“Eu, presidente da Bolívia, sequestrado em um aeroporto europeu”

01 de Agosto de 2013

A revelação, por Edward Snowden, do caráter tentacular da espionagem norte-americana não suscitou nada além de reações cautelosas dos dirigentes europeus, os quais, pelo contrário, não hesitaram em cercar o avião do presidente boliviano Evo Morales, suspeito de transportar o técnico em informática fugitivo.

por Evo Morales

 

No dia 2 de julho, ocorreu um dos episódios mais insólitos da história do direito internacional: a proibição do avião presidencial do Estado Plurinacional da Bolívia de sobrevoar os territórios francês, espanhol, italiano e português, e, em seguida, meu sequestro no aeroporto de Viena (Áustria), durante catorze horas. Algumas semanas depois, esse atentado contra a vida de membros de uma delegação oficial, cometido por Estados reputados por sua democracia e respeito às leis, continua a provocar indignação: abundam as condenações de cidadãos, organizações sociais, organismos internacionais e governos do mundo todo.

O que ocorreu? Eu estava em Moscou, alguns instantes antes do início de uma reunião com o presidente Vladimir Putin, quando um assistente me alertou sobre algumas dificuldades técnicas: seria impossível chegar a Portugal, como previsto inicialmente. Contudo, quando terminou minha reunião com o chefe de Estado russo, já estava claro que o problema não tinha nada de técnico.

Desde La Paz, nosso ministro de Relações Exteriores, David Choquehuanca, conseguiu organizar uma alternativa de voo com escala em Las Palmas de Gran Canaria, na Espanha, e validou o novo trajeto. Tudo parecia em ordem, até que, quando estávamos no ar, o coronel de aviação Celiar Arispe, comandante do Grupo Aéreo Presidencial e piloto na ocasião, veio até a cabine para conversar comigo. “Paris retirou a autorização de sobrevoo! Não poderemos penetrar no espaço aéreo francês.” Sua surpresa era menor do que sua preocupação: estávamos a ponto de passar sobre a França.

Poderíamos tentar retornar à Rússia, mas corríamos o risco de ficar sem gasolina. Diante dessa situação, o coronel Arispe contatou a torre de controle do aeroporto de Viena solicitando autorização para uma aterrissagem de urgência. Agradecemos às autoridades austríacas o sinal verde.

Instalado em um pequeno escritório colocado à minha disposição no aeroporto, conversava com meu vice-presidente, Álvaro García Linera, e Choquehuanca para decidir como proceder e, principalmente, tentar compreender as razões da decisão francesa – já que o piloto me informou também que tentara autorização da Itália para sobrevoar seu espaço aéreo e esta igualmente havia sido recusada.

Foi nesse momento que recebi a visita do embaixador da Espanha na Áustria, Alberto Carnero. Ele anunciou que um novo plano de voo acabara de ser aprovado pelo espaço aéreo espanhol. A única coisa, explicou o embaixador, é que seria preciso, antes, inspecionar o avião presidencial. Era uma condição sine qua non para podermos partir rumo a Las Palmas de Gran Canaria.

Quando questionei as razões dessa exigência, Carnero evocou o nome de Edward Snowden, o funcionário de uma empresa norte-americana contratada por Washington para realizar alguns serviços de inteligência terceirizados. Respondi que o conhecia apenas por notícias publicadas em meios de comunicação e recordei ao diplomata espanhol que meu país respeitava as convenções internacionais: em nenhuma circunstância eu levaria alguém clandestinamente para a Bolívia.

Carnero manteve-se em contato permanente com o subsecretário de Relações Exteriores espanhol, Rafael Mendívil Peydro, que, com toda a propriedade, orientava o embaixador a insistir. “Você não tem o direito de inspecionar esse avião. Se você não acredita no que digo, é porque está tratando o presidente do Estado soberano da Bolívia como mentiroso”, insisti de minha parte. O diplomata saiu novamente para escutar as orientações de seu superior, antes de retornar à sala. Ele me pediu, então, que o convidasse a “tomar um cafezinho” no avião. “Você está me tomando por um delinquente?”, perguntei. “Se você insistir em penetrar nesse avião, terá de fazê-lo pelo uso da força. E eu não resistirei a uma operação militar ou policial: não tenho meios para isso”.

Temeroso, o embaixador descartou a opção da força, não sem precisar que, naquelas condições, ele não poderia autorizar nosso plano de voo: “Às nove horas da manhã, indicaremos se você poderá ou não partir. Daqui até lá, vamos discutir o tema com nossos amigos”, explicou. “Amigos? Mas quem são esses ‘amigos’ da Espanha aos quais você se refere? A França e a Itália, certo?” Ele se recusou a responder e se retirou.

Aproveitei o momento para discutir com a presidente argentina Cristina Fernández – excelente advogada que me guiou em relação a questões jurídicas – e com os presidentes venezuelano e equatoriano, Nicolas Maduro e Rafael Correa, ambos inquietos em relação ao episódio. O presidente Correa voltaria a me telefonar diversas vezes durante o dia para ter notícias minhas. Essa solidariedade me deu forças: “Evo, eles não têm nenhum direito de inspecionar seu avião!”, repetiam. Eu ignorava que meu avião presidencial possuía o mesmo estatuto de uma embaixada. Mas esses conselhos e a chegada dos embaixadores da Aliança Bolivariana para as Américas (Alba)1 multiplicaram minha determinação de me mostrar firme. Não, não daríamos à Espanha ou a qualquer outro país – menos ainda aos Estados Unidos – a satisfação de inspecionar nosso avião. Sempre defenderemos nossa dignidade, nossa soberania e honra à nossa pátria, nossa pátria grande. Jamais aceitaremos chantagens.

