo em nossa saúde, se nós ingerimos alimentos com diversos tipos de agrotóxicos e tudo isso se reúne em nosso organismo.

O relatório fala das dificuldades em comprovar a relação entre o uso de agrotóxicos e o surgimento de doenças, apesar de várias evidências. A subcomissão realizou uma ausculta pública na cidade de Unaí (MG), onde são diagnosticados cerca de 1.260 casos de câncer por ano em cada 100 mil pessoas, enquanto a média mundial não ultrapassa 400 casos. Ainda são necessárias novas evidências da relação de causa e efeito entre o uso de agrotóxicos e doenças como o câncer e outras?

Nós temos algo bem evidente. Vimos situações, sobretudo no Noroeste de Minas Gerais, na região de Unaí, de pessoas que perderam um rim. Quando essa intoxicação por agrotóxicos é direta ou aguda, ela apresenta um efeito nítido que provoca a perda do rim, além de problemas na pele e outras doenças. Mas o grande problema são os efeitos a médio e longo prazo, sobretudo para quem tem essa convivência ainda maior, embora todos nós sejamos atingidos quando ingerimos os alimentos. Os defensores dos agrotóxicos insistem em dizer que não existe essa relação entre esses venenos e as doenças, mas isso ficou muito claro para nós da subcomissão nas regiões onde há utilização em grande escala e muito concentrada dos agrotóxicos, como no Noroeste de Minas Gerais, na região do Jaíba (Norte de Minas Gerais), em Lucas do Rio Verde (GO), em Mato Grosso e em Petrolina (PE). Está claro que o índice de câncer nessas regiões está muito maior do que o índice mundial, então, o nexo causal é muito evidente. Outro grande problema que percebemos é que existe um lobby muito forte sobre os próprios profissionais de saúde para que eles não registrem os casos de intoxicação. Temos depoimentos do Leste de Minas Gerais informando que uma pessoa morreu intoxicada por agrotóxicos em uma lavoura de café, e no atestado de óbito constou como infarto.

É possível que haja responsabilização criminal em casos como esse?

É importante destacar que se trata de um crime. Por isso, temos propostas de projetos de lei e, entre eles, um projeto que tipifica essa subnotificação do profissional de saúde como uma infração sanitária grave. A punição recairia, nesse momento, sobre o profissional de saúde porque é dele que parte a prova. Daí, seria desencadeada uma série de outros processos, mas, sem essa prova, ficamos nesse dilema. Então, a raiz do problema é a subnotificação. Se reduzirmos isso, vamos ter dados precisos e poderemos envolver todos os responsáveis – o proprietário da lavoura, quem vendeu o agrotóxico sem orientação, as empresas produtoras. Hoje, temos um quadro de subnotificação generalizada. Infelizmente, falta capacitação para os médicos e enfermeiros.  Apenas agora, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), junto ao Ministério da Saúde, fará a capacitação com formação à distancia para cerca de 400 profissionais de saúde. A previsão é que essa formação seja ampliada a cada semestre, mas ainda assim falta capacitação na própria academia, na grade de formação dos cursos dos profissionais de saúde.

Após a conclusão dos trabalhos da subcomissão é possível avaliar se a legislação brasileira é muito permissiva aos agrotóxicos ou se o problema está mesmo no descumprimento da legislação vigente?

