UEL 2011

35) Leia o texto a seguir.
O empresário Ruppert Murdoch, dono do império de mídia News Corporation e conhecido pelas ideias conservadoras, disse ontem que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é discípulo de Margareth Tatcher, premiê
britânica do fim dos anos 70 até o início dos 90 e conhecida como “a dama de ferro.”
(Folha de S. Paulo, B8, Mercado, 22 out. 2010: Lula é discípulo de Thatcher, diz Murdoch.)
 
Com base no texto e nos conhecimentos sobre o tatcherismo, é correto afirmar:
a) O que aproxima os governos Lula daqueles de Margareth Tatcher é a incorporação, por ambos, das políticas de Estado mínimo, incrementando, assim, as práticas de welfare-state.
b) Os governos Lula e Margareth Tatcher possuem, como pontos comuns, o maior poder atribuído aos sindicatos, razão pela qual, nestes governos, o controle da economia esteve nas mãos do que se convencionou chamar de “república sindicalista”.
c) O tatcherismo representou a implementação, em território britânico, de políticas denominadas neoliberais,
assentadas nos princípios da privatização das empresas e flexibilização das leis trabalhistas.
d) A base de ambos os governos foram as limitações à liberdade de expressão, práticas adotas nos antigos países do extinto bloco soviético, o que, no caso inglês, rendeu a Tatcher a denominação de “a dama de ferro”.
e) Assim como o tatcherismo, o lulismo incorporou o princípio neoliberal de controle dos setores populares mediante a ampliação dos programas de assistência às famílias mais carentes.

 

resposta: C

UEL 2009

30) A crise financeira de 2008, cujo epicentro foi o mercado imobiliário norte-americano, obrigou diversos países
da União Européia a se confrontarem com os princípios pregados pelo dogma neoliberal e pelo que se convencionou chamar de “Consenso de Washington”.
Com base no enunciado e nos conhecimentos sobre a atual crise global e o neoliberalismo, assinale a alternativa
correta.
a) Com a estatização dos bancos pelos governos da Europa, evidenciou-se que as diferenças anunciadas entre o
neoliberalismo e o socialismo são formais, não existindo de fato.
b) A crise do setor imobiliário nos Estados Unidos apontou para os limites das políticas de Estado Mínimo, dominantes no cenário mundial desde o advento do thatcherismo, na Inglaterra, em 1979.
c) De acordo com o “Consenso de Washington”, é fundamental que o Estado controle o mercado, restringindo a liberdade do capital financeiro, fruto indesejável da globalização das economias.
d) Os acontecimentos envolvendo o setor imobiliário norte-americano revelam que as crises são fenômenos típicos de países de industrialização avançada, delas estando protegidos os países de industrialização recente da América Latina e Ásia.
e) O estopim da crise imobiliária nos Estados Unidos foi o abandono das políticas de Bem-Estar social e o contínuo aumento do poder dos sindicatos daquele país.

 

resposta: B

 

A geopolítica angloamericana

“Venho hoje reafirmar uma das mais antigas,
uma das mais fortes alianças que o mundo já viu.
Há muito é dito que os Estados Unidos e a Grã Bretanha
compartilham de uma relação especial”
Barack Obama:  “Discurso no Parlamento Britânico”, em 25/5/ 2011

 

Por José Luís Fiori

 

Existe uma idéia generalizada de que a Geopolítica é uma “ciência alemã”, quando na verdade ela não é nem uma ciência, nem muito menos alemã. Ao contrário da Geografia Política, que é uma disciplina que estuda as relações entre o espaço e a organização dos estados, a Geopolítica é um conhecimento estratégico e normativo que avalia e redesenha a própria geografia, a partir de algum projeto de poder específico, defensivo ou expansivo.  O “Oriente Médio”, por exemplo, não é um fenomeno geográfico, é uma região criada e definida pela política externa inglesa do século XIX, assim como o “Grande Médio Oriente”, é um sub produto geográfico da “guerra global ao terrorismo”, do governo Bush, do início do século XXI.  Por outro lado, a associação incorreta, da Geopolítica com a história da Alemanha, se deve a importância que as idéias de Friederich Ratzel (1844-1904) e Karl Haushofer (1869-1946) tiveram – direta ou indiretamente – no desenho estratégico dos desastrosos projetos expansionistas da Alemanha de Guilherme II (1888-1918) e de Adolf Hiltler (1933-1945). Apesar disto, as teorias destes dois geógrafos transcenderam sua origem alemã, e idéias costumam reaparecer nas discussões geopolíticas de países que compartilham o mesmo sentimento de cerco militar e inferioridade na hierarquia internacional. Mas a despeito disto, foi na Inglaterra e nos Estados Unidos que se formularam as teorias e estratégias geopolíticas mais bem sucedidas da história moderna.