O embaixador da Espanha reapareceu. Preocupado, inquieto e nervoso, indicou que finalmente eu dispunha de todas as autorizações para ir embora. E, enfim, decolamos.

Essa proibição de sobrevoo, decretada de forma simultânea e coordenada por quatro países sob o comando único da Central Intelligence Agency (CIA) contra um país soberano com o único pretexto de que talvez transportássemos Snowden, traz para o centro do debate o peso político da principal potência imperial: os Estados Unidos.

Até o dia 2 de julho (data do meu sequestro), todos compreendiam o fato de os Estados Unidos se munirem de agências de segurança com a finalidade de proteger seu território e sua população. Mas Washington ultrapassou os limites do tolerável. Violando os princípios da boa-fé e as convenções internacionais, transformou uma parte do continente europeu em território colonizado. Trata-se de uma violação de direitos humanos, uma das conquistas da Revolução Francesa.

O espírito colonial que conduziu vários países a se submeterem às suas ordens demonstra mais uma vez que, para o império, não existem limites legais, morais ou territoriais para a imposição de suas vontades. Agora, está claro para o mundo inteiro que, para uma potência como essa, qualquer lei pode ser transgredida; qualquer soberania, violada; qualquer direito humano, ignorado.

A potência dos Estados Unidos reside, sem dúvida, em suas forças armadas, implicadas em diversas guerras de invasão e apoiadas por um aparato militar-industrial fora do comum. As etapas de suas intervenções são conhecidas: após as conquistas militares, a imposição do livre-comércio, de uma concepção particular de democracia e, finalmente, a submissão das populações à voracidade das multinacionais. As marcas indeléveis do imperialismo, seja ele militar ou econômico, desfiguraram o Iraque, o Afeganistão, a Líbia, a Síria. Alguns foram invadidos sob o pretexto de suspeita de fabricação de armas de destruição em massa, outros por supostamente abrigar organizações terroristas – mas, de forma geral, são países onde milhares de seres humanos foram assassinados sem que a Corte Penal Internacional estabelecesse qualquer processo.

No entanto, a potência norte-americana também se funda em dispositivos subterrâneos destinados a propagar o medo, a chantagem e a intimidação. Entre as receitas usadas por Washington para manter seu estatuto, destaca-se a “punição exemplar”, no mais puro estilo colonial que conduziu à repressão dos indígenas de Abya Ayala.2 Essa prática recai, atualmente, sobre os povos que decidiram se libertar e sobre os dirigentes políticos que resolveram governar para os mais humildes.

A memória dessa política da punição exemplar ainda está viva na América Latina: basta pensar nos golpes de Estado contra Hugo Chávez na Venezuela em 2002, contra o presidente hondurenho Manuel Zelaya em 2009, contra Correa em 2010, contra o presidente paraguaio Fernando Lugo em 2012 e, claro, contra nosso governo em 2008, sob a liderança do embaixador norte-americano na Bolívia, Philip Goldberg.3 “O exemplo”, para que indígenas, operários, camponeses, movimentos sociais não ousem levantar a cabeça contra as classes dominantes. “O exemplo”, para dobrar os que resistem e para aterrorizar aos outros. Mas um “exemplo” que, hoje, incita os humildes do continente e do mundo inteiro a redobrar seus esforços de unidade para fortalecer suas lutas.

O atentado do qual fomos vítimas revela as duas faces de uma mesma opressão, contra a qual os povos decidiram se revoltar: o imperialismo e seu gêmeo político e ideológico, o colonialismo. O sequestro do avião presidencial boliviano e de seu equipamento – episódio que estimamos ser impensável no século XXI – ilustra a sobrevivência de uma forma de racismo no seio de certos governos europeus. Para eles, os indígenas e os processos democráticos ou revolucionários nos quais se engajam representam obstáculos na via da civilização. Esse racismo se refugia na arrogância das explicações “técnicas” mais ridículas para maquiar uma decisão política nascida em um escritório de Washington. Eis governos que perderam até a capacidade de se reconhecer como colonizados e tentam proteger a reputação de seu mestre…

Quem diz império, diz colônias. Ao optarem por obedecer às ordens dadas, certos países europeus confirmaram seu estatuto de submissos. A natureza colonial da relação entre os Estados Unidos e a Europa se intensificou depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, e foi revelada em 2004, quando o mundo soube da existência de voos ilícitos de aviões militares norte-americanos transportando supostos prisioneiros de guerra para Guantánamo ou em direção a prisões europeias. Hoje, sabe-se que esses “terroristas” foram submetidos à tortura – realidade que até as organizações de defesa dos direitos humanos escamoteiam.

A guerra contra o terrorismo reduziria a velha Europa à condição de colônia; um ato pouco amistoso, a saber, hostil, que pode ser analisado como uma forma de terrorismo de Estado – pois permite que a vida privada de milhões de cidadãos seja colocada à mercê dos caprichos do império.4

O descrédito para o direito internacional que nosso sequestro representa talvez constitua um ponto de ruptura. A Europa deu nascimento aos ideais mais nobres: liberdade, igualdade, fraternidade. Contribuiu amplamente para o progresso científico e para a emergência da democracia. E agora não passa de uma figura pálida dela mesma: um neo-obscurantismo ameaça os povos de um continente que, há alguns séculos, iluminava o mundo com suas ideias revolucionárias e suscitava a esperança.

