UEM 2009 – inverno

Questão 08
Ao refletir sobre a religião como fenômeno social,
assinale o que for correto.
 
01) Formas de religião e vestígios de religiosidade são
encontrados entre todos os povos e culturas. Eles se
manifestam em cultos relativos à vida, à natureza e
aos mortos ou em sistemas de explicação para a
existência humana e do universo.
02) O sagrado não é uma categoria restrita à religião,
podendo manifestar-se em outros fenômenos
simbólicos da vida social.
04) A superioridade do cristianismo sobre outras
expressões religiosas pode ser demonstrada pelo seu
domínio e importância entre os povos do Ocidente.
08) A umbanda não pode ser considerada um sistema
religioso, afinal tal classificação não reconhece como
sagrado cultos miscigenados ou híbridos.
16) Os princípios religiosos do Islã determinam o Oriente
Médio como território sagrado, sendo proibida essa
prática religiosa em outros territórios do globo,
considerados pelos muçulmanos como espaços
profanos e impuros.
 
resposta: 03

Os EUA na segunda armadilha de Bin Laden

08/02/2012

Por Immanuel Wallerstein | Tradução: Antonio Martins

Em outubro de 2001, logo depois do 11 de Setembro, escrevi o seguinte:

“Os regimes [do Paquistão e Arábia Saudita] apoiam-se numa coalizão entre as elites modernizantes pró-ocidentais e um establishment islâmico extremamente conservador, com bases populares. Os regimes mantêm-se estáveis por serem capazes de articular esta combinação. E podem alimentá-la graças à ambivalência de suas políticas e pronunciamentos públicos.

“Os Estados unidos dizem agora que chega de ambiguidades. Esta posição pode prevalecer, é claro. Mas no processo, os regimes saudita e paquistanês poderão descobrir que sua base popular está irremediavelmente erodida…

“Considere que este pode ter sido o plano de Bin Laden. O objetivo de sua própria missão suicida pode ter sido conduzir os Estados Unidos a tal armadilha”

Acredito que Bin Laden conseguiu agora o que planejou no Paquistão. O fim das ambiguidades acabou significando que o país já não opera geopoliticamente em favor dos interesses dos Estados Unidos. Bem ao contrário! Tomou distância e está promovendo, no Afeganistão e não só lá, políticas às quais os EUA opõem-se firmemente. Falta, agora, o segundo objetivo.

Que está ocorrendo na Arábia Saudita? Não há dúvidas de que, de alguma maneira, o país passou a agir mais independentemente dos Estados Unidos do que fizera nos últimos 70 anos. Mas não houve, ainda, uma ruptura definitiva, como no Paquistão. Ela ocorrerá, em futuro próximo? Penso que talvez.

Analise os múltiplos dilemas internos do regime. A riqueza de cerca de 10% dos sauditas provocou o crescimento agudo das demandas por “modernização” do Estado. São mais visíveis em temas ligados às mulheres (direito ao emprego e a conduzir carros). Mas tais reivindicações por mais direitos são a ponta de um iceberg, de um clamor mais amplo pelo afrouxamento das restrições impostas pela ortodoxia wahhabista. À medida em que o rei se move numa trajetória contínua, mas cautelosa, para atender a estas demandas, ele antagoniza-se ainda mais com o establishment religioso – que está se tornando muito inquieto.

Além disso, as elites “modernizantes” têm outras queixas. O governo saudita é, essencialmente, uma gerontocracia, conduzida por homens na faixa dos 70 e 80 anos. No curioso sistema de sucessão o regime lembra o da antiga União Soviética. Há algo similar a uma votação, no processo sucessório – mas ela se dá entre uma dezena de pessoas, ou um pouco mais. A probabilidade de que o poder passe para gente na faixa dos 50 e 60 é extremamente baixa, se não inexistente. Repare, no entanto, que este grupo de “jovens”, mesmo que formado apenas no interior da família real, cresceu consideravelmente em número, e está impaciente. Isso pode levar a uma séria cisão no próprio topo da elite? É bem possível que sim.