Ela é permissiva no que diz respeito aos incentivos, como a isenção de impostos. Há uma política de incentivo ao uso de agrotóxicos baseada na tese do abastecimento, do Brasil como celeiro do mundo.  Com uma visão muito equivocada de segurança alimentar, como se segurança alimentar fosse apenas quantidade e não visasse também qualidade, essa tese leva a essa quantidade de isenções. Por outro lado, as legislações que existem sobre pulverização aérea, por exemplo, e o próprio receituário agronômico não são cumpridas e não há uma fiscalização. O aparato fiscalizador do nosso país chega a ser ridículo. Temos 90 técnicos capacitados para isso, somando os profissionais da Anvisa, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Ministério da Agricultura e Pecuária. E dentro desses 90, menos de 50 efetivamente fiscalizam. Isso para um país continental, onde a agricultura e a pecuária são muito fortes, não é nada, não dá para atender nem uma unidade da federação. Então, temos que aprimorar a legislação. Por isso, o próprio relatório traz algumas propostas e ainda estamos estudando outras, porque se viessem todas no bojo do relatório nós teríamos problemas para aprová-lo por causa do lobby que existe também no próprio Congresso. Mas nada adiantará se não estruturarmos esse aparato fiscalizador, seja do Meio Ambiente – e aí seria o Ibama e a Agência Nacional das Águas (ANA), que não tem nenhum controle e nenhuma informação sobre a contaminação das águas pelos agrotóxicos -, seja da Saúde, com a Anvisa e também no campo da saúde do trabalhador, além do próprio Ministério da Agricultura e Pecuária.  Os fiscais do Ministério do Trabalho não têm nenhuma capacitação para lidar com a contaminação dos trabalhadores e a qualidade de vida deles em relação aos agrotóxicos. Também em relação à fiscalização, sugerimos que o receituário agronômico tenha cinco vias, ao invés das duas que possui atualmente, de maneira que uma via seja enviada obrigatoriamente para os governos dos estados e outra para o governo federal. Já existe uma lei sobre a necessidade do receituário, mas ela não foi bem regulamentada e, por isso, estamos propondo novos projetos de lei, para que a fiscalização funcione de fato e possamos penalizar quem se omitir nas informações.

No relatório, a subcomissão observa também que, apesar dos riscos, as autoridades brasileiras acreditam que os benefícios advindos dos agrotóxicos na produção agrícola superam os malefícios. Como superar esse pensamento?

Esse pensamento está no bojo dessa tese: ‘agora chegaremos a 7 bilhões de seres humanos, então, temos que produzir alimentos e não há como produzir hoje sem agrotóxicos’. E isso não é verdade. Se, de um lado, a maioria pensa assim, tem outra parte que pensa diferente e já vem, na prática, buscando a superação do uso dos agrotóxicos. Durante as audiências públicas e as visitas, fizemos questão de ir também em áreas de produção orgânica, que estão produzindo com qualidade e regularidade e cuja produção hectare/ano está superando aquelas que utilizam os agrotóxicos, até em produções como a de cana-de-açúcar. Recebemos proprietários de grandes usinas, que estão produzindo mais de 120 toneladas hectare/ano de cana, em uma média de 100 hectares. Visitamos também a fazenda Malunga, no entorno de Brasília, e pudemos constatar a produção em grande escala que é feita lá, com mais de 100 trabalhadores, produzindo sem agrotóxicos. Então, esse pensamento das autoridades brasileiras é consequência de uma cultura que veio ganhando espaço através das universidades desde a década de 1970, com a superação das sementes criollas, tudo muito bem montado pelas multinacionais. São as mesmas empresas que já conhecemos, como Monsanto, Syngenta e Dow, cuja força nas universidades desde a década de 1970 violentou a agricultura tradicional e familiar, levando a uma ruptura cultural violenta. As próprias empresas de assistência técnica também ficaram reféns dessas multinacionais dos agrotóxicos. Eu não estava no Congresso na legislatura passada, mas nossos deputados e senadores foram enganados quando aprovaram os transgênicos, com o discurso que iriam reduzir o uso dos agrotóxicos. Essa era a tese do agronegócio, uma mentira. Hoje, dobramos o consumo de agrotóxicos e, mesmo quem produz transgênicos, precisa utilizar agrotóxicos e em grande escala. Enganaram o Congresso.

Que políticas públicas seriam necessárias para que outro tipo de agricultura fosse potencializada no país?

Nós já fizemos algumas recomendações ao governo federal, reforçamos, por exemplo, a necessidade de avançar na pesquisa e na assistência técnica para a produção agroecológica porque quando dizem não dá para produzir sem veneno, na verdade, o que falta é assistência técnica porque toda a assistência e toda a pesquisa estão voltadas para a produção com agrotóxicos. É lamentável quando visitamos algumas áreas e os próprios agricultores estão fazendo experimentos sem o uso de agrotóxicos.. Não cabe ao agricultor fazer experimentos, cabe ao Estado Brasileiro propiciar isso através das empresas de pesquisa e garantir ao agricultor uma assistência técnica para dar segurança para aquele investimento que ele está fazendo. É lamentável que apenas 22% dos produtores rurais do país tenham assistência técnica. Outro dado importante é que em algumas áreas rurais os índices de analfabetismo chegam a 25%. Então, um público com alto percentual de analfabetismo, sem assistência técnica, está lidando com veneno no dia-a-dia. São trabalhadores e trabalhadoras reféns dessas multinacionais. Por isso, além de avançar na assistência técnica, temos também que aumentar os impostos para essas empresas, porque trazem prejuízos à saúde, ao Sistema Único de Saúde (SUS), à Previdência Social. São muitos trabalhadores obrigados a se aposentar de maneira prematura. Portanto, os agrotóxicos trazem grande prejuízo para o povo brasileiro e, ainda assim, recebem incentivos. Temos que dar incentivo é para a produção agroecológica, que produz alimentos que garantem saúde e vida para o povo. Infelizmente, a produção agroecológica não tem incentivo.

