Unesp 2014

(Unesp 2014)  Os reality shows são hoje para a classe mais abastada e intelectualizada da sociedade o que as novelas eram assim que se popularizaram como produto de cultura massificada: sinônimo de mau gosto. Com uma maior aceitação das novelas na esfera dos críticos da mídia, o reality show segue agora como gênero televisivo mundial, transmitido em horário nobre, e principal símbolo da perda de qualidade do conteúdo televisivo na sociedade pós-moderna. Os reality shows personificam as novas formas de identificação dos sujeitos nas sociedades pós-modernas. Programas como o BBB são movidos pelas engrenagens de uma sociedade exibicionista e consumista, que se mantém vendendo ao mesmo tempo a proposta de que cada um pode sair do anonimato e conquistar facilmente fama e dinheiro.

(Sávia Lorena B. C. de Sousa. O reality show como objeto de reflexão cultural. observatoriodaimprensa.com.br)

 

Sobre a relação entre os meios de comunicação de massa e o público consumidor, é correto afirmar que:

a) a qualidade da programação da tv não é condicionada pelas demandas e desejos dos consumidores culturais.

b) o reality show é uma mercadoria cultural relacionada com processos emocionais de seu público.

c) os critérios estéticos independem do nível de autonomia intelectual dos consumidores.

d) no caso dos reality shows, a televisão estimula a capacidade de fruição estética do público consumidor.

e) os programadores priorizam aspectos formativos relegando o entretenimento a uma condição secundária.

 

Resposta: B

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Unesp 2014

(Unesp 2014)  Não somente os tipos das canções de sucesso, os astros, as novelas ressurgem ciclicamente como invariantes fixos, mas o conteúdo específico do espetáculo só varia na aparência. O fracasso temporário do herói, que ele sabe suportar como bom esportista que é; a boa palmada que a namorada recebe da mão forte do astro, são, como todos os detalhes, clichês prontos para serem empregados arbitrariamente aqui e ali e completamente definidos pela finalidade que lhes cabe no esquema. Desde o começo do filme já se sabe como ele termina, quem é recompensado, e, ao escutar a música ligeira, o ouvido treinado é perfeitamente capaz, desde os primeiros compassos, de adivinhar o desenvolvimento do tema e sente-se feliz quando ele tem lugar como previsto. O número médio de palavras é algo em que não se pode mexer. Sua produção é administrada por especialistas, e sua pequena diversidade permite reparti-las facilmente no escritório.

(Theodor W. Adorno e Max Horkheimer. “A indústria cultural como mistificação das massas”. In: Dialética do esclarecimento, 1947. Adaptado.)

 

O tema abordado pelo texto refere-se

a) ao conteúdo intelectualmente complexo das produções culturais de massa.

b) à hegemonia da cultura americana nos meios de comunicação de massa.

c) ao monopólio da informação e da cultura por ministérios estatais.

d) ao aspecto positivo da democratização da cultura na sociedade de consumo.

e) aos procedimentos de transformação da cultura em meio de entretenimento.

 

Resposta: E

UEM 2009 – inverno

Questão 06
Leia o fragmento abaixo:
“O príncipe eletrônico pode ser visto como uma das mais
notáveis criaturas da mídia, isto é, da indústria cultural.
Trata-se de uma figura que impregna amplamente a
Política, como teoria e prática. Impregna a atividade e o
imaginário de indivíduos e coletividades, grupos e classes
sociais, nações e nacionalidades, em todo o mundo. Em
diferentes gradações, conforme as peculiaridades
institucionais e culturais da política em cada sociedade, o
príncipe eletrônico influencia, subordina, transforma ou
mesmo apaga partidos políticos, sindicatos, movimentos
sociais, correntes de opinião, legislativo, executivo e
judiciário.” (IANNI, Octávio. O príncipe eletrônico. In:
COSTA, Cristina. Sociologia: introdução à ciência da
sociedade. São Paulo: Moderna, p.296.)
Considerando o texto acima, assinale a(s) alternativa(s)
correta(s).
 
