UEL 2012 – 2ª fase

1 – Considere os trechos a seguir.
 
A classe operária não pode apossar-se simplesmente da maquinaria de Estado já pronta e fazê-la funcionar para os seus próprios objetivos.
(MARX, Karl. A revolução antes da revolução. São Paulo: Expressão Popular, 2008, p.399.)
 
Também do ponto de vista histórico, contudo, o “progresso” a caminho do Estado regido e administrado segundo um direito burocrático e racional e regras pensadas racionalmente, atualmente, está intimamente ligado ao moderno desenvolvimento capitalista.
(WEBER, Max.Parlamento e governo na Alemanha reordenada: crítica política do funcionalismo e da natureza dos partidos. Petrópolis:Vozes, 1993, p.43.)
 
Com base nos trechos, compare as concepções clássicas de Estado formuladas nas obras de Karl Marx e Max Weber.
 
 
QUESTÃO 1 – EXPECTATIVA DE RESPOSTA
Conteúdo: Política, Estado, Dominação e Poder. Teorias sociológicas clássicas sobre o Estado. Os conceitos de Estado em Karl Marx e em Max Weber.
 
Resposta esperada
Espera-se que o candidato demonstre conhecimento e aplicação do conceito de Estado em Marx e Weber. A aplicação dos conceitos dos autores para a compreensão do Estado será revelada se o condidato, além de apresentar os conceitos, for capaz de, por meio da comparação, estabelecer as relações entre as duas compreensões teóricas distintas. A visão de Estado como aparato da classe dominante, no capitalismo, a classe burguesa; a visão de Estado como dominação racional baseada na organização burocrática e impessoal.
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UEM 2008 – verão

Questão 08
Sobre as teorias sociológicas a respeito do Estado,
assinale o que for correto.
 
01) Algumas teorias sociológicas afirmam que o Estado é
necessário para garantir a unidade de uma sociedade
dividida em classes sociais, favorecendo, assim, os
interesses das classes dominantes.
02) Para alguns sociólogos, o que diferencia o Estado das
demais instituições é o fato de ele ter o direito
legítimo e exclusivo do uso da força.
04) Segundo alguns sociólogos, em sociedades
complexas, o Estado é uma instituição fundamental
para garantir a coesão social, sobrepondo-se às
demais instituições e regulando sua coexistência.
08) Há um consenso na sociologia de que o Estado é um
fenômeno exclusivamente ocidental e próprio do
modo de produção capitalista. Nas demais
sociedades, não se encontram instituições que
assumam funções correlatas.
16) De acordo com algumas interpretações, o Estado é
fundamental para assegurar as próprias condições de
funcionamento da economia de mercado, embora
muitos liberais rejeitem sua intervenção.
 
resposta: 23

UEM 2008 – inverno

03 – Ao longo da história, várias sociedades foram
marcadas por profundas desigualdades sociais e
políticas, motivando diferentes interpretações sobre
elas. Assinale o que for correto.
 
01) Para Rousseau, o contrato social teria por
objetivo alcançar o bem comum, estabelecendose
um pacto em que os indivíduos estariam
igualmente submetidos à vontade geral da
sociedade.
02) O pensamento liberal interpreta as diferenças
sociais como o resultado da desigual
apropriação dos meios de produção, do capital e
da força de trabalho e considera que essa
situação leva à dominação entre os indivíduos.
04) Nas décadas de 1950 e 1960, o Brasil passou
por um processo de industrialização, mas sem
sair do subdesenvolvimento devido às
características de seu modelo de crescimento
industrial, que gerou uma acumulação altamente
concentrada da riqueza.
08) A partir de 1970, o governo brasileiro conseguiu
diminuir as desigualdades no país mediante um
desenvolvimento com custo social reduzido, a
desconcentração da renda, a absorção da mãode-
obra economicamente ativa e o fim da
inflação.
16) Segundo Karl Marx, na sociedade capitalista, o
operário cria as mercadorias e apropria-se de
uma parcela da sua produção, eliminando as
desigualdades sociais.
 
resposta: 05

UEM 2008 – inverno

05 – Sobre as relações produtivas desenvolvidas por
diferentes grupos sociais ao longo da história,
assinale o que for correto.
 