Nosso sequestro poderia oferecer a todos os povos e governos da América Latina, Caribe, Europa, Ásia, África e América do Norte a ocasião única de constituir um bloco solidário condenando a atitude indigna dos Estados implicados nessa violação do direito internacional. Trata-se, igualmente, de uma ocasião ideal para reforçar as mobilizações de movimentos sociais em vias de construir outro mundo, de fraternidade e complementaridade. Essa tarefa cabe aos povos.

Estamos certos de que os povos de todo o mundo, notadamente os da Europa, ressentem a agressão da qual fomos vítimas e se sentem afetados por ela. E interpretamos essa indignação como uma forma indireta de pedido de desculpa que os governos responsáveis ainda se recusam a fazer.5

Evo Morales

Presidente do Estado Plurinacional da Bolívia

 
1 Da qual são membros Antígua e Barbuda, Bolívia, Cuba, República Dominicana, Equador, Nicarágua, São Vicente e Granadinas, e a Venezuela. (Todas as notas são da redação.)
2 Nome dado pelas etnias kunas no Panamá e Colômbia ao continente americano antes da chegada de Cristóvão Colombo. Em 1922, esse nome foi escolhido pelas nações indígenas da América para designar o continente.
3 Ler Hernando Calvo Ospina, “Petit précis de déstabilisation en Bolivie” [Pequeno indício de desestabilização na Bolívia], Le Monde Diplomatique, jun. 2010.
4 Ler Maurice Lemoine, “L’homme qui menaçait les États-Unis” [O homem que ameaçava os Estados Unidos], Le Monde Diplomatique, maio 2009.
5 No dia 10 de julho de 2013, Madri apresentou suas desculpas oficiais a La Paz.

 

fonte:

http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1466

http://www.monde-diplomatique.fr/2013/08/MORALES/49552

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Um século do invencível general Giap

Hanói (Prensa Latina) Vo Nguyen Giap parece desconhecer o significado de render-se ou retroceder: nem sequer o tempo pôde vencer este mítico general vietnamita, que recentemente celebrou seu 100 aniversário.

Chegar a um século de existência é espantoso, ainda mais se se trata de um protagonista da história, sagrada relíquia das lutas vietnamitas contra japoneses, franceses e estadunidenses.

Gênio logístico, convincente político e firme condutor de massas, a lenda rodeia a vida deste filho de camponeses que acabou sendo um grande amigo e aprendiz do legendário presidente Ho Chi Minh.

Quase tão venerado como o Tio Ho, Giap redefiniu vários conceitos da luta armada, em particular o de guerra de guerrilhas, e explorou como poucos esses detalhes que fazem o vietnamita tão peculiar.

De fato, assim lho disse pessoalmente Robert MacNamara, o ex-secretário estadunidense da Defesa durante a guerra: “Vocês perderam no Vietnã, porque vocês não conhecem o vietnamita”.

Forte crítico dos projetos de extração de bauxita, este diminuto homem ainda é uma voz respeitada no Vietnã, ainda que tenha saído há anos das altas esferas do poder para se retirar em seu vilarejo.

Com grande sagacidade, o também chamado Napoleão Vermelho supriu suas lacunas como tático com um afinco à prova de balas, a ponto de suas contribuições estratégicas serem estudadas em academias militares.

Mas sobretudo, legou um exemplo de vontade inquebrantável de avançar a qualquer preço em prol da vitória, ensinando que nada importa mais que a Pátria, nem sequer a própria vida.

As sempre lubrificadas guilhotinas francesas decapitaram a sua cunhada e sua primeira esposa, a tailandesa Dang Thi Quang, morreu enquanto cumpria prisão perpétua, mas a França não rendeu o incômodo Giap.

Ele mesmo experimentou a prisão por sua militância política e sua ativa participação nas conspirações contra a metrópole gala, que inclusive matou seu pai quando Giap era uma criança de oito anos.

Pouco depois morria uma irmã, vítima de humilhações e torturas sofridas na prisão, bem como uma cunhada que tinha acabado de voltar de uma viagem de estudos na antiga União Soviética.

Homem extremamente inteligente, que fala francês com fluência, Giap foi um autodidata que levou durante quase quatro décadas as rédeas do exército vietnamita, e portanto do povo.

Admirador de Napoleão, forjou-se na doutrina guerreira de Mao e adaptou-a à insondável idiossincrasia do vietnamita, fortaleza que explorou quase tão magistralmente como as debilidades inimigas.

Além disso, por vezes um revés militar redundou em contundente vitória política que acabava por inclinar a balança a seu favor, como ocorreu durante a Ofensiva do Tet, em 1968.

Talvez toda a ebulição interna que ocultava seu rosto sereno lhe valeu o apelido “Ge Luo” ou “Vulcão sob a neve”, como chamavam ao herói de Dien Bien Phu e da fuga ianque de Saigon.

Licenciado em Direito e professor de História, admirou as lutas nacionalistas de seu país, vencedor ante as recorrentes invasões chinesas graças à liderança de generais como Tran Hung Dao.

Em junho de 1940 conhece na China a Ho Chi Minh, quem lhe confiou o braço armado do movimento Viet Minh, impressionado por seus vastos conhecimentos de história militar e seu caráter.

Em 1945, o Viet Minh lutava simultaneamente contra a ocupação japonesa e o colonialismo francês, com cerca de cinco mil combatentes que foram o núcleo do Exército de Libertação Nacional.

Já promovido a general, Giap é ministro do interior do primeiro governo democrático do Vietnã, a 2 de setembro de 1945.

