A primavera árabe e as ervas daninhas

Começam a aparecer relações promíscuas que FMI e Banco Mundial estabeleceram com ditadores árabes, para promover “liberdade de negócios”

Por Luís F. C. Nagao

Visto como um dos articuladores da revolta jovem que derrotou o ditador Hosni Mubarack e está começando a mudar Egito, o jovem Wael Ghonin – um executivo do Google – compareceu pessoalmente, em 15 de abril, à reunião conjunta de primavera (nórdica) do FMI e Banco Mundial, celebrada em Nova York. Tinha uma denúncia a apresentar: o envolvimento das duas instituições com regimes árabes que praticavam torturas, censuravam a imprensa e desrespeitavam os direitos humanos mais elementares. “Eram cúmplices. A forma como a comunidade internacional lidou com a injustiça e os ditadores é, basicamente, um crime”, afirmou Wael.

Ele procurava tornar pública uma relação que tem sido cuidadosamente ocultada pela mídia comercial nos últimos meses. A relação entre FMI e Banco Mundial com as ditaduras árabes foi marcada, durante décadas, por colaboração e cordialidade. O caráter autocrático dos regimes era perfeitamente conhecido. Mas o que orientava o critério das instituições era o fato de os ditadores criarem, em seus países, um ambiente favorável aos negócios e lucros de empresas e bancos internacionais.

No Egito, onde a mobilização popular segue intensa, os fatos estão começando a aparecer mais claramente. Um elo para a relação entre as duas partes foi Yusef Boutros-Gali, membro de uma influente família de políticos egípcios (e sobrinho do ex-secretário-geral da ONU, Boutros Boutros-Gali).

No início dos anos 1980, como jovem executivo formado no Ocidente, ele foi um dos negociadores da reestruturação da dívida externa de seu país. O processo resultou na privatização de uma série de estatais egípcias e na abertura ampla aos investimentos estrangeiros. Em 2004, quando Boutros-Gali já ascendera à condição de ministro das Finanças, a entrada de capitais externos chegou a 10 bilhões de dólares. No entanto, as políticas associadas à liberalização provocaram aumento notável da desigualdade e da pobreza.

Nada disso incomodou o Banco Mundial, Em 2007, um relatório da instituição, denominado Doing Business Report [“Relatório sobre Ambientes de Negócio”] cobriu o Egito de elogios e chegou a tratá-lo como “o país mais reformista do mundo”.

As políticas econômicas adotadas pelas ditaduras com aplauso do FMI e Banco Mundial acabariam ajudando a desencadear as revoltas árabes. Na reunião de abril, o próprio diretor-gerente do Fundo, Dominique Strauss-Kahn viu-se obrigado a um mea-culpa. “O que ocorreu no Norte da África”, admitiu ele, “mostra que não é suficiente levar em conta os bons dados macroeconômicos. Temos de olhar muito além disso”.

O FMI e o Banco Mundial serão capazes de se emendar? Pelo menos por enquanto, os fatos não fazem crer. Numa das três diretorias-gerais do Banco Mundial, logo abaixo do presidente Robert Zoellick (uma indicação de George W. Bush), continua instalado o egípcio Mahmoud Mohieldin, empossado em outubro de 2010. Além de co-responsável pela política econômica da ditadura egípcia (na condição de ministro dos Investimentos de Mubarak), ele é acusado em seu país de favorecimento, na privatização de uma cadeia de hotéis.

http://www.outraspalavras.net/2011/05/04/a-primavera-arabe-e-as-ervas-daninhas/

A estranheza da democracia

A crise no Egito evidenciou a dificuldade de adaptação aos novos tempos da diplomacia das grandes potências, especialmente dos EUA, a novas situações e grupos políticos emergentes que demandam a transição da democracia do discurso para a prática. Presa a paradigmas de “bem e mal” da Guerra Fria, esta diplomacia é capaz de oferecer “discursos históricos” ao lado da mais conhecida repressão e boicotes, acomodando-se a situações que lhe parecem de baixo custo. Mubarak, neste sentido, representava, segundo estes cálculos, um baixo custo, diante de um Oriente Médio conturbado e desorganizado pela estagnação política. O artigo é de Cristina Soreanu Pecequilo.
14/02/2011 Agência Carta Maior
Cristina Soreanu Pecequilo *

Um dos termos mais utilizados na retórica da política internacional, ao lado de paz e guerra, é democracia. Traduzida e manipulada pelos mais diferentes interesses e grupos políticos, a palavra pode ser levada a extremos como ao justificar a invasão norte-americana ao Iraque em 2003 ou a Guerra Contra o Terror de 2001 do Afeganistão em 2001. Para os Estados Unidos (EUA), trata-se de motivação de uso corrente para legitimar intervenções externas para o seu público interno e que ultrapassa fronteiras. Mesmo com o patente unilateralismo de George W. Bush, alguns veículos e analistas chegaram a definir este momento como o início de uma “Primavera dos Povos” para o Oriente Médio, similar a 1989 na Europa Oriental.