01) Nas sociedades tribais, o trabalho humano está
relacionado apenas à satisfação das
necessidades básicas do homem, como, por
exemplo, garantir a alimentação e o abrigo. Por
isso, nesses casos, os processos de trabalho não
geram relações propriamente sociais.
02) Segundo muitos autores, para alcançar a sua
subsistência, nem todos os grupos humanos
viveram de atividades produtivas, como ocorreu
historicamente nas sociedades de pescadores, de
coletores e de caçadores.
04) Alguns antropólogos afirmam que grupos
indígenas, como os ianomâmis, podem ser
considerados “sociedades de abundância”, pois
dedicam poucas horas diárias às atividades
produtivas, mas, apesar disso, têm suas
necessidades materiais satisfeitas. Tais
necessidades não são crescentes, como ocorre
nas sociedades capitalistas.
08) Na sociedade feudal, a terra era o principal meio
de produção, porém os direitos sobre ela
pertenciam aos senhores. Os camponeses e os
servos nunca podiam decidir o que produzir,
para quem e quando trocar o fruto do seu
trabalho.
16) O modo de produção escravista colonial que
ocorreu no Brasil tinha as seguintes
características principais: economia voltada para
o mercado externo baseada no latifúndio, troca
de matérias-primas por produtos manufaturados
da metrópole e fraco controle da colônia sobre a
comercialização.
 
resposta: 20

UEM 2008 – inverno

10 – Em termos sociológicos, assinale o que for correto
sobre o conceito de classes sociais.
 
01) Sua utilização visa explicar as formas pelas
quais as desigualdades se estruturam e se
reproduzem nas sociedades.
02) De acordo com Karl Marx, as relações entre as
classes sociais transformam-se ao longo da
história conforme a dinâmica dos modos de
produção.
04) As classes sociais, para Marx, definem-se,
sobretudo, pelas relações de cooperação que se
desenvolvem entre os diversos grupos
envolvidos no sistema produtivo.
08) A formação de uma classe social, como os
proletários, só se realiza na sua relação com a
classe opositora, no caso do exemplo, a
burguesia.
16) A afirmação “a história da humanidade é a
história das lutas de classes” expressa a idéia de
que as transformações sociais estão
profundamente associadas às contradições
existentes entre as classes.
 
resposta: 27

UEM 2008 – inverno

11 – Considerando que a produção e a circulação de bens
e de serviços são o resultado da combinação de
trabalho, matéria-prima e instrumentos de produção,
assinale o que for correto.
 
01) Para Karl Marx, no capitalismo, os
trabalhadores encontram-se alienados pelo fato
de não se apropriarem dos resultados do seu
trabalho nem controlarem o processo produtivo.
02) Na produção capitalista contemporânea, a
ciência e a tecnologia tornaram-se forças
produtivas e agentes de acumulação do capital.
04) As atividades relacionadas às artes e à atividade
intelectual não podem ser consideradas trabalho,
pois não produzem riqueza material.
08) No modo de produção asiático, os escravos e os
camponeses entregavam a sua produção ao
Estado, porém o excedente da produção era
dividido igualmente por toda a população.
16) A partir das mudanças ocorridas em seu
processo de produção, o sistema feudal entrou
em declínio, assim, os países europeus
predominantemente agrários lentamente se
transformaram em urbano-industriais.
 
resposta: 11

UEM 2008 – inverno

12 – Podemos conceituar mudança social como toda
inovação ocorrida na sociedade de forma geral ou
em um grupo específico. Sobre esse tema, assinale o
que for correto.
 
01) O filósofo Auguste Comte era favorável à
Revolução Francesa, visto que apoiava as
mudanças que ela continha. Afirmava,
entretanto, que as transformações da sociedade
deveriam ser condicionadas pela manutenção da
ordem social.
02) No processo histórico de desenvolvimento das
sociedades humanas, as mudanças são
inevitáveis. É consenso na sociologia que elas
ocorrem em todas as instituições sociais de
modo natural, em circunstâncias semelhantes à
evolução pela qual passam os animais e os
vegetais.
04) Com a ampliação das suas bases industriais na
década de 1950, o Brasil passou por uma grande
transformação: sua população, que era rural,
tornou-se majoritariamente urbana. Essa
mudança foi provocada pelas condições
favoráveis oferecidas nas cidades, isto é, oferta
de emprego, de moradia, serviços de saúde e
educação suficientes para todos aqueles que
imigraram para o espaço urbano.
08) Vê-se, em nossa sociedade urbana industrial,
que as famílias passaram por mudanças. O
outrora preponderante tipo familiar patriarcal
sofreu modificações. Hoje há outras formas de
organização familiar, como a família conjugal
(com a diluição do poder entre mulheres e
homens), a família chefiada por mulheres e a
conjugalidade homossexual.
16) Com base nas conseqüências produzidas pela
Lei Áurea de 1888, no Brasil, podemos concluir
que, dependendo do contexto, mudanças
legislativas não são suficientes para alterar
prontamente padrões cristalizados de relações
sociais.
 