01) Na sociedade contemporânea, as tecnologias de
comunicação tornam-se instrumentos significativos
na condução dos processos políticos e eleitorais.
02) A mídia tem-se constituído como um espaço
extremamente democrático do mundo globalizado,
valorizando a diversidade de posicionamentos
políticos e garantindo a integridade das mais variadas
instituições políticas tradicionais.
04) As concepções de mundo divulgadas pela mídia têm
um forte impacto sobre a vida cotidiana e são
suficientemente poderosas a ponto de influenciar a
organização política de uma nação.
08) As tecnologias de comunicação são utilizadas pelas
grandes corporações mundiais com o objetivo de
fazer que seus projetos sejam aceitos pelos
dominados.
16) A expressão “príncipe eletrônico” está associada à
concepção clássica de política construída por Nicolau
Maquiavel e é utilizada no texto acima como forma
de destacar os processos de enfraquecimento do
poder do Estado Moderno na vida política
contemporânea.
 
resposta: 29

UEM 2009 – inverno

Questão 12
Considerando as reflexões sociológicas sobre o conceito
“cultura”, assinale o que for correto.
01) O processo de modernização das sociedades gera
impactos na manifestação das tradições populares, o
que, segundo algumas vertentes sociológicas, pode
modificar as práticas culturais, mas dificilmente
extingui-las.
02) A variedade das culturas acompanha, por um lado, a
pluralidade da história humana e, por outro, os
processos de transformação social. Assim, dentro de
um mesmo território, é possível coexistirem diversos
padrões culturais.
04) Ao observar as tradições culturais manifestas nas
colônias portuguesas, a sociologia construiu o
consenso de que a cultura do branco europeu é
superior à do indígena e à do africano.
08) Algumas abordagens sociológicas buscam observar
os elementos materiais e não materiais das
manifestações culturais, com o objetivo de
compreender as funções sociais dessas
manifestações.
16) Ao longo do século XX, a Sociologia acumulou
conhecimento suficiente para concluir que a cultura
não sofre efeitos do desenvolvimento das tecnologias
de comunicação, tais como o cinema, a televisão e a
internet.
 
resposta: 11

UEM 2008 – verão

INSTRUÇÃO: leia o texto a seguir para responder às
questões 09 e 10.
 
“[…] Ao acordá-lo, o rádio-relógio digital dispara
informações sobre o tempo e o trânsito. Ligando a FM, lá
está o U-2. O vibramassageador amacia-lhe a nuca,
enquanto o forno microondas descongela um sanduíche
natural. No seu micro Apple II, sua agenda indica:
REUNIÃO AGÊNCIA 10H/ TÊNIS CLUBE 12H/
ALMOÇO/ TROCAR CARTÃO MAGNÉTICO
BANCO/ TRABALHAR 15H/ PSICOTERAPIA 18H/
SHOPPING/ OPÇÕES: INDIANA JONES-BLADE
RUNNER VIDEOCASSETE ROSE, SE LIGAR/ SE
NÃO LIGAR, OPÇÕES: LER O NOME DA ROSA
(ECO) – DALLAS NA TV – DORMIR COM
SONÍFEROS VITAMINADOS.
Seu programa rolou fácil. Na rua divertiu-se pacas com a
manifestação feminista pró-aborto que contava com um
bloco só de freiras e, a metros dali, com a escultura que
refazia a Pietá (aquela do Miguelângelo) com baconzitos
e cartões perfurados. Rose ligou. Você embarcou no
filme Indiana Jones sentado numa poltrona estilo
Menphis – uma pirâmide laranja em vinil – desfiando
piadas sobre a tese dela de filosofia: Em Cena, a
Decadência. A câmera adaptada ao vídeo filmou vocês
enquanto faziam amor. Será o pornô que animará a
próxima vez.
Ao trazê-lo de carro para casa, Rose, que esticaria até
uma festa, veio tipo impacto: maquiagem teatral, brincos
enormes e uma gravata prateada sobre camisão lilás. Na
cama, um sentimento de vazio e irrealidade se instala em
você. Sua vida se fragmenta desordenadamente em
imagens, dígitos, signos – tudo leve e sem substância
como um fantasma. Nenhuma revolta. Entre a apatia e a
satisfação, você dorme.” (SANTOS, Jair Ferreira. O que
é Pós-Moderno. São Paulo. Editora Brasiliense, 1988.
p.8).
 
Questão 09
Utilizando seus conhecimentos sobre o tema “gostos e
estilos de vida”, assinale a(s) alternativa(s) correta(s)
sobre o texto.
 