Esvaziada pela realidade, que levou ao fracasso desta manipulação, esta “Primavera” de 2003, reapareceu novamente no Oriente Médio sob o signo da retórica norte-americana. No Cairo, em 2009, Barack Obama pronunciou um de seus muitos discursos classificado como “histórico”. A reconstrução estratégica da região, o renascimento do processo de paz, o diálogo entre civilizaçõe e a recuperação dos laços dos EUA com seus parceiros locais e novos parceiros a serem conquistados foram anunciados como prioridades da política externa. Este e outros pronunciamentos de teor similar na África e na Ásia foram considerados motivos para a concessão do Prêmio Nobel da Paz a Obama naquele mesmo ano.

Poucos foram os que apontaram os paradoxos que envolviam tal discurso: sua realização no Egito, governado a mais de três décadas por Hosni Mubarak de forma autoritária, e a recuperação do “diálogo entre civilizações” lançada originalmente por Mohammad Khatami, Presidente do Irã de 1997 a 2005. Eleito pelo voto popular, o reformista Khatami fez esforços significativos para reaproximação do Irã com o Ocidente, mas que foi rechaçado pelos conservadores norte-americanos, mesmo com a política de descongelamento parcial do Presidente Bill Clinton e da Secretária de Estado Madeleine Albright. Apesar de definido como o “Gorbachev do Oriente” em alusão a glasnost e a perestroika soviética de liberalização econômica , a iniciativa foi ofuscada pelo choque das civilizações do Ocidente contra o resto de Samuel P. Huntington.

Mais uma vez, a democracia para o mundo árabe surgia de forma intercambiável, i.e, condicionada a interesses de segurança e preocupações geopolíticas dos EUA, e de seus aliados mais próximos como Israel. A visão ignorada de Khatami era revitalizada pela retórica da hegemonia, mas limitada pela realidade de poder que definia o que era democracia e qual o seu alcance: ou seja, a democracia que impede o acesso ao processo de grupos definidos como fundamentalistas pelos que estão no governo ou por ingerência externa. Em alguns, prática aceita como no Egito, Argélia e outros aliados, e em outros, criticada e deslegitimada (Irã, Autoridade Palestina, Líbano).

Obama nada mais fazia do que reafirmar a clássica política norte-americana de “tolerar o mal para alcançar o bem”, conforme definida pelo historiador John Lewis Gaddis (1998) quando, na Guerra Fria, os EUA optaram por apoiar ditadores e golpes contra governantes democraticamente eleitos em nome do combate ao comunismo. O mal continua sendo entendido como regimes autoritários, nos quais a democracia é permeável a interesses de preservação do status quo. O bem, a democracia, é o objetivo final, mas como um modelo fechado de soluções e regras que serão definidas pelo contexto e as necessidades de determinados grupos no poder. A Primavera, no caso, não era, e não seria, mais uma vez para todos.

Todavia, o tensionamento interno nestas sociedades impediu a continuidade destas transições controladas e políticas de acomodação, repetindo um fenômeno que já se fez presente na América Latina no século XXI: o da ampliação da participação popular e de pressões sobre os governos estabelecidos, visando a sua correção de rumos para maior inclusão social ou o término de regimes autoritários. Apesar de definida como polarizada e anti-democrática pelos críticos e opositores, a transformação latino-americana está ocorrendo via sistema político depois de muitos anos de quebra institucional. Ao trazer ao poder segmentos antes excluídos com a eleição de Luis Inácio Lula da Silva no Brasil, Hugo Chavéz na Venezuela, Evo Morales na Bolívia e Rafael Correa no Equador, somente para citar alguns, os regimes adaptam-se, não sem crises, mas demonstram sua vitalidade. Na África tendências similares são observadas, assim como a preocupação em alcançar soluções autóctones para problemas do continente, sem ingerências externas.