O fracasso das negociações de Fontainebleu reativa a guerra com a França e Giap volta ao campo de batalha, onde derrota generais de elite, como Le Cler, Revair e De Lattre de Tassigny, o único que pôde vencer em vários combates.

Os franceses perderam mais de 300 mil homens nessa guerra, e Paris apostou no general Navarre para guiar a legião na Indochina, e seu maior confronto ainda estava por vir.

A 13 de março de 1954, os vietnamitas abriram fogo contra o bastião francês de Dien Bien Phu, lançando várias ofensivas cuja última, a primeiro de maio, aniquilou um inimigo já desmoralizado.

A 7 de maio, o general Giap aceitou a capitulação do general Christian de Castries, tomando prisioneiros 16 mil homens e depois de derrubar 62 aviões inimigos.

O movimento genial de Giap foi dispersar 70 dos 84 batalhões móveis que tinha a França na Indochina, lhes impedindo de apoiar as proximidades em Dien Bien Phu, numa paciente guerra de desgaste.

Depois viria a guerra contra o governo fantoche de Saigon, e de novo Giap, como comandante-em-chefe do Exército Popular, teve que enfrentar tropas mais bem equipadas e as derrotou.

A realidade demonstrou-lhe que o confronto direto não era a solução, e retomou a guerra de guerrilhas, pondo a natureza ao serviço da luta contra um invasor incapaz de se adaptar.

Depois da vitória de 30 de abril de 1975, Giap admitia que “o armamento norte-americano era o mais moderno do mundo, mas o fator determinante na guerra é o homem”.

O herói de Dien Bien Phu organizou a defesa do Norte e dirigia as operações no Sul, ampliou a rota de fornecimentos Ho Chi Minh e preparou minuciosamente a grande ofensiva do Ano Novo Lunar.

Ainda que as graves perdas humanas sugiram uma derrotar militar, a Ofensiva do Tet advertiu aos Estados Unidos e ao mundo que os “viet cong” jamais seriam derrotados e a guerra se eternizaria.

Em 1972, Giap organizou a Ofensiva da Páscoa e depois começou a ceder protagonismo ao general Van Tien Dung, quem comandou a Ofensiva de Primavera e a tomada de Saigon em 1975.

Seis anos depois, Giap volta à tona ao dirigir o ataque à Kampuchea Democrática para derrotar o regime genocida de Pol Pot, líder do Khmer Rouge, e em 20 dias controlava o reino vizinho.

Em 1980, depois de derrotar a invasão chinesa às províncias de Cao Bang, Loa Cai e Lang, Giap sai do Ministério de Defesa e um ano depois do Bureau Político do Partido Comunista, dedicando-se a escrever.

Em julho de 1992, recebe a ordem de Estrela de Ouro, a honra mais alta do Vietnã, como reconhecimento a suas contribuições históricas à independência, reunificação e defesa da soberania nacional.

Agora o consideram-no o “irmão maior” do Exército Popular, o que o dotou de tal prestígio que chegou a se dizer que tentar freá-lo era como tentar tirar sangue de uma pedra”.

Em seus 100 anos, o mítico general ainda nega se render, ainda que a morte somente possa conseguir uma vitória aparente levando seu corpo, pois há muito tempo Giap conquistou a imortalidade histórica.

* Corresponsável da Prensa Latina no Vietnã.

Texto: / Postado em 03/09/2011 ás 21:21

http://www.patrialatina.com.br/editorias.php?idprog=58c58f9c6366538eaa0dde3624592b81&cod=8602

A doutrina do choque

10/02/2009 – 08h25

“A Doutrina do Choque” exibe em Berlim “capitalismo de desastre”

SILVANA ARANTES
enviada especial da Folha a Berlim

O documentário “A Doutrina do Choque”, exibido ontem no Festival de Berlim, prega resistência (à teoria da desregulação do mercado personificada pelo economista Milton Friedman) e ação popular, por outro “new deal”, que remodele a economia mundial.

O paralelo entre Obama e Franklin Roosevelt, o presidente americano que atravessou a Grande Depressão nos anos 1930, é feito pela jornalista Naomi Klein, em cujo livro (“A Doutrina do Choque: A Ascensão do Capitalismo de Desastre”) o filme se baseia.

Winterbottom disse que aceitou o convite de Klein por achar o livro “muito potente” e ver nele “a oportunidade de falar desses acontecimentos de uma perspectiva particular”.

Com numerosas imagens de arquivo, “A Doutrina do Choque” se propõe a traçar um painel da implementação das ideias de Friedman e seu grupo de colaboradores na universidade, os “meninos de Chicago”, em distintas partes do mundo, a começar pela América Latina.

O golpe que depôs e matou Salvador Allende no Chile é citado como primeiro exemplo de que o “incontrolável cassino capitalista” resultante das teorias de Friedman requereu regimes totalitários para se estabelecer fora dos EUA.

“No mundo anglofônico [EUA e Reino Unido]”, as guerras, a começar pela das Malvinas (1982), sob o comando de Margareth Thatcher, foram o elemento impulsionador da economia de livre mercado, sustenta o filme.

Klein participa do longa entrevistando pessoas e em extratos de palestras que profere, com a intenção por ela declarada de impedir que a “memória coletiva” se deixe tomar por uma enviesada versão da história do tempo corrente.

“A Doutrina do Choque” compara as vítimas civis da Guerra do Iraque com os desaparecidos durante a ditadura argentina (1976-83), igualando-os à condição de “pessoas que se opuseram” ao regime econômico que se tentou impor em seus respectivos países.