01) Trata do cotidiano de um indivíduo urbano que
convive com a tecnologia eletrônica de massa e
individual.
02) Aborda a valorização do estilo de vida hedonista, no
qual predomina a busca pelo prazer individual e
imediato.
04) Exemplifica a lógica de uma sociedade que não é
pautada pelo consumo generalizado de bens e
serviços.
08) Retrata uma situação peculiar aos indivíduos que
vivem em sociedades altamente industrializadas que
oferecem acesso diferenciado às novas tecnologias.
16) Mostra o processo de fragmentação dos indivíduos
em uma sociedade baseada na tecnociência.
 
resposta: 27

UEM 2008 – verão

INSTRUÇÃO: leia o texto a seguir para responder às
questões 09 e 10.
 
“[…] Ao acordá-lo, o rádio-relógio digital dispara
informações sobre o tempo e o trânsito. Ligando a FM, lá
está o U-2. O vibramassageador amacia-lhe a nuca,
enquanto o forno microondas descongela um sanduíche
natural. No seu micro Apple II, sua agenda indica:
REUNIÃO AGÊNCIA 10H/ TÊNIS CLUBE 12H/
ALMOÇO/ TROCAR CARTÃO MAGNÉTICO
BANCO/ TRABALHAR 15H/ PSICOTERAPIA 18H/
SHOPPING/ OPÇÕES: INDIANA JONES-BLADE
RUNNER VIDEOCASSETE ROSE, SE LIGAR/ SE
NÃO LIGAR, OPÇÕES: LER O NOME DA ROSA
(ECO) – DALLAS NA TV – DORMIR COM
SONÍFEROS VITAMINADOS.
Seu programa rolou fácil. Na rua divertiu-se pacas com a
manifestação feminista pró-aborto que contava com um
bloco só de freiras e, a metros dali, com a escultura que
refazia a Pietá (aquela do Miguelângelo) com baconzitos
e cartões perfurados. Rose ligou. Você embarcou no
filme Indiana Jones sentado numa poltrona estilo
Menphis – uma pirâmide laranja em vinil – desfiando
piadas sobre a tese dela de filosofia: Em Cena, a
Decadência. A câmera adaptada ao vídeo filmou vocês
enquanto faziam amor. Será o pornô que animará a
próxima vez.
Ao trazê-lo de carro para casa, Rose, que esticaria até
uma festa, veio tipo impacto: maquiagem teatral, brincos
enormes e uma gravata prateada sobre camisão lilás. Na
cama, um sentimento de vazio e irrealidade se instala em
você. Sua vida se fragmenta desordenadamente em
imagens, dígitos, signos – tudo leve e sem substância
como um fantasma. Nenhuma revolta. Entre a apatia e a
satisfação, você dorme.” (SANTOS, Jair Ferreira. O que
é Pós-Moderno. São Paulo. Editora Brasiliense, 1988.
p.8).
 
Questão 10
Podemos considerar o texto anteriormente lido como uma
fábula. Baseado nela, assinale a(s) alternativa(s)
correta(s).
 
01) A fábula se passa em um espaço urbano, no qual o
indivíduo é saturado pela oferta de informações,
diversões e serviços.
02) O indivíduo da fábula pode contar com os avanços
tecnológicos para programar o seu dia-a-dia.
04) A fábula descreve um mundo dominado pelos meios
tecnológicos que podem promover uma
desconstrução estética da arte.
08) O indivíduo descrito na fábula tem ações que
demonstram uma sedução pelo “imediato” e falta de
interesse pelas atitudes reflexivas.
16) A fábula ocorre em uma sociedade movida pela
informação. Nela, os valores são trocados pelo
modismo e o indivíduo tende a ser tomado pelo
conformismo e pela apatia.
 