A eclosão da revolta no mundo árabe representa mais um capítulo nesta busca de voz e autonomia. Como se pode ver pelo movimento no Egito, e mesmo nos protestos que se seguiram à reeleição de Ahmadinejad no Irã, existe uma razoável dificuldade em que este ciclo de reivindicações seja absorvido pelo sistema político. A somatória de resistências internas à demanda geopolítica externa, que intensifica situações de ingerência e temores de perda de soberania, gera situações limite.

Pensando no Egito, o apoio norte-americano a Mubarak somente diminuiu com o agravamento da situação interna. A partir do momento em que se solidificou a percepção de que sua permanência no poder tornou-se insustentável, os EUA, via Departamento de Estado e Casa Branca, sinalizaram à Mubarak a necessidade de sua saída, recompondo alianças com as Forças Armadas. A intensificação dos protestos subestimados pelos EUA, somente demonstrou o equívoco em dar sustentabilidade ao regime de Mubarak, em particular nos últimos anos, apesar da piora da situação econômica e dos impasses políticos.

A presença cada vez mais ostensiva dos EUA no Oriente Médio, com as Guerras do Afeganistão e Iraque, a pressão sobre o Irã, o fracasso do processo de paz com os palestinos, a condescendência com Israel, também é um componente que perpassa este movimento. Estes fatores somente serviram para agravar o sentimento anti-ocidental na região, revitalizando o desejo de nacionalismo, identidade e independência que tinham sido o motor do processo de descolonização nos anos 1950/1960 e que se encontravam latentes nestas sociedades.

A crise no Egito evidenciou a dificuldade de adaptação aos novos tempos da diplomacia das grandes potências, especialmente dos EUA, a novas situações e grupos políticos emergentes que demandam a transição da democracia do discurso para a prática. Presa a paradigmas de “bem e mal” da Guerra Fria, esta diplomacia é capaz de oferecer “discursos históricos” ao lado da mais conhecida repressão e boicotes, acomodando-se a situações que lhe parecem de baixo custo. Mubarak, neste sentido, representava, segundo estes cálculos, um baixo custo, diante de um Oriente Médio conturbado e desorganizado pela estagnação política e intervenções.

Desde a assinatura dos Tratados de Paz entre Israel e Egito em Camp David, 1979, o país deixara de ser uma fonte de crise estratégica para tornar-se aliado e uma preocupação geopolítica “a menos” tanto para Israel quanto para os EUA. Não só os EUA, mas Israel, Mubarak e outros países do mundo árabe acomodaram-se em situações conhecidas, fossem elas democráticas ou autoritárias. Ao invés de preparar uma transição gradual que garantisse e avançasse estes processos, dando-lhes sustentabilidade, a opção foi a da continuidade.

Na prática, isto significou a paralisia da democracia nestas sociedades e mesmo o retrocesso das negociações de paz na região, que colocou em xeque a manutenção do poder. A regra do Egito aplicou-se a outras nações aliadas como Jordânia e na península arábica, ignorando-se sinais de insatisfação. Frente ao efeito demonstrativo das manifestações egípcias e seu desfecho com a saída de Mubarak, a tática para estas nações também se alterou: as orientações passaram a ser não mais de resistência, mas de reacomodação e atualização.

Enquanto isso, no Egito, algumas palavras, além da democracia, tornaram-se chave: transição, paz e estabilidade, pregando a tolerância pouco exercida pelo regime anterior. Nas entrelinhas, uma democracia “comportada” e que não quebre os compromissos prévios principalmente no campo do processo de paz e que deixa em aberto a pergunta: o que fará a diplomacia norte-americana caso os resultados de futuras eleições no Egito tragam ao poder grupos considerados como pouco confiáveis? O apoio permanecerá às Forças Armadas, responsáveis pela transferência de poder pós-Mubarak caso estas não consigam sustentar sua influência política? Ou haverá apoio ao novo governo, independente de qual for, reiterando a idéia do “diálogo”?

Estas são perguntas sem resposta. O que é definido por alguns como turbulência é, na realidade, o renascimento dos povos. Um renascimento que deixa bastante claro que o núcleo dinâmico da política está nas periferias do mundo em desenvolvimento. O clamor é pela democracia ocidental, que, nos Estados que mais a utilizam como discurso, encontra-se estagnada como procedimento em meio às polarizações, perda de valores, radicalismos e xenofobia. Do mundo árabe ao americano, passando pelo africano, o principal desafio destes novos grupos quando no poder será o de não reproduzir estes erros e os de seus antecessores, dando continuidade à reforma. Este não é um processo fácil, e, por vezes, até por uma razão de sobrevivência, alguns regimes poderão recorrer a práticas que hoje criticam, devendo ser igualmente questionados.