resposta: 25

UEM 2008 – inverno

19 – De diferentes formas e portando objetivos variados,
os movimentos sociais tiveram presença constante
na história de muitas sociedades. A respeito desse
tema, assinale o que for correto.
 
01) A repressão exercida pelo regime militar
instaurado no Brasil em 1964 sobre a sociedade
civil conseguiu bloquear a organização dos
movimentos sociais. Durante toda a sua
vigência até o período da transição para o
regime democrático, o país não experimentou
movimentos de resistência.
02) Como os movimentos sociais não visam à
apropriação do Estado, a sua história, de forma
geral, mostra que eles sempre tiveram impactos
muito reduzidos no sistema político.
04) A análise desenvolvida por Karl Marx no século
XIX sobre o capitalismo disseminou-se pela
Europa e por outras partes do mundo,
inspirando e influenciando fortemente o
movimento operário do século XX.
08) Movimentos como o ecológico, o feminista e os
étnicos passaram a ter uma presença marcante
nas sociedades contemporâneas. Alguns dos
seus intérpretes afirmam que eles contribuíram
decisivamente para deixar visíveis novas
dimensões das contradições e das opressões
existentes nas relações sociais.
16) Os movimentos sociais expressam ações
coletivas que, dependendo dos seus princípios
norteadores e dos grupos que mobilizam, podem
tanto visar a mudanças na sociedade como opor-se
a elas.
 
resposta: 28

Clássicos da Sociologia UNIVESP – Karl Marx

Clássicos da Sociologia: Karl Marx
O aspecto sociológico do pensamento de Karl Marx é apresentado com base em entrevista do sociólogo Gabriel Cohn e a caracterização in loco da economia de uma pequena cidade paulista.

As duas faces do Estado

04 de Janeiro de 2012

É possível falar em nome do bem público, do que é o bem público, e, ao mesmo tempo, apropriar-se dele. Esse é o princípio do “efeito Janus”: há pessoas que possuem acesso ao privilégio do universal, mas não é possível ter o universal sem ao mesmo tempo monopolizar o universal

por Pierre Bourdieu

Descrever a gênese do Estado é descrever a gênese de um campo social, de um microcosmo social relativamente autônomo no interior de um mundo social abarcador, onde se joga um jogo particular, o jogo político legítimo. Um exemplo é a invenção do Parlamento, lugar onde os problemas que opõem grupos de interesses conflitantes são alvo de debates públicos realizados segundo formatos e regras específicas. Marx analisou apenas os bastidores: o recurso à metáfora do teatro, à teatralização do consenso, mascara o fato de que existem pessoas que manipulam os cordéis das marionetes, e que as verdadeiras apostas, os poderes de fato, estão em outro lugar. Retomar a gênese do Estado é retomar a gênese do campo onde a política se desenrola, se simboliza, se dramatiza em suas formas características.

Entrar nesse jogo do político legítimo, com suas regras, é ter acesso à fonte progressivamente acumulada do “universal”, à palavra universal, às posições universais a partir das quais é possível falar em nome de todos, do universum, da totalidade de um grupo. É possível falar em nome do bem público, do que é o bem público, e, ao mesmo tempo, apropriar-se dele. Esse é o princípio do “efeito Janus”: há pessoas que possuem acesso ao privilégio do universal, mas não é possível ter o universal sem ao mesmo tempo monopolizar o universal. Há um capital do universal. O processo constitutivo dessa instância de gestão do universal é inseparável do processo de constituição de uma categoria de agentes que se apropriam desse universal.