resposta: 31

UEM 2008 – verão

Questão 17
Leia o texto a seguir:
“A imprensa, o rádio, a televisão, o cinema são indústrias
ultra-ligeiras. Ligeiras pelo aparelhamento produtor, são
ultra-ligeiras pela mercadoria produzida: esta fica
gravada sobre a folha do jornal, sobre a película
cinematográfica, voa sobre as ondas e, no momento do
consumo, torna-se impalpável, uma vez que esse
consumo é psíquico. Entretanto, essa indústria ultraligeira
está organizada segundo o modelo da indústria de
maior concentração técnica e econômica. No quadro
privado, alguns grandes grupos de imprensa, algumas
grandes cadeias de rádio e televisão, algumas sociedades
cinematográficas concentram em seu poder o
aparelhamento (rotativas, estúdios) e dominam as
comunicações de massa. No quadro público, é o Estado
que assegura a concentração.” (MORIN, Edgard. “A
indústria cultural” In: FORACCHI, Marialice Mencarini
& MARTINS, José de Souza (org.). Sociologia e
Sociedade: leituras de introdução à sociologia. Rio de
Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1977, p.300).
Tendo como referência o texto e seus conhecimentos
sobre a temática da “indústria cultural”, assinale a(s)
alternativa(s) correta(s).
 
01) A indústria cultural consegue conjugar organização
burocrática, que visa à produção padronizada e em
larga escala de seus produtos, com individualização e
novidade desejadas pelos consumidores.
02) A produção cultural de massa procura transformar a
cultura em mercadoria, nivelando os valores e os
padrões estéticos de boa parte dos consumidores.
04) Na indústria cultural, há um equilíbrio entre
interesses econômicos, domínio da técnica,
organização burocrática e exercício da criatividade.
08) A indústria cultural, diferentemente de outros ramos
da produção industrial, não visa ao lucro. Seus
produtos são comercializados a preço de custo e seu
consumidor não é tratado como “cliente” e sim como
fã ou colecionador.
16) O ritmo ligeiro da indústria cultural tem como
resultado a produção em série, de baixo custo e
possível de ser acessada por boa parte da população.
 
resposta: 18

A praga do “pensamento único”

25.08.2012 09:52

Por Claudio Bernabucci

John K. Galbraith, um dos mais importantes economistas do século XX, pronunciou-se algumas vezes sobre a “imbecilidade dos capitalistas”. A observação factual da crise sistêmica que o mundo está vivendo, sem perspectiva de solução equilibrada dentro das regras existentes, levaria a pensar que a afirmação do economista canadense tivesse fundamento.

No entanto, do ponto de vista das ideias, devemos reconhecer que, nas últimas décadas, o capitalismo neoliberal teve a capacidade de exercer uma hegemonia ímpar sobre todas as atividades humanas. Sofisticados instrumentos teóricos e culturais permitiram a esta nova ideologia eliminar qualquer resistência e crítica significativas, a ponto de se configurar como um “pensamento único”. Só recentemente, diante dos graves escândalos no coração do sistema, este primado começou a ser posto em discussão de forma incisiva.

Já mencionamos a batalha de ideias em curso e a relação de forças existentes. Vale a pena reiterar que estamos assistindo a uma autêntica guerra global dentro do sistema capitalista, da qual o neoliberalismo sairá derrotado ou vencedor. No último caso, podemos estar certos: o que resta da democracia no planeta estaria seriamente comprometido. Neste quadro, a circulação das ideias em escala planetária é fundamental para a definição do resultado. Somente por meio da difusão de pensamentos plurais e antitéticos ao dominante, poderão ser conquistadas as mentes e os corações habilitados a criar uma nova civilização para superar as injustiças de um mundo onde minorias não eleitas decidem o destino de bilhões de seres humanos.

A ferramenta principal é a mídia. A livre difusão da internet – com a grave exceção da China –, apesar de limitada, permite uma informação de baixo para cima que tem aberto brechas importantes no monólito do pensamento único. Os jornais independentes sempre foram minoria e, na chamada grande imprensa, as vozes autônomas são escassas, relegadas aos espaços de debates: espécie de reserva indígena-intelectual, que visa demonstrar o pluralismo de um jornal, enquanto a informação transmitida em todas as outras páginas defende pura e simplesmente a ordem existente. Mundo afora, o cidadão é informado sobre a crise econômico-financeira de forma predominantemente mecanicista, tecnicista e distorcida. As causas principais das convulsões em curso são eludidas: in primis a desregulamentação insensata do sistema financeiro, origem de fraudes e falências.

As análises de economistas e jornalistas alinhados ao neoliberalismo, e que ainda são maioria, chegam de hábito a um beco sem saída, a um porto das névoas, quando tocam o tema “mercados”. Neste ponto, as dúvidas desaparecem, as perguntas se extinguem – Ipse dixit! – em obséquio aos inomináveis e onipotentes titereiros donos dos “mercados”.