Neste caminho, devemos nos perguntar por que algo que aparece com tanta freqüência no senso comum e nos discursos, como “a democracia”, causa tanto desconforto quando associada às demandas por maior participação política de correntes definidas como “diferentes” e “preocupantes” , da Irmandade Muçulmana egípcia, ao socialismo de Chavéz ou mesmo as políticas de inclusão social aqui no Brasil. Afinal, é nesta suposta estranheza da democracia que reside seu valor, princípio e promessa.

(*) Professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)

O que Egito e Tunísia dizem sobre Irã?

Por Pouya Alimagham, do Informed Comment | Tradução: Bruno Cava

Tem havido muito debate sobre se as recentes revoluções na Tunísia e Egito, especialmente a última, vão produzir um sistema semelhante àquele nascido da Revolução Islâmica no Irã, em 1979. Contudo, ao focar nesta que é, de fato, uma questão importante, dois pontos cruciais passam despercebidos. A velocidade com que essas duas revoluções aconteceram dizem-nos alguma coisa sobre a durabilidade do regime no Irã; ao mesmo tempo que contestam a narrativa da Revolução Islâmica sobre o discurso revolucionário no Oriente Médio.

Nitidamente, o regime egípcio — com todo o apoio regional e internacional, décadas de construção institucional e massivo aparato de segurança — colapsou depois de enfrentar somente 18 dias de um movimento de protesto, todavia incansável e articulado, que não admitiria qualquer compromisso menor do que a expulsão de Mubarak.

A inabilidade do governo egípcio em sobreviver ao movimento de protesto contrasta com a contínua manutenção do poder pelo governo iraniano. Depois de 12 de junho, durante a eleição presidencial de 2009, grandes frações da sociedade iraniana moldaram a campanha eleitoral de Mousavi como um protesto popular que cresceu rapidamente e alcançou cerca de três milhões de pessoas só em Teerã, três dias depois do anúncio dos resultados. A velocidade com que floresceram os protestos provocou o Líder Supremo Ali Khamanei a ordenar a repressão uma semana depois. Através do uso de coerçãop em massa e acionamento de seus próprios grupos de apoio, um número considerável, o regime sistematicamente recuperou o controle das ruas, depois de meses de manifestações intermitentes. A eficácia com que o regime exerceu a sua vontade nos manifestantes e sua habilidade de mobilizar centenas de milhares de simpatizantes significam a sua habilidade de subsistir em face de ameaças explosivas e prolongadas à autoridade.

Que um governo relativamente isolado como do Irã foi capaz de acalmar tão prolongada tempestade, durando oito meses no total, enquanto o regime poderoso do Egito, que desfrutava de suporte regional e internacional, em especial dos EUA, caiu depois de apenas 18 dias atesta a durabilidade do governo iraniano. Este é um ponto importante que merece consideração, quando se calcula como promover uma mudança não-violenta e democrática no Irã.

Quer dizer, marchas e demonstrações sozinhas não serão suficientes para uma mudança pacífica do regime no Irã. Enquanto a oposição iraniana tenta reavivar seu próprio movimento ao aproveitar o ímpeto das revoluções no Egito e Tunísia, a sua estratégia não deveria limitar-se à atividade nas ruas, como ocorreu no passado, mas expandi-la numa abordagem mais ampla, incluindo greves, acampamentos na Praça da Libertação do próprio Irã e, mais importante, estocar apoios das forças armadas do Irã — tudo isso que foram táticas vitais ao sucesso do Egito.