O regime saudita maneja algo como um estado de bem-estar social para os cidadãos comuns. Porém, as desigualdades de renda e riqueza estão crescendo, como em toda parte. E pequenas redistribuições, de tempos em tempos, não vão acalmar as camadas inferiores, mas apenas aguçar seu apetite por novas demandas. Os extratos médios e baixos podem inclusive (surpresa, surpresa!) ecoar os apelos da Primavera Árabe por “democracia”.

E há uma minoria xiita. Afirma-se que ele representa apenas cerca de 10% da população; mas é provável que seja maior e – mais importante – está estrategicamente localizada no sudeste do país, sobre as maiores reservas de petróleo. Por que tais xiitas seriam os únicos, nas nações do Oriente Médio dominadas por sunitas, a não lutar por suas reivindicações identitárias?

O regime saudita tem tentado jogar um papel de destaque na geopolítica da região. Está insatisfeito com as políticas e aspirações do Irã e com a intransigência do presidente Assad, na Síria. Mas, no frigir dos ovos, comporta-se de modo muito moderado, em relação a estes temas. Teme as consequências de guinadas bruscas. E julga as políticas norte-americanas orientadas demais pelos interesses internos dos EUA, e por seus infinitos compromissos com Israel.

Os sauditas têm sido muito “razoáveis” também com Israel. Não creem que esta moderação tenha sido bem recompensada – quer por Israel, quer pelos Estados Unidos. Podem estar prontos, agora, para apoiar o Hamas de forma muito mais aberta. Não enxergam nada “razoável” nas políticas do governo israelense, nem perspetiva alguma de que estas políticas sejam alteradas em breve.

Este quadro não contribui para um regime politicamente estável. Certamente, não ajuda a manter as “ambiguidades” que permitiram ao regime ser, no passado, um aliado inabalável dos Estados Unidos na região.

A segunda armadilha irá se fechar?

http://www.outraspalavras.net/2012/02/08/os-eua-na-segunda-armadilha-de-bin-laden/

O que Egito e Tunísia dizem sobre Irã?

Por Pouya Alimagham, do Informed Comment | Tradução: Bruno Cava

Tem havido muito debate sobre se as recentes revoluções na Tunísia e Egito, especialmente a última, vão produzir um sistema semelhante àquele nascido da Revolução Islâmica no Irã, em 1979. Contudo, ao focar nesta que é, de fato, uma questão importante, dois pontos cruciais passam despercebidos. A velocidade com que essas duas revoluções aconteceram dizem-nos alguma coisa sobre a durabilidade do regime no Irã; ao mesmo tempo que contestam a narrativa da Revolução Islâmica sobre o discurso revolucionário no Oriente Médio.

Nitidamente, o regime egípcio — com todo o apoio regional e internacional, décadas de construção institucional e massivo aparato de segurança — colapsou depois de enfrentar somente 18 dias de um movimento de protesto, todavia incansável e articulado, que não admitiria qualquer compromisso menor do que a expulsão de Mubarak.

A inabilidade do governo egípcio em sobreviver ao movimento de protesto contrasta com a contínua manutenção do poder pelo governo iraniano. Depois de 12 de junho, durante a eleição presidencial de 2009, grandes frações da sociedade iraniana moldaram a campanha eleitoral de Mousavi como um protesto popular que cresceu rapidamente e alcançou cerca de três milhões de pessoas só em Teerã, três dias depois do anúncio dos resultados. A velocidade com que floresceram os protestos provocou o Líder Supremo Ali Khamanei a ordenar a repressão uma semana depois. Através do uso de coerçãop em massa e acionamento de seus próprios grupos de apoio, um número considerável, o regime sistematicamente recuperou o controle das ruas, depois de meses de manifestações intermitentes. A eficácia com que o regime exerceu a sua vontade nos manifestantes e sua habilidade de mobilizar centenas de milhares de simpatizantes significam a sua habilidade de subsistir em face de ameaças explosivas e prolongadas à autoridade.