A estranhar no filme é sua trilha sonora pouco inventiva, considerando que Whitecross prepara agora um documentário sobre a banda Coldplay. Ecoando o chamado de Klein pelo engajamento popular, Whitecross disse, ontem: “O fato de Obama estar na presidência não significa que as coisas vão ficar melhores ou piores. Cabe às pessoas pressionarem a administração dele”.

A estranheza da democracia

A crise no Egito evidenciou a dificuldade de adaptação aos novos tempos da diplomacia das grandes potências, especialmente dos EUA, a novas situações e grupos políticos emergentes que demandam a transição da democracia do discurso para a prática. Presa a paradigmas de “bem e mal” da Guerra Fria, esta diplomacia é capaz de oferecer “discursos históricos” ao lado da mais conhecida repressão e boicotes, acomodando-se a situações que lhe parecem de baixo custo. Mubarak, neste sentido, representava, segundo estes cálculos, um baixo custo, diante de um Oriente Médio conturbado e desorganizado pela estagnação política. O artigo é de Cristina Soreanu Pecequilo.
14/02/2011 Agência Carta Maior
Cristina Soreanu Pecequilo *

Um dos termos mais utilizados na retórica da política internacional, ao lado de paz e guerra, é democracia. Traduzida e manipulada pelos mais diferentes interesses e grupos políticos, a palavra pode ser levada a extremos como ao justificar a invasão norte-americana ao Iraque em 2003 ou a Guerra Contra o Terror de 2001 do Afeganistão em 2001. Para os Estados Unidos (EUA), trata-se de motivação de uso corrente para legitimar intervenções externas para o seu público interno e que ultrapassa fronteiras. Mesmo com o patente unilateralismo de George W. Bush, alguns veículos e analistas chegaram a definir este momento como o início de uma “Primavera dos Povos” para o Oriente Médio, similar a 1989 na Europa Oriental.

Esvaziada pela realidade, que levou ao fracasso desta manipulação, esta “Primavera” de 2003, reapareceu novamente no Oriente Médio sob o signo da retórica norte-americana. No Cairo, em 2009, Barack Obama pronunciou um de seus muitos discursos classificado como “histórico”. A reconstrução estratégica da região, o renascimento do processo de paz, o diálogo entre civilizaçõe e a recuperação dos laços dos EUA com seus parceiros locais e novos parceiros a serem conquistados foram anunciados como prioridades da política externa. Este e outros pronunciamentos de teor similar na África e na Ásia foram considerados motivos para a concessão do Prêmio Nobel da Paz a Obama naquele mesmo ano.

Poucos foram os que apontaram os paradoxos que envolviam tal discurso: sua realização no Egito, governado a mais de três décadas por Hosni Mubarak de forma autoritária, e a recuperação do “diálogo entre civilizações” lançada originalmente por Mohammad Khatami, Presidente do Irã de 1997 a 2005. Eleito pelo voto popular, o reformista Khatami fez esforços significativos para reaproximação do Irã com o Ocidente, mas que foi rechaçado pelos conservadores norte-americanos, mesmo com a política de descongelamento parcial do Presidente Bill Clinton e da Secretária de Estado Madeleine Albright. Apesar de definido como o “Gorbachev do Oriente” em alusão a glasnost e a perestroika soviética de liberalização econômica , a iniciativa foi ofuscada pelo choque das civilizações do Ocidente contra o resto de Samuel P. Huntington.

Mais uma vez, a democracia para o mundo árabe surgia de forma intercambiável, i.e, condicionada a interesses de segurança e preocupações geopolíticas dos EUA, e de seus aliados mais próximos como Israel. A visão ignorada de Khatami era revitalizada pela retórica da hegemonia, mas limitada pela realidade de poder que definia o que era democracia e qual o seu alcance: ou seja, a democracia que impede o acesso ao processo de grupos definidos como fundamentalistas pelos que estão no governo ou por ingerência externa. Em alguns, prática aceita como no Egito, Argélia e outros aliados, e em outros, criticada e deslegitimada (Irã, Autoridade Palestina, Líbano).

Obama nada mais fazia do que reafirmar a clássica política norte-americana de “tolerar o mal para alcançar o bem”, conforme definida pelo historiador John Lewis Gaddis (1998) quando, na Guerra Fria, os EUA optaram por apoiar ditadores e golpes contra governantes democraticamente eleitos em nome do combate ao comunismo. O mal continua sendo entendido como regimes autoritários, nos quais a democracia é permeável a interesses de preservação do status quo. O bem, a democracia, é o objetivo final, mas como um modelo fechado de soluções e regras que serão definidas pelo contexto e as necessidades de determinados grupos no poder. A Primavera, no caso, não era, e não seria, mais uma vez para todos.

Todavia, o tensionamento interno nestas sociedades impediu a continuidade destas transições controladas e políticas de acomodação, repetindo um fenômeno que já se fez presente na América Latina no século XXI: o da ampliação da participação popular e de pressões sobre os governos estabelecidos, visando a sua correção de rumos para maior inclusão social ou o término de regimes autoritários. Apesar de definida como polarizada e anti-democrática pelos críticos e opositores, a transformação latino-americana está ocorrendo via sistema político depois de muitos anos de quebra institucional. Ao trazer ao poder segmentos antes excluídos com a eleição de Luis Inácio Lula da Silva no Brasil, Hugo Chavéz na Venezuela, Evo Morales na Bolívia e Rafael Correa no Equador, somente para citar alguns, os regimes adaptam-se, não sem crises, mas demonstram sua vitalidade. Na África tendências similares são observadas, assim como a preocupação em alcançar soluções autóctones para problemas do continente, sem ingerências externas.