A Revista Veja publicou recentemente uma matéria com o título ‘A Verdade sobre os agrotóxicos’. A publicação diz que esses produtos não representam riscos à saúde. Além disso, utilizando como fonte o coordenador geral de agrotóxicos do Ministério da Agricultura, Luís Eduardo Rangel, a revista afirma que o registro dos agrotóxicos no país é muito caro. O que o relatório aponta sobre isso?

Essa matéria da Veja não me espanta. É ridícula e não corresponde à realidade da vida, dos trabalhadores do campo e do povo brasileiro. O valor pago pelo registro no Brasil é irrisório se compararmos com o custo do registro nos Estados Unidos, por exemplo. Inclusive, estamos com projetos para aumentar o valor da taxa, tanto para o registro, quanto para a avaliação. E exigimos também a reavaliação dos agrotóxicos a cada cinco anos. Atualmente, o produto fica registrado por um tempo indeterminado e não tem acompanhamento dos riscos para determinar se ele precisa ser retirado ou não do mercado.

O relatório apresenta também dados sobre a destinação final das embalagens dos agrotóxicos. Qual a dimensão desse problema?

Esse é um problema muito grave. Os dados que as empresas apresentaram de retorno das embalagens vazias de agrotóxicos não correspondem à verdade. O Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (Inpev), fundado pelas próprias empresas, trabalha com um número bem menor do que o total das empresas de agrotóxicos no Brasil. Eles trabalham com menos de 100 empresas, e, no total, são 136 com registro no país. Outro problema sério é quando o estabelecimento comercial obriga o agricultor a assinar um termo de compromisso que o responsabiliza pela entrega da embalagem no posto de recolhimento estipulado pelas empresas. Muitas vezes, esse posto está distante 300 quilômetros da propriedade rural. Tem estado com apenas um posto de coleta. Então, é algo totalmente precário, recolhem o mínimo e insistem que coletam 94% das embalagens. E essa embalagem não coletada é reutilizada na própria lavoura, como eu disse anteriormente, pelo problema do analfabetismo e da falta de orientação. De forma inocente, as pessoas reutilizam as embalagens para uso doméstico, em currais, e até para armazenar alimentos.

Outro apontamento do trabalho da subcomissão é uma maior integração entre os setores responsáveis pela fiscalização dos agrotóxicos e os órgãos estaduais. Mas sabemos que há um pensamento predominante de defesa do agronegócio e de métodos deste modelo de produção que tem se mostrado prejudiciais à saúde humana e ambiental. Como potencializar a fiscalização dos agrotóxicos diante desse quadro de governos que defendem as práticas do agronegócio?

Só vamos ter essa realidade quando a população tomar consciência de que ela está sendo envenenada a cada dia. Nesse sentido, eu saúdo o cineasta Silvio Tendler que, com o filme ‘O Veneno está na mesa ‘, aborda essa realidade. A população é tem que criar essa consciência coletiva e dar um basta. Não dá para esperar isso dos governos e dos políticos porque essas empresas também financiam campanhas políticas. No próprio Congresso, a maioria está em defesa do agronegócio, que não abre mão da utilização de veneno na produção de alimentos. E é lamentável quando temos uma mesma empresa que mata o povo com uma mão e dá o remédio com a outra. A Bayer, por exemplo, ao mesmo tempo que fabrica venenos, também produz medicamentos.Essa legislação precisa ser revista com urgência.

A conclusão do relatório aponta que o ideal seria o banimento total dos agrotóxicos e que isso pode acontecer a médio e longo prazo. De que forma isso pode ser feito?