Além de solapar a capacidade da Revolução Islãmica em durar, e sublinhar a necessidade de uma estratégia mais ampla à ação não-violenta no Irã, as revoluções na Tunísia e Egito também apresentam um desafio ideológico ao discurso iraniano sobre a revolução. Especificamente, essas recentes revoluções trazem dúvida sobre a narrativa do regime que a Revolução Islâmica é o único caminho pelo qual é possível derrubar ditadores profundamente estabelecidos na região e com patrocínio estrangeiro. Até então, a Revolução Iraniana de 1979 tinha sido a única revolução popular no Oriente Médio. A Revolução Egípcia de 1952 e a Iraquiana de 1958 não foram revoluções no sentido tradicional, mas golpes militares com respaldo popular contra monarcas odiados. Como o único país a orquestrar uma revolução popular, o governo iraniano argumentou que a revolução é possível no Oriente Médio somente nos moldes do Revivalismo Islâmico [NT. Para mais a respeito: http://pt.wikipedia.org/wiki/Revivalismo%5D, colocando essa história como testamento para a contenção [dos protestos]. Argumentando que somente a crença do povo no Islã como ideologia conferiu força ao movimento revolucionário para derrubar o regime pró-ocidente do Xá, tal narrativa da Revolução Iraniana marginaliza outros fatores e grupos que contribuíram à emergência e sucesso revolucionários.

Embora permaneça incerta qual direção será afinal tomada, simplesmente por emergir de moldes seculares e nacionalistas, o triunfo atual das revoluções tunisiana e egípcia fornecem uma alternativa à teoria da revolução do governo iraniano. Assim, elas inadvertidamente destacam-se do escopo da Revolução Islâmica, que o governo iraniano há tempos é especialista. Noutras palavras, a Revolução Islâmica não pode mais reclamar ser o único caminho à revolução. Essa contestação ao discurso do governo iraniano sobre a revolução explica por que as autoridades no Irã, conquanto não convincentemente, tentam representar as revoluções recentes no Egito e Tunísia como parte de um Despertar Islâmico alargado.

Portanto, além das discussões repisadas sobre a improbabilidade dessas revoluções seguirem numa trajetória similar à do Irã em 1979, os dois pontos relacionados à durabilidade do regime iraniano e a contestação colocada à narrativa revolucionária demandam atenção, pelo insight crucial que oferecem aos observadores iranianos. A rapidez com que as ditaduras no Egito e Tunísia caíram ergue-se em contraste brilhante à sobrevivência do governo do Irã depois do tumulto pós-eleição em 2009 — um ponto crítico que precisa ser considerado quando se elaboram estratégias sobre como promover uma mudança democrática não-violenta no Irã.

Concomitantemente, essas revoluções recentes trazem à baila uma alternativa que desafia a narrativa do governo iraniano sobre a revolução, revelando que a revolução não precisa ser necessariamente islamista, de maneira a obter a vitória sobre um regime autoritário aparentemente invencível.

Pouya Alimagham é estudante Ph.D. na Universidade de Michigan, edita o blogue iPouya e é colunista do Informed Comment, mantido por Juan Cole.

Todo lo sólido se desvanece en la calle

Raúl Zibechi
2011-02-15

Las revueltas del hambre que sacuden al mundo árabe pueden ser apenas las primeras oleadas del gran tsunami social que se está engendrando en las profundidades de los pueblos más pobres del planeta. El fenomenal aumento de los alimentos (58% el maíz, 62 % el trigo en un año) se está convirtiendo en la espoleta que dinamiza los estallidos pero el combustible lo aporta la brutal especulación financiera que se está focalizando, nuevamente, en las materias primas. Algunos precios ya superaron los picos de 2008, aunque el Banco Mundial y el FMI se muestran incapaces de frenar la especulación con los alimentos, con la vida.

Dos hechos llaman la atención en la revuelta árabe: la velocidad con que las revueltas de hambre se convirtieron en revueltas políticas y el temor de las elites dominantes que no atinaron, durante décadas, a otra cosa que no fuera resolver problemas políticos y sociales con seguridad interna y represión. La primera habla de una nueva politización de los pobres del Medio Oriente. La segunda, de las dificultades de los de arriba para convivir con esa politización. El sistema está mostrando sobradamente que puede convivir con cualquier autoridad estatal, aún la más “radical” o “antisistema” , pero no puede tolerar la gente en la calle, la revuelta, la rebelión permanente. Digamos que la gente en la calle es el palo en la rueda de la acumulación de capital, por eso una de las primeras “medidas” que tomaron los militares luego que Mubarak se retirara a descansar, fue exigir a la población que abandonara la calle y retornara al trabajo.