Que um governo relativamente isolado como do Irã foi capaz de acalmar tão prolongada tempestade, durando oito meses no total, enquanto o regime poderoso do Egito, que desfrutava de suporte regional e internacional, em especial dos EUA, caiu depois de apenas 18 dias atesta a durabilidade do governo iraniano. Este é um ponto importante que merece consideração, quando se calcula como promover uma mudança não-violenta e democrática no Irã.

Quer dizer, marchas e demonstrações sozinhas não serão suficientes para uma mudança pacífica do regime no Irã. Enquanto a oposição iraniana tenta reavivar seu próprio movimento ao aproveitar o ímpeto das revoluções no Egito e Tunísia, a sua estratégia não deveria limitar-se à atividade nas ruas, como ocorreu no passado, mas expandi-la numa abordagem mais ampla, incluindo greves, acampamentos na Praça da Libertação do próprio Irã e, mais importante, estocar apoios das forças armadas do Irã — tudo isso que foram táticas vitais ao sucesso do Egito.

Além de solapar a capacidade da Revolução Islãmica em durar, e sublinhar a necessidade de uma estratégia mais ampla à ação não-violenta no Irã, as revoluções na Tunísia e Egito também apresentam um desafio ideológico ao discurso iraniano sobre a revolução. Especificamente, essas recentes revoluções trazem dúvida sobre a narrativa do regime que a Revolução Islâmica é o único caminho pelo qual é possível derrubar ditadores profundamente estabelecidos na região e com patrocínio estrangeiro. Até então, a Revolução Iraniana de 1979 tinha sido a única revolução popular no Oriente Médio. A Revolução Egípcia de 1952 e a Iraquiana de 1958 não foram revoluções no sentido tradicional, mas golpes militares com respaldo popular contra monarcas odiados. Como o único país a orquestrar uma revolução popular, o governo iraniano argumentou que a revolução é possível no Oriente Médio somente nos moldes do Revivalismo Islâmico [NT. Para mais a respeito: http://pt.wikipedia.org/wiki/Revivalismo%5D, colocando essa história como testamento para a contenção [dos protestos]. Argumentando que somente a crença do povo no Islã como ideologia conferiu força ao movimento revolucionário para derrubar o regime pró-ocidente do Xá, tal narrativa da Revolução Iraniana marginaliza outros fatores e grupos que contribuíram à emergência e sucesso revolucionários.

Embora permaneça incerta qual direção será afinal tomada, simplesmente por emergir de moldes seculares e nacionalistas, o triunfo atual das revoluções tunisiana e egípcia fornecem uma alternativa à teoria da revolução do governo iraniano. Assim, elas inadvertidamente destacam-se do escopo da Revolução Islâmica, que o governo iraniano há tempos é especialista. Noutras palavras, a Revolução Islâmica não pode mais reclamar ser o único caminho à revolução. Essa contestação ao discurso do governo iraniano sobre a revolução explica por que as autoridades no Irã, conquanto não convincentemente, tentam representar as revoluções recentes no Egito e Tunísia como parte de um Despertar Islâmico alargado.

Portanto, além das discussões repisadas sobre a improbabilidade dessas revoluções seguirem numa trajetória similar à do Irã em 1979, os dois pontos relacionados à durabilidade do regime iraniano e a contestação colocada à narrativa revolucionária demandam atenção, pelo insight crucial que oferecem aos observadores iranianos. A rapidez com que as ditaduras no Egito e Tunísia caíram ergue-se em contraste brilhante à sobrevivência do governo do Irã depois do tumulto pós-eleição em 2009 — um ponto crítico que precisa ser considerado quando se elaboram estratégias sobre como promover uma mudança democrática não-violenta no Irã.

Concomitantemente, essas revoluções recentes trazem à baila uma alternativa que desafia a narrativa do governo iraniano sobre a revolução, revelando que a revolução não precisa ser necessariamente islamista, de maneira a obter a vitória sobre um regime autoritário aparentemente invencível.

Pouya Alimagham é estudante Ph.D. na Universidade de Michigan, edita o blogue iPouya e é colunista do Informed Comment, mantido por Juan Cole.

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