Eu não posso dizer que essa mudança será em 10 ou 20 anos, mas acredito e vou lutar por ela. Quem diria que a Alemanha daria um basta à energia nuclear, com a meta de em 2020 não ter nenhuma usina nuclear funcionando? E justo em um país que não tem disponibilidade solar e de recursos hídricos, mas está criando condições para ter energia renovável. Eu acredito que um país como o nosso, com terra fértil, água e com tantos experimentos bem sucedidos na produção agroecológica, conseguirá alimentar não só os 200 milhões de brasileiros, mas dar uma grande contribuição para todos os outros continentes na produção de alimentos que vão garantir saúde e vida para o povo. Hoje, a grande produção está enganando a população, porque a pessoa compra pimentão, mas está comprando pimentão mais veneno. E muitos ainda não têm a clareza de que não basta apenas lavar o alimento. Isso retira apenas o resíduo externo, não o veneno, que está impregnado no alimento. Precisamos de uma posição do governo federal, junto com o Congresso, para banir de vez a utilização de agrotóxicos. Por isso, é urgente avançarmos na pesquisa e na assistência técnica para produção agroecológica. As indicações da subcomissão já foram encaminhadas aos diversos setores do poder público. Agora, iremos trabalhar cada uma delas fazendo gestões nos ministérios para os quais foram feitas as recomendações, além da Secretaria Geral da Presidência da República e da Casa Civil. O que nos alegra é que o próprio secretário geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, cultiva uma produção agroecológica em seu sítio e tem essa consciência. Esperamos buscar dentro do próprio governo pessoas que tenham essa consciência e possam entrar nessa luta. A Fiocruz, a Anvisa, algumas universidades que já estão comprometidas, os movimentos sociais, todos são estratégicos. Temos que unir o campo e a cidade para criarmos as condições para a superação do uso de agrotóxicos, já que nossa vida depende do que comemos e bebemos.

http://carosamigos.terra.com.br/index2/index.php/noticias/2708-agrotoxicos-relatorio-mostra-riscos-de-uso-e-sugere-medidas

UEL 2010

27) Observe a tabela a seguir elaborada por Pierre Bourdieu:

(Adaptado de: BOURDIEU, P. Distinction… op. cit. apêndice 3. Tabela A6, p. 534. In. ALMEIDA, H. B.; SZWAKO, J. E. (orgs.). Diferenças, Igualdade. São Paulo: Berlendis & Vertecchia, 2009, p. 50.)

 

Com base na tabela, é correto afirmar:
a) A pesquisa sobre as classes sociais indica as similitudes e simetrias dos gostos e práticas sociais das classes baixas, médias e superiores.
b) A pesquisa sobre as classes baixas, médias e altas revela o quanto a dimensão cultural dificilmente coincide com a dimensão econômica das diferenças.
c) A pesquisa sobre a dimensão cultural das classes sociais demonstra que há diferenças nos seus estilos de vida e de consumo.
d) A pesquisa sobre as classes sociais e suas hierarquias desautorizam as afirmações sobre possíveis assimetrias nas escolhas de consumo.
e) A pesquisa sobre o consumo e as prática sociais das três classes denuncia a apropriação da cultura popular pelas classes superiores.

 

Resposta: C

O mito da energia abundante

Por Ricardo Abramovay*

É preciso cuidado com a principal conclusão do relatório lançado pelo IPCC em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, na segunda semana de maio: a energia renovável poderá mover a economia mundial já em 2050 [1]. É bem verdade que, mesmo antes da divulgação do estudo completo (que só estaria disponível no início de junho de 2011 e tem mais de mil páginas), as informações do sumário para os gestores públicos são impactantes.

Quarenta e sete por cento do aumento na capacidade de geração de energia elétrica no mundo, em 2008 e 2009, vieram de fontes não fósseis. Os países em desenvolvimento respondem por mais da metade dessa elevação. Em 2009, a energia eólica expandiu-se 32% e a originária de células fotovoltaicas 53%, com relação ao ano anterior. A participação dos biocombustíveis na matriz energética mundial dos transportes cresceu de 2% para 3% entre 2008 e 2009. Também se ampliaram de maneira considerável as energias renováveis descentralizadas, sobretudo em regiões rurais. A curva de aprendizagem das energias renováveis tem levado à redução em seus preços: o silicone presente nas células fotovoltaicas caiu de US$ 65 em 1976 para US$ 1,4 em 2010. O custo da produção elétrica eólica nos Estados Unidos caiu de US$ 4,3 por watt em 1984 para US$ 1,9 em 2009.