Sir Walter Raleigh (1554-1618), conselheiro da Rainha Elizabeth I, definiu no fim do século XVI, o princípio geopolítico que orientou toda a estratégia naval da Inglaterra, até o século XIX.  Segundo Raleigh, “quem tem o mar, tem o comércio do mundo, tem a riqueza do mundo; e quem tem a riqueza do mundo, tem o próprio mundo”. Muito mais tarde, quando a marinha Britânica já controlava  quase todos os mares do mundo, o geógrafo inglês Halford Mackinder (1861-1947) formulou um novo princípio e uma nova teoria geopolítica, que marcaram a política externa inglesa do século XX. Segundo Mackinder, “quem controla o “coração do mundo”  comanda a “ilha do mundo”, e quem controla a ilha do mundo comanda o mundo”. A “ilha do mundo seria o continente eurasiano, e o seu “coração” estaria situado – mais ou menos –  entre o Mar Báltico e o Mar Negro, e entre Berlim e Moscou. Por isto, para Mackinder, a maior ameaça ao poder da Inglaterra seria que a Alemanha ou a Rússia conseguissem monopolizar o poder dentro do continente eurasiano. Uma idéia-força que moveu a Inglaterra nas duas Guerras Mundiais, e que levou Winston Churchill a propor – em 1946 — a criação da “Cortina de Ferro”  que deu origem a Guerra Fria.

Do lado norte-americano, o formulador geopolítico mais importante da primeira metade do século XX, foi o Almirante Alfred Mahan (1840-1914), amigo e conselheiro do Presidente Theodor Roosevelt, desde antes da invenção da Guerra Hispano-Americano, no final do século XIX. A tese geopolítica fundamental de Mahan, sobre a “importância do poder naval na história”, não tem nenhuma originalidade. Repete Walter Raleigh, e reproduz a história da Marinha Britânica. E o mesmo acontece com as idéias de Nicholas Spykman (1893-1943), o geopolítico que mais influenciou a estratégia internacional dos EUA na segunda metade do século XX. Spykman desenvolve e muda um pouco a teoria de Mackinder, mas chega quase às mesmas conclusões e propostas estratégicas. Para conquistar e manter o poder mundial, depois da Segunda Guerra, Spykman recomenda que os EUA ocupem o “anel” que cerca a Rússia, do Báltico até a China, aliando-se com a Grã Bretanha e a França, na Europa, e com a China, na Ásia.

No cômputo final, o que diferencia a geopolítica anglo-americana é a sua pergunta fundamental: “que partes do mundo há que controlar, para dominar o mundo”. Ou seja, uma pergunta ofensiva e global, ao contrário dos países que se propõem apenas a conquista e o controle de “espaços vitais” regionais. Além disto, a Inglaterra e os EUA ganharam, e no início do século XXI, mantém sua aliança de ferro com o Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia: derrotaram e cercaram a Rússia; mantém seu protetorado atômico sobre a Alemanha e o Japão; expandiram sua parceria e seu cerco preventivo da China; estão refazendo seu controle da África; e mantém a América Latina sob a supervisão da sua IVº Frota Naval. E acabam de reafirmar sua decisão de manter sua liderança geopolítica mundial.

Existe, entretanto, uma grande incógnita no horizonte geopolítico anglo-americano. Uma vez conquistado o poder global, é indispensável expandi-lo, para mantê-lo. Mas, para onde expandi-lo?


José Luís Fiori é professor titular e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional da UFRJ, e autor do livro “O Poder Global”, da Editora Boitempo, 2007

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