A eclosão da revolta no mundo árabe representa mais um capítulo nesta busca de voz e autonomia. Como se pode ver pelo movimento no Egito, e mesmo nos protestos que se seguiram à reeleição de Ahmadinejad no Irã, existe uma razoável dificuldade em que este ciclo de reivindicações seja absorvido pelo sistema político. A somatória de resistências internas à demanda geopolítica externa, que intensifica situações de ingerência e temores de perda de soberania, gera situações limite.

Pensando no Egito, o apoio norte-americano a Mubarak somente diminuiu com o agravamento da situação interna. A partir do momento em que se solidificou a percepção de que sua permanência no poder tornou-se insustentável, os EUA, via Departamento de Estado e Casa Branca, sinalizaram à Mubarak a necessidade de sua saída, recompondo alianças com as Forças Armadas. A intensificação dos protestos subestimados pelos EUA, somente demonstrou o equívoco em dar sustentabilidade ao regime de Mubarak, em particular nos últimos anos, apesar da piora da situação econômica e dos impasses políticos.

A presença cada vez mais ostensiva dos EUA no Oriente Médio, com as Guerras do Afeganistão e Iraque, a pressão sobre o Irã, o fracasso do processo de paz com os palestinos, a condescendência com Israel, também é um componente que perpassa este movimento. Estes fatores somente serviram para agravar o sentimento anti-ocidental na região, revitalizando o desejo de nacionalismo, identidade e independência que tinham sido o motor do processo de descolonização nos anos 1950/1960 e que se encontravam latentes nestas sociedades.

A crise no Egito evidenciou a dificuldade de adaptação aos novos tempos da diplomacia das grandes potências, especialmente dos EUA, a novas situações e grupos políticos emergentes que demandam a transição da democracia do discurso para a prática. Presa a paradigmas de “bem e mal” da Guerra Fria, esta diplomacia é capaz de oferecer “discursos históricos” ao lado da mais conhecida repressão e boicotes, acomodando-se a situações que lhe parecem de baixo custo. Mubarak, neste sentido, representava, segundo estes cálculos, um baixo custo, diante de um Oriente Médio conturbado e desorganizado pela estagnação política e intervenções.

Desde a assinatura dos Tratados de Paz entre Israel e Egito em Camp David, 1979, o país deixara de ser uma fonte de crise estratégica para tornar-se aliado e uma preocupação geopolítica “a menos” tanto para Israel quanto para os EUA. Não só os EUA, mas Israel, Mubarak e outros países do mundo árabe acomodaram-se em situações conhecidas, fossem elas democráticas ou autoritárias. Ao invés de preparar uma transição gradual que garantisse e avançasse estes processos, dando-lhes sustentabilidade, a opção foi a da continuidade.

Na prática, isto significou a paralisia da democracia nestas sociedades e mesmo o retrocesso das negociações de paz na região, que colocou em xeque a manutenção do poder. A regra do Egito aplicou-se a outras nações aliadas como Jordânia e na península arábica, ignorando-se sinais de insatisfação. Frente ao efeito demonstrativo das manifestações egípcias e seu desfecho com a saída de Mubarak, a tática para estas nações também se alterou: as orientações passaram a ser não mais de resistência, mas de reacomodação e atualização.

Enquanto isso, no Egito, algumas palavras, além da democracia, tornaram-se chave: transição, paz e estabilidade, pregando a tolerância pouco exercida pelo regime anterior. Nas entrelinhas, uma democracia “comportada” e que não quebre os compromissos prévios principalmente no campo do processo de paz e que deixa em aberto a pergunta: o que fará a diplomacia norte-americana caso os resultados de futuras eleições no Egito tragam ao poder grupos considerados como pouco confiáveis? O apoio permanecerá às Forças Armadas, responsáveis pela transferência de poder pós-Mubarak caso estas não consigam sustentar sua influência política? Ou haverá apoio ao novo governo, independente de qual for, reiterando a idéia do “diálogo”?

Estas são perguntas sem resposta. O que é definido por alguns como turbulência é, na realidade, o renascimento dos povos. Um renascimento que deixa bastante claro que o núcleo dinâmico da política está nas periferias do mundo em desenvolvimento. O clamor é pela democracia ocidental, que, nos Estados que mais a utilizam como discurso, encontra-se estagnada como procedimento em meio às polarizações, perda de valores, radicalismos e xenofobia. Do mundo árabe ao americano, passando pelo africano, o principal desafio destes novos grupos quando no poder será o de não reproduzir estes erros e os de seus antecessores, dando continuidade à reforma. Este não é um processo fácil, e, por vezes, até por uma razão de sobrevivência, alguns regimes poderão recorrer a práticas que hoje criticam, devendo ser igualmente questionados.

Neste caminho, devemos nos perguntar por que algo que aparece com tanta freqüência no senso comum e nos discursos, como “a democracia”, causa tanto desconforto quando associada às demandas por maior participação política de correntes definidas como “diferentes” e “preocupantes” , da Irmandade Muçulmana egípcia, ao socialismo de Chavéz ou mesmo as políticas de inclusão social aqui no Brasil. Afinal, é nesta suposta estranheza da democracia que reside seu valor, princípio e promessa.

(*) Professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)

Brazil stares down the US on Libya

At some point in the run-up to Barack Obama’s just concluded tour of Latin America, which included stops in Brazil, Chile, and El Salvador, the US press decided that coverage of the trip would focus on expected friendly meeting with Dilma Rousseff, Brazil’s recently inaugurated president.