Mas a mensagem central do relatório só pode inspirar precaução: “O potencial técnico global das fontes de energias renováveis não limitará o crescimento continuado de seu uso” (página 7 do resumo para gestores públicos). Os estudos compilados pelo IPCC indicam que a oferta dessas fontes poderia ser maior que a demanda de energia derivada da expansão econômica mundial. As promessas estão na energia solar, seguida pela biomassa, pela eólica e pela geotérmica. Em 2050, nada menos que 80% da energia da qual depende o planeta poderia vir de fontes não fósseis.

Infelizmente, porém, não é esta a leitura mais realista que se pode fazer das próprias informações do trabalho do IPCC. Primeiramente, deve-se lembrar que o ponto de partida das energias renováveis é muito baixo. A cifra de quase 13% da matriz mundial corresponde, na verdade, em sua maioria, à biomassa para cozinha e, em menor proporção, para aquecimento, em países muito pobres. As energias mais promissoras partem de um patamar quase irrisório: 0,1% para a solar, 0,1% para a geotérmica, 0,2% para a eólica e 2,3% para as hidrelétricas, cujos limites de crescimento são conhecidos. Quanto às bioenergias modernas, até aqui, somente o etanol de cana-de-açúcar oferece eficiência energética e econômica, apesar do otimismo que cerca o etanol celulósico.

Esta é a razão pela qual, longe da convergência em torno de uma suposta emancipação das energias renováveis em 2050, anunciada com certo alarde na imprensa mundial, os cenários estudados pelo IPCC são, na verdade, bem menos otimistas. Mais da metade deles considera que, em 2030, as energias renováveis serão 17% do total, chegando a 27% em 2050. Apenas alguns poucos cenários apontam para a perspectiva de 43% em 2030 e 77% em 2050.

Apesar das óbvias vantagens e dos imensos potenciais técnicos das energias renováveis, a transição para uma sociedade quase independente de combustíveis fósseis não será levada adiante em algumas poucas décadas. Excesso de otimismo, nesse caso, pode desviar a atenção de duas questões decisivas.

A primeira refere-se à urgência de uma utilização mais racional e, sobretudo, mais parcimoniosa da energia e dos materiais de que depende a economia mundial. O avanço das energias renováveis não pode estimular o mito de um mundo em que os limites dos ecossistemas deixam de existir em virtude da menor dependência com relação a petróleo, carvão e gás.

A segunda consiste em reduzir drasticamente a desigualdade no uso da energia, o que supõe mudanças fundamentais nos próprios padrões de consumo das sociedades contemporâneas: o consumo per capita de energia nos Estados Unidos, por exemplo, é mais de 15 vezes superior ao da Índia. No planejamento da descarbonização da economia mundial, o avanço das energias renováveis é tão importante quanto a redução desse vergonhoso abismo.

[1] Acesse o relatório em www.ipcc.ch, clicando em “report”.

* Ricardo Abramovay é professor titular do Departamento de Economia da Faculdade de Economia e Administração da USP, do Instituto de Relações Internacionais da USP, coordenador de seu Núcleo de Economia Socioambiental, pesquisador do CNPq e da Fapesp.www.abramovay.pro.br.

The story of Cap & Trade – A história do Cap & Trade

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A História do Cap and Trade
Direção: Annie Leonard, Jonah Sachs and Louis Fox
Produção: Free Range Studios
Duração: 20 min.
Site: http://storyofcapandtrade.org

Dos mesmos diretores de A História das Coisas, neste novo filme animado a autora, Annie Leanard, revela os riscos dos esquemas de Wall Street e das grandes companhias energéticas que se escondem por trás do mercado de carbono.

* traduzido e legendado pela equipe do Cine-clube Socioambiental Crisantempo

Ilha das flores

Terrível exposição da atuação de alguns estratos sociais nas relações de produção, distribuição, consumo e descarte de alimentos no Brasil.

parte 1

parte 2

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