Sendo assim, os cortes sociais realizados pelos governos europeus, alvos de ataques especulativos, são descritos mecanicamente como respostas obrigatórias, para satisfazer às exigências ou aos humores dos “mercados”. Obviamente, isso é feito sem informar quais grupos de interesses e forças concretas estão por trás dos tais “mercados”. As imponentes transferências de riquezas provocadas pela gangorra dos spreads ou negociatas das bolsas de valores, a existência de imensas fortunas escondidas nos “paraísos fiscais”, são fatos descritos de forma fria e tecnicista, incompreensível para o cidadão comum, oferecendo uma representação da realidade absolutamente surrealista, sem análise alguma sobre as causas e consequências.

A situação da mídia brasileira cabe perfeitamente neste quadro, com algum agravante. O “pensamento único” da chamada grande imprensa é bem mais extenso aqui do que em outros países de democracia madura. A esse aspecto acrescenta-se um partidarismo acentuado, unilateralmente antigovernamental, que contrasta com uma concepção da informação como serviço pluralista à cidadania. O governo brasileiro não pode ser isento de críticas, mas o mérito de ser um dos poucos no mundo que na última década conseguiram crescimento econômico e diminuição das desigualdades, deveria ser reconhecido em homenagem aos fatos.

Em suma, a opinião pública mundial padece de uma informação parcial ou distorcida, que esconde a realidade de um planeta onde a desigualdade sem freios e a avidez do lucro estão comprometendo as possibilidades de construir um futuro comum. Esta “cegueira” é na maioria das vezes fruto de partidarismo ideológico, que esconde interesses oligárquicos supranacionais; outras vezes é consequência da incapacidade de sair do esquema prefixado de pensar e agir. Para reverter esse quadro perigoso, é preciso que se difunda o pensamento crítico, hoje minoritário. O papel da mídia independente é de informar sobre os fatos e ideias que os outros não querem ou não podem contar.

 

http://www.cartacapital.com.br/politica/a-praga-do-pensamento-unico/

Os 90 anos dos comunistas no Brasil

Mesmo divididos em legendas diferentes, comunistas lembram nove décadas de lutas

Por Eduardo Sá
Especial para Caros Amigos

Os comunistas fazem parte dos mais antigos partidos políticos em atividade no Brasil. Partidos porque dois deles, o Partido Comunista Brasileiro (PCB) e o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), além do mais recente Partido Popular Socialista (PPS), reivindicam a mesma data de comemoração. Indiscutível é, no entanto, a contribuição dos comunistas na história nacional. Participaram de todas as lutas justas do povo brasileiro durante as últimas nove décadas. Não é à toa que renomadas personalidades da história política e cultural do Brasil foram comunistas ou seus aliados: Jorge Amado, Oscar Niemeyer, Portinari, Caio Prado Júnior, Rachel de Queirós, João Saldanha, Mário Lago, Paulo Freire, Graciliano Ramos, dentre tantos outros.

No dia 25 de março de 1922 nasceu, em Niterói, dando sequência a uma reunião iniciada no Rio de Janeiro, o Partido Comunista do Brasil (PCB). Nove delegados, representando cerca de 73 militantes de diversos estados do Brasil, criaram o partido inspirados nos “21 pontos de Moscou”, em referência à Revolução de Outubro, ocorrida em 1917 na Rússia. Os pensamentos de Karl Marx e Friedrich Engels, somados aos métodos de organização de Lênin, líder da revolução russa, nortearam a agremiação.  Representando os operários e camadas populares da sociedade brasileira, os intelectuais e militantes do PCB foram obrigados pelas elites a viver grande parte de sua história na ilegalidade.

O partido surge contribuindo nas lutas políticas e culturais, como a participação expressiva na Semana de Arte Moderna, em 1922. Com a chegada de Luís Carlos Prestes no início de 1930, egresso da famosa Coluna que atravessou o país, os comunistas começam a ter influência no cenário nacional. Figuras lendárias como Astrojildo Pereira e João Amazonas, dentre outros, combateram o Estado Novo de Getúlio Vargas, fizeram campanha pela constituinte em 1946, foram às ruas lutar pelo “O Petróleo é nosso”, agitaram greves nos anos 1950, e, ao se aproximarem das massas, passaram a ter importância nas resoluções históricas da nação. Muitas vitórias e derrotas, como o levante em 1935, ocorreram, em sua maioria, na clandestinidade. Com isso, se tornou a principal organização política de esquerda no Brasil durante anos.