The Washington Post, the New York Times, and National Public Radio, along with a host of other newspapers, cable news commentators, and blogs, all predicted that Obama, the US’s first African American president, and Rousseff, Brazil’s first woman leader, would find common ground, reversing the deterioration of diplomatic relations that had begun under Rousseff’s predecessor, Luiz Inácio Lula da Silva.

The bad blood started, or so the story went, when Lula refused to listen to the administration of George W. Bush and isolate Venezuela’s populist leader, Hugo Chávez. Before long, Brasilia was opposing or, worse, offering alternatives to Washington’s position on a growing number of issues: climate change, opposition to the 2009 coup in Honduras, Cuba, trade and tariffs.

Lula declined to criticise Iran and opened up a separate negotiating channel, outside of Washington’s influence and much to its annoyance, with Tehran to discuss Iran’s nuclear ambitions.

Differences on Middle East

The former Brazilian president also welcomed the president of the Palestinian National Authority, Mahmoud Abbas to Brazil, leading the rest of Latin America to recognise the Palestinian state and calling for direct talks with Hamas and Hezbollah.

Various explanations were posited in the US press for Lula’s behavior, which, for a Latin American leader, was unprecedented considering the historically subservient role Latin America has long played to Washington. At times it was described as a personality disorder, a striving for attention on the world stage; at other moments it was explained away as Lula’s need to play to his party’s rank and file, which, apparently, always enjoys a good tweaking of the US’s nose.

In any case, Obama’s visit just after Dilma’s election offered a chance for a reset. Rousseff, it was reported, would be eager to use the trip to distance herself from her political patron, Lula. Though she was a member of a Marxist-Leninist guerrilla organisation opposing a US-backed dictatorship during her youth in the 1970s, Brazil’s new leader had, according to the Washington Post, a “practical approach to governance and foreign relations after eight years of the flamboyant Luiz Inacio Lula da Silva”.

“She’s a different person and has a different style,” remarked the chairman of Goldman Sachs asset management.

She was “warm” and would welcome Obama cordially (has it really gotten to the point where the US, which for decades presided imperiously over the international community, is today just happy that foreign leaders aren’t rude when its presidents come calling?).  Nearly all major news and opinion sources thought that she would be more accommodating to Washington’s concerns than her predecessor, in Latin America but especially in the Middle East.

Unfortunately for Washington the reality has departed from the narrative. Brazil, under Rousseff, continues largely to follow its own diplomatic lights.

Libya and the UN

Even before Obama landed in Rio, Brazil, as a non-permanent member of the UN Security Council, joined with China and Germany to abstain from the vote authorising “all necessary measures” against Libya’s Muammar Gaddafi.

Since then, its opposition to the bombing has hardened.  According to the Inter Press Service News Agency (IPS), Brazil’s foreign ministry – still, for the most part, staffed by the diplomats who charted Lula’s foreign policy – recently issued a statement condemning the loss of civilian lives and calling for the start of dialogue.

Lula himself has endorsed Dilma’s critical position on Libya, going further in his condemnation of the intervention: “These invasions only happen because the United Nations is weak,” he said. “If we had twenty-first-century representation [in the Security Council], instead of sending a plane to drop bombs, the UN would send its secretary-general to negotiate.”

His remarks were widely interpreted to mean that if Brazil had been a permanent member of the Security Council – a position it has long sought – it would have vetoed the resolution authorising the bombing rather than, as it did, merely abstaining from the vote.

These comments were the first indication that the ex-president, still enormously popular and influential in Brazil, planned to continue to openly weigh in on his successor’s foreign policy.

Argentina and Uruguay likewise have voiced strong disapproval of the intervention.  On one level, this censure reflects Latin America’s commitment to the ideal of non-intervention and absolute sovereignty.  But on another, less elevated and more commonsensical level, it reflects a belief that the diplomatic community needs to return to a standard in which war is the last rather than the first response to crisis.

“This attack [on Libya] implies a setback in the current international order,” IPS reports Uruguayan President José Mujica as saying. “The remedy is much worse than the illness. This business of saving lives by bombing is an inexplicable contradiction.”

Social inclusion vs IMF demands

On other important issues as well, Brazil continues push back against Washington.

The US-controlled International Monetary Fund (IMF), for example, is demanding that Brazil, one of the world’s fastest growing economies, calm bond market concerns about inflation by reining in social spending.

Dilma’s economic team has so far balked.  It argues instead that inflation can be controlled by government regulation of “hot money,” that is, the ability of foreign capital to place speculative bets on, and reap enormous profits off of, Brazil’s currency.

This might sound a bit technocratic, but it is in fact a big obstacle to the IMF’s bid to restore its lost role as what economist Mark Weisbrot has described as a “creditor’s cartel” in Latin America, the chief mechanism through which Washington imposes “discipline” on economies, like Brazil’s, that shows too much independence.

Likewise, Brazil continues to be the main obstacle to jumpstarting the Doha Round of the world trade talks, demanding that the US and Europe lower tariffs to the products and commodities of the developing world.   While graciously hosting the US president, Rousseff nonetheless strongly criticized Washington’s ability to preach free trade while practicing protectionism, demanding that the US open its markets to Brazilian imports such as ethanol, steel, and orange juice.

However “warm,” “practical,” or “cordial” Dilma, Brazil’s first woman president, may be, she’ll be no push over when it comes to matters of war, peace, and economics.