Tomo um exemplo do âmbito da cultura. A gênese do Estado é um processo ao longo do qual se dá uma série de concentrações de diferentes formas e recursos: concentração da informação (relatórios, estatísticas com base em pesquisas), de capital linguístico (oficialização de uma língua como idioma dominante, de forma que as outras línguas de um território nacional passem a figurar como formas depravadas, desviadas ou inferiores à dominante). Esse processo de concentração se dá junto ao processo de desapropriação: constituir uma cidade como capital, como local onde se concentram todas as formas do capital,1 é relegar o Estado e o resto do país à desapropriação do capital; constituir uma língua legítima é relegar todas as outras à condição de patoás.2

A cultura legítima é a cultura garantida pelo Estado, garantida por essa instituição que garante os títulos de cultura, que entrega diplomas cuja função é validar a possessão de uma cultura garantida. Os programas escolares são questão de Estado; modificar um programa é modificar a estrutura de distribuição do capital, é definhar certas formas de capital. Por exemplo, suprimir o latim e o grego do ensino é devolver ao poujadismo toda uma categoria de pequenos portadores de capital linguístico. Eu mesmo, em todos os meus trabalhos anteriores sobre a escola, nunca deixei de lado completamente o fato de que a cultura legítima é a cultura do Estado…

Essa concentração é, ao mesmo tempo, uma unificação e uma forma de universalização. Onde havia o diferente, o disperso, o local, passa a figurar o único. Com Germaine Tillion, comparamos as unidades de medida em diferentes povoados cabilas em um raio de 30 quilômetros: as variações correspondiam ao próprio número de vilarejos, cada um com suas particularidades. A criação de unidades de medida nacionais e estatais é um progresso em direção à universalização: o sistema métrico é um padrão universal que supõe consenso, do latim consensus, “concordância” ou “conformidade”. Esse processo de concentração, de unificação, de integração é acompanhado de um processo de desapropriação, porque todos os saberes e competências associados ao local passam a ser desqualificados.

Dito de outra forma, o próprio processo pelo qual se constitui a universalidade vem acompanhado da concentração da universalidade. Há aqueles que querem o sistema métrico (os matemáticos) e aqueles que remetem ao local. O próprio processo de constituição de padrões comuns é inseparável da conversão desses padrões comuns em capital monopolizado por aqueles que possuem o monopólio da luta pelo monopólio do universal. Todo esse processo – constituição de um campo, autonomização do campo em relação a outras necessidades; constituição de uma necessidade específica em relação à necessidade econômica e doméstica; constituição de uma reprodução específica de tipo burocrática, específica em relação à reprodução doméstica, familiar; constituição de uma necessidade específica em relação à necessidade religiosa – é inseparável do processo de concentração e constituição de uma nova forma de recursos que passam a fazer parte do universal, ou de um grau de universalização superior aos que existiam antes. Passou-se do pequeno mercado local ao mercado nacional, seja no aspecto econômico ou simbólico. A gênese do Estado é, em suma, inseparável da constituição do monopólio do universal, e o exemplo por excelência desse processo é a cultura.

Todos os meus trabalhos anteriores podem ser resumidos da seguinte forma: essa cultura é legítima porque se apresenta como universal, oferecida a todos porque, em nome dessa universalidade, podemos eliminar sem medo aqueles que não estão nela inseridos. Essa cultura, que aparentemente une, mas em realidade divide, é um dos grandes instrumentos de dominação porque pressupõe monopólio, monopólio terrível porque não podemos acusá-la de privada (pois é universal). A cultura científica leva esse paradoxo ao extremo. As condições da constituição desse universal, de sua acumulação, são inseparáveis da condição de existência de uma casta, de uma nobreza estatal, de “monopolizadores” do universal. A partir dessa análise, fala-se em universalizar as condições de acesso ao universal. Está por definir-se, contudo, como levar adiante esse projeto: é necessário desapropriar os “monopolizadores”? Não é exatamente por esse lado que se deve buscar a resposta.

Termino com uma parábola para ilustrar o que disse sobre método e conteúdo. Há trinta anos, em uma noite de Natal, fui a um pequeno vilarejo nos confins de Béarn para assistir a um pequeno baile camponês.3 Alguns dançavam, outros não; algumas pessoas, mais velhas que outras, com estilo camponês, não dançavam, conversavam entre elas e se entretinham para justificar o fato de estar ali sem participar do baile, para justificar a presença insólita. Deveriam ser casados, porque quando se é casado, não se dança mais. O baile é um desses lugares de intercâmbio matrimonial: é o mercado dos bens simbólicos matrimoniais. Havia um alto índice de homens solteiros: 50% dos que tinham entre 25 e 35 anos.