Si los de arriba no pueden convivir con la calle y las plazas ocupadas, los de abajo -que hemos aprendido a derribar faraones- no aprendimos aún cómo trabar los flujos, los movimientos del capital. Algo mucho más complejo que bloquear tanques o dispersar policías antimotines, porque a diferencia de los aparatos estatales el capital fluye desterritorializado , siendo imposible darle caza. Más aún: nos atraviesa, modela nuestros cuerpos y comportamientos, se mete en nuestra vida cotidiana y, como señaló Foucault, comparte nuestras camas y sueños. Aunque existe un afuera del Estado y sus instituciones, es difícil imaginar un afuera del capital. Para combatirlo no son suficientes ni las barricadas ni las revueltas.

Pese a estas limitaciones, las revueltas del hambre devenidas en revueltas antidictatoriales son cargas de profundidad en los equilibrios más importantes del sistema-mundo, que no podrá atravesar indemne la desestabilizació n que se vive en Medio Oriente. La prensa de izquierda israelí acertó en señalar que lo que menos necesita la región es algún tipo de estabilidad. En palabras de Gideon Levy, estabilidad es que millones de árabes, entre ellos dos millones y medio de palestinos, vivan sin derechos o bajo regímenes criminales y terroríficas tiranías (Haaretz, 10 de febrero de 2011).

Cuando millones ganan las calles, todo es posible. Como suele suceder en los terremotos, primero caen las estructuras más pesadas y peor construidas, o sea los regímenes más vetustos y menos legítimos. Sin embargo, una vez pasado el temblor inicial, comienzan a hacerse visibles las grietas, los muros cuarteados y las vigas que, sobreexigidas, ya no pueden soportar las estructuras. A los grandes sacudones suceden cambios graduales pero de mayor profundidad. Algo de eso vivimos en Sudamérica entre el Caracazo venezolano de 1989 y la segunda Guerra del Gas de 2005 en Bolivia. Con los años, las fuerzas que apuntalaron el modelo neoliberal fueron forzadas a abandonar los gobiernos para instalarse una nueva relación de fuerzas en la región.

Estamos ingresando en un período de incertidumbre y creciente desorden. En Sudamérica existe una potencia emergente como Brasil que ha sido capaz de ir armando una arquitectura alternativa a la que comenzó a colapsar. La UNASUR es buen ejemplo de ello. En Medio Oriente todo indica que las cosas serán mucho más complejas, por la enorme polarización política y social, por la fuerte y feroz competencia interestatal y porque tanto Estados Unidos como Israel creen jugarse su futuro en sostener realidades que ya no es posible seguir apuntalando.

Medio Oriente conjuga algunas de las más brutales contradicciones del mundo actual. Primero, el empeño en sostener un unilateralismo trasnochado. Segundo, es la región donde más visible resulta la principal tendencia del mundo actual: la brutal concentración de poder y de riqueza. Nunca antes en la historia de la humanidad un solo país (Estados Unidos) gastó tanto en armas como el resto del mundo junto. Y es en Medio Oriente donde ese poder armado viene ejerciendo toda su potencia para apuntalar el sistema-mundo. Más: un pequeñísimo Estado de apenas siete millones de habitantes tiene el doble de armas nucleares que China, la segunda potencia mundial.

Es posible que la revuelta árabe abra una grieta en la descomunal concentración de poder que exhibe esa región desde el fin de la segunda guerra mundial. Sólo el tiempo dirá si se está cocinando un tsunami tan potente que ni el Pentágono será capaz de surfear sobre sus olas. No debemos olvidar, empero, que los tsunamis no hacen distinciones: arrastran derechas e izquierdas, justos y pecadores, rebeldes y conservadores. Es, no obstante, lo más parecido a una revolución: no deja nada en su lugar y provoca enormes sufrimientos antes de que las cosas vuelvan a algún tipo de normalidad que puede ser mejor o menos mala.

– Raúl Zibechi, periodista uruguayo, es docente e investigador en la Multiversidad Franciscana de América Latina, y asesor de varios colectivos sociales.

Oriente Médio: nada será como antes

A queda das ditaduras na Tunisia e no Egito demonstra que os EUA já não poderão manter o esquema de poder montado há mais de três décadas. Impotente para agir de forma direta no plano militar, os EUA tentam articular transições que mudem a forma de dominação, mas mantenham sua essência. O Exército preferiu a renúncia de Mubarak, porque se deu conta que sua presença unia a oposição. Tem esperança que, sem ele, possa cooptar setores opositores para uma coalização moderada – com El Baradei, a Irmandade Muçulmana, com o apoio dos EUA e da Europa. O artigo é de Emir Sader.