Greg Grandin is a professor of history at New York University and a member of the American Academy of Arts and Sciences. He is the author of a number of prize-winning books, including most recently, Fordlandia: The Rise and Fall of Henry Ford’s Forgotten Jungle City (Metropolitan 2009), which was a finalist for the Pulitzer Prize in History, as well as for the National Book Award and the National Book Critics Circle Award.

The views expressed in this article are the author’s own and do not necessarily reflect Al Jazeera’s editorial policy.

Source:
Al Jazeera

Oriente Médio: nada será como antes

A queda das ditaduras na Tunisia e no Egito demonstra que os EUA já não poderão manter o esquema de poder montado há mais de três décadas. Impotente para agir de forma direta no plano militar, os EUA tentam articular transições que mudem a forma de dominação, mas mantenham sua essência. O Exército preferiu a renúncia de Mubarak, porque se deu conta que sua presença unia a oposição. Tem esperança que, sem ele, possa cooptar setores opositores para uma coalização moderada – com El Baradei, a Irmandade Muçulmana, com o apoio dos EUA e da Europa. O artigo é de Emir Sader.

Emir Sader

Por duas fortes razões o Oriente Médio tornou-se um pilar da politica externa do império norteamericano: a necessidade estratégica do abastecimento de petróleo seguro e barato para os EUA, a Europa e o Japão, e a proteção a Israel – aliado fundamental dos EUA na região, cercado por países árabes.

Por isso o surgimento do nacionalismo árabe tornou-se um dos fantasmas mais assustadores para os EUA no mundo. Por um lado, pela nacionalização do petróleo pelos governos nacionalistas, afetando diretamente os interesses das gigantes do petróleo – norteamericanas ou europeias –, pela ideologia nacionalista e antimperialista que propagam – de que o egípcio Gamal Abder Nasser foi o principal expoente – e pela reivindicação da questão palestina.

A história contemporânea do Médio Oriente tem assim na guerra árabe-israelense de 1967 sua referência mais importante. A união dos governos árabes permitiu a retomada da reivindicação do direito ao Estado Palestino, que foi respondida por Israel com a invasão de novos territórios – inclusive do Egito -, com o apoio militar direto dos EUA.

Novo conflito se deu em 1973, agora acompanhado da politica da OPEP de elevação dos preços do petróleo. A partir daquele momento ou o Ocidente buscava superar sua dependência do petróleo ou trataria de dividir o mundo árabe. Triunfou esta segunda possibilidade, com a guerra Iraque-Irã, incentivada e armada pelos EUA, que golpeou dois países com governos nacionalistas, que se neutralizaram mutuamente, em um enfrentamento sangrento. Como sub-produto da guerra, o Iraque se sentiu autorizado a invadir o Kuwait – com anuência tácita dos EUA -, o que foi tomado como pretexto para a invasão do Iraque e o assentamento definitivo de tropas norte-americanas no centro mesmo da região mais rica em petróleo no mundo.

Os EUA conseguiram dividir o mundo árabe tendo, por um lado os regimes mais reacionários – encabeçados pelas monarquias, a começar pela Arabia Saudita, detentora da maior reserva de petróleo do mundo, e por outro governos moderados, como o Egito e a Jordânia. A maior conquista norteamericana foi a cooptação de Anuar el Sadar, o sucessor de Nasser, que supreendentemente normalizou relações com Israel – o primeiro regime da região a fazê-lo -, abrindo caminho para a criação de um bloco moderado, pró-norteamericano na região, que se caracteriza pela retomada de relações com Israel – portanto o reconhecimento do Estado de Israel – e praticamente o abandono da questão palestina. Passaram a atuar também dento da OPEP, como força moderadora, favorável aos interesses das potências ocidentais.

O Egito, como país de maior população da região, com grande produção de petróleo e país daquele que havia sido o maior lider nacionalista de toda a região – Nasser – passou a ser o peão fundamental no plano politico dos EUA na região. Não por acaso o Egito tornou-se o segundo país em auxilio militar dos EUA no mundo, depois de Israel e à frente da Colômbia.

Essa neutralização do mundo árabe, pela cooptação de governos e pela presença militar dos EUA no coração da região – atualizada com a invasão do Iraque – constituiu-se em elemento essencial da politica norteamericana no mundo e da garantia de abastecimento de petróleo para complementar a declinante produção dos EUA e todo o petróleo para abastecer a Europa e o Japão.

É isso que está em jogo agora, depois da queda das ditaduras na Tunísia e no Egito. Impotente para agir de forma direta no plano militar, os EUA tentam articular transições que mudem a forma de dominação, mas mantenham sua essência. O Exército preferiu a renúncia de Mubarak, porque se deu conta que sua presença unia a oposição. Tem esperança que, sem ele, possa cooptar setores opositores para uma coalização moderada – com El Baradei, a Irmandade Muçulmana, com o apoio dos EUA e da Europa – que possa fazer reformas constitucionais, mas controlar o processo sucessório nas eleições de setembro, conseguindo desmobilizar o movimento popular antes que este consigar forjar novas lideranças.

Indepentemente de que possa se estender a outros países da região – de que a Argélia, a Jordânia, o Marrocos, a Arabia Saudita, são candidatos fortes – a queda das ditaduras na Tunisia e no Egito demonstra que os EUA já não poderão manter o esquema de poder montado há mais de três décadas. O menos que se pode esperar é a instabilidade politica na região, até que outras coalizões de poder possam se organizar, cujo caráter dará a tônica do novo período em que entra o Orienta Médio.

KAL

uma charge interessante sobre a relação entre Estados Unidos e China.

 

Kevin Kallaugher (KAL) is the editorial cartoonist for The Economist magazine of London.

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