Tentei encontrar um sistema explicativo para esse fenômeno: é que antes havia um mercado local protegido, não unificado. Quando o chamado Estado se constitui, ocorre a unificação do mercado econômico ao qual o Estado contribui com sua política e a unificação do mercado de trocas simbólicas, ou seja, o mercado das posturas, das maneiras, das vestimentas, da pessoa, da identidade, da apresentação. Essas pessoas tinham um mercado protegido, local, sobre o qual tinham controle, o que permitia certa endogamia organizada pelas famílias. Os produtos do modo de reprodução camponês tinham lugar nesse mercado: eram vendáveis e tinham equivalentes, pares.

Na lógica do modelo que evoquei, o que aconteceu no baile é resultado da unificação do mercado de trocas simbólicas: o paraquedismo da pequena cidade vizinha que ganhava espaço no cenário regional era um produto desqualificante, pois aumentava a concorrência com o camponês. Dito de outra forma, a unificação do mercado, que pode ser apresentada como um progresso, de todos os modos para as pessoas que imigram – as mulheres e todos os dominados –, pode ter um efeito libertador. A escola transmite uma postura corporal diferente, outras formas de se vestir, de se comportar etc.; e o estudante tem um valor matrimonial nesse novo mercado unificado, enquanto o camponês é visto como desclassificado. A ambiguidade do processo de universalização está concentrada ali. Do ponto de vista das camponesas do vilarejo – que se casam com um “futuro” –, o matrimônio pode ser a porta de acesso ao universal.

Mas esse grau de universalização superior é inseparável do efeito de dominação. Recentemente, publiquei um artigo, espécie de releitura de minha análise sobre o celibato em Béarn na época, cujo título, algo jocoso, é “Reprodução proibida”.4 Demonstro que a unificação do mercado tem por efeito a interdição da reprodução biológica e social de toda uma categoria de pessoas. Na mesma época, trabalhei sobre um material encontrado por acaso: o registro das deliberações comunitárias de um pequeno vilarejo de duzentos habitantes durante a Revolução Francesa. Nessa região, os homens votavam por unanimidade. Mas chegaram decretos impondo o voto por maioria simples. Eles deliberaram, houve resistência e o vilarejo se dividiu em um campo e outro campo. Pouco a pouco, a maioria se impôs: ela teve por trás o universal.

Houve grandes discussões ao redor desse problema suscitado por Tocqueville em relação à continuidade/descontinuidade da Revolução. Mas a questão permanece um verdadeiro problema histórico: qual é a força específica do universal? Os processos políticos desses camponeses de tradições milenares e coerentes foram abalados pela força do universal, como se eles tivessem de se inclinar a uma lógica mais forte: a da cidade, com seus discursos explícitos, metódicos e não práticos. Os camponeses tornaram-se, então, provincianos, locais. As deliberações passam a outras instâncias e aparecem fórmulas como “O prefeito decidiu que…”, “O conselho municipal se reuniu e…”. A universalização tem como efeito reverso a desapropriação e a monopolização. A gênese do Estado é a gênese do lugar da gestão do universal e ao mesmo tempo do monopólio do universal e de um conjunto de agentes que participa do monopólio de uma coisa que, por definição, é da ordem do universal.

_____________

1 Essa relação entre o capital e a capital foi posteriormente desenvolvida por Pierre Bourdieu em “Effets de lieu” [Efeitos de lugar], La misère du monde [A miséria do mundo], Seuil, Paris, 1993, p.159-167.
2 Sobre a língua legítima e o processo correlativo da desapropriação, ver a primeira parte de Pierre Bourdieu, Langage et pouvoir symbolique [Linguagem e poder simbólico], Seuil, Paris, 2001, p.59-131.
3 Ver a descrição dessa “cena inicial” no início de Pierre Bourdieu, Le bal des célibataires. Crise de la société paysanne en Béarn [O baile dos solteiros.Crise da sociedade camponesa em Béarn], Seuil, Paris, 2002, p.7-14.
4 Pierre Bourdieu, “Reproduction interdite. La dimension symbolique de la domination économique” [Reprodução proibida. A dimensão simbólica da dominação econômica], Études Rurales, n.113-114, 1989, p.15-36, retomada em Le bal des célibataires, op.cit., p.211-247.

_

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