Emir Sader

Por duas fortes razões o Oriente Médio tornou-se um pilar da politica externa do império norteamericano: a necessidade estratégica do abastecimento de petróleo seguro e barato para os EUA, a Europa e o Japão, e a proteção a Israel – aliado fundamental dos EUA na região, cercado por países árabes.

Por isso o surgimento do nacionalismo árabe tornou-se um dos fantasmas mais assustadores para os EUA no mundo. Por um lado, pela nacionalização do petróleo pelos governos nacionalistas, afetando diretamente os interesses das gigantes do petróleo – norteamericanas ou europeias –, pela ideologia nacionalista e antimperialista que propagam – de que o egípcio Gamal Abder Nasser foi o principal expoente – e pela reivindicação da questão palestina.

A história contemporânea do Médio Oriente tem assim na guerra árabe-israelense de 1967 sua referência mais importante. A união dos governos árabes permitiu a retomada da reivindicação do direito ao Estado Palestino, que foi respondida por Israel com a invasão de novos territórios – inclusive do Egito -, com o apoio militar direto dos EUA.

Novo conflito se deu em 1973, agora acompanhado da politica da OPEP de elevação dos preços do petróleo. A partir daquele momento ou o Ocidente buscava superar sua dependência do petróleo ou trataria de dividir o mundo árabe. Triunfou esta segunda possibilidade, com a guerra Iraque-Irã, incentivada e armada pelos EUA, que golpeou dois países com governos nacionalistas, que se neutralizaram mutuamente, em um enfrentamento sangrento. Como sub-produto da guerra, o Iraque se sentiu autorizado a invadir o Kuwait – com anuência tácita dos EUA -, o que foi tomado como pretexto para a invasão do Iraque e o assentamento definitivo de tropas norte-americanas no centro mesmo da região mais rica em petróleo no mundo.

Os EUA conseguiram dividir o mundo árabe tendo, por um lado os regimes mais reacionários – encabeçados pelas monarquias, a começar pela Arabia Saudita, detentora da maior reserva de petróleo do mundo, e por outro governos moderados, como o Egito e a Jordânia. A maior conquista norteamericana foi a cooptação de Anuar el Sadar, o sucessor de Nasser, que supreendentemente normalizou relações com Israel – o primeiro regime da região a fazê-lo -, abrindo caminho para a criação de um bloco moderado, pró-norteamericano na região, que se caracteriza pela retomada de relações com Israel – portanto o reconhecimento do Estado de Israel – e praticamente o abandono da questão palestina. Passaram a atuar também dento da OPEP, como força moderadora, favorável aos interesses das potências ocidentais.

O Egito, como país de maior população da região, com grande produção de petróleo e país daquele que havia sido o maior lider nacionalista de toda a região – Nasser – passou a ser o peão fundamental no plano politico dos EUA na região. Não por acaso o Egito tornou-se o segundo país em auxilio militar dos EUA no mundo, depois de Israel e à frente da Colômbia.

Essa neutralização do mundo árabe, pela cooptação de governos e pela presença militar dos EUA no coração da região – atualizada com a invasão do Iraque – constituiu-se em elemento essencial da politica norteamericana no mundo e da garantia de abastecimento de petróleo para complementar a declinante produção dos EUA e todo o petróleo para abastecer a Europa e o Japão.

É isso que está em jogo agora, depois da queda das ditaduras na Tunísia e no Egito. Impotente para agir de forma direta no plano militar, os EUA tentam articular transições que mudem a forma de dominação, mas mantenham sua essência. O Exército preferiu a renúncia de Mubarak, porque se deu conta que sua presença unia a oposição. Tem esperança que, sem ele, possa cooptar setores opositores para uma coalização moderada – com El Baradei, a Irmandade Muçulmana, com o apoio dos EUA e da Europa – que possa fazer reformas constitucionais, mas controlar o processo sucessório nas eleições de setembro, conseguindo desmobilizar o movimento popular antes que este consigar forjar novas lideranças.

Indepentemente de que possa se estender a outros países da região – de que a Argélia, a Jordânia, o Marrocos, a Arabia Saudita, são candidatos fortes – a queda das ditaduras na Tunisia e no Egito demonstra que os EUA já não poderão manter o esquema de poder montado há mais de três décadas. O menos que se pode esperar é a instabilidade politica na região, até que outras coalizões de poder possam se organizar, cujo caráter dará a tônica do novo período em que entra o Orienta Médio.

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