Mas o cenário internacional também refletia no partido, sobretudo os caminhos tomados pela União Soviética e pela China, e foi gerando discórdias no seu Comitê Central. Em 1958 é lançada a famosa Declaração de Março, que aponta, dentre outros elementos, a questão democrática. Em 1962, no dia 18 de fevereiro, o racha no partido se consolida e, de acordo com a interpretação de cada um deles, ocorre a criação de um novo partido ou a refundação da organização. As visões diferenciadas se acentuam com a ditadura militar a partir de 1964, época em que muitas lideranças foram mortas, presas, desaparecidas e exiladas, como Carlos Marighella. A partir desse período o PCdoB, que hoje é base do governo, vem formando novas alianças e o PCB se desintegrando, chegando ambos ao século XXI com nova cara e novos desafios. Em 1992 surge, ainda, o Partido Popular Socialista (PPS), também reivindicando a história original do partido.

Festividades dos partidos

O Rio de Janeiro foi palco das comemorações. O Partido Comunista Brasileiro (PCB) realizou durante a semana diversas atividades, com debates promovidos em alguns sindicatos, e um ato político na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), local que nos anos de chumbo da última ditadura militar serviu de trincheira à democracia. O PCdoB, por sua vez, fez atividades que acabaram num ato-show no Vivo Rio, uma das casas de show mais caras da cidade. Ambos receberam representantes de partidos comunistas de outros países. E o PPS também não deixou passar em branco, promovendo uma sessão comemorativa na Câmara Legislativa do Distrito Federal, na qual foi lançado o livro “O PCB-PPS e a Cultura Brasileira: Apontamentos”, do historiador Ivan Alves Filho.

As festas que foram realizadas no Rio de Janeiro traduzem bem as disparidades entre os partidos. O Partidão, como é conhecido o PCB, fez autocríticas, inclusive na televisão em cadeia nacional, aos seus possíveis erros históricos e reflexões sobre seu futuro. Intelectuais debateram estratégias e fizeram retrospectivas, reforçando sua oposição ao atual governo e suas alianças. O auditório da Associação Brasileira de Imprensa ficou lotado. A União da Juventude Comunista (UJC) vem crescendo e se destacando no cenário carioca, sempre participando dos protestos populares, e no caminho para a festa dos 90 anos fez um ato em frente ao Clube Militar, defendendo a Comissão da Verdade e a punição dos torturadores da última ditadura. O evento foi aberto, com refrigerantes e biscoitos para o público, e contou com a participação de diversos movimentos sociais, intelectuais e parlamentares. Marina Santos, da direção nacional do MST, e os parlamentares Paulo Ramos (PDT), Alessandro Molon (PT), Chico Alencar (PSol) e José Maria (PSTU), dentre outros, estiveram presentes.

Ivan Pinheiro, secretário geral do PCB, disse a Caros Amigos que seu partido só tem futuro porque tem passado. Ele destacou que a autocrítica e a reflexão dos caminhos a serem tomados são para evitar alguns erros cometidos, porque a história está oferecendo uma boa possibilidade de liderança revolucionária num futuro próximo. Pinheiro ressalta que eles têm o diferencial no discurso sobre alguns temas e vão buscar maior aproximação com as massas para superar algumas dificuldades.

“A história está caminhando para um conflito social e o PCB poder ser uma liderança nesse processo, porque o capitalismo já não tem mais nada a oferecer para a humanidade. Ele só pode ficar mais agressivo, tirar mais direitos e produzir mais guerras. Nossa avaliação é que vai haver um acirramento na luta de classes e partidos que têm a política revolucionária, no sentido de não conciliar, de ser um partido leninista, têm tudo para crescer. Onde a crise é mais dramática, o PBC grego vem crescendo muito, por exemplo. Mas nós temos ainda que construir para poder merecer esse momento que a gente está vivendo”, afirmou o dirigente.

Ambiente bastante diferente foi o da festa do PCdoB, que após o ato político repleto de dirigentes teve show de Martinho da Vila. Sem a presença de movimentos sociais expressivos, representados pela Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), e com uma juventude menos inquieta, a festa foi bastante requintada. Aberto somente para convidados, o evento, com uma orquestra na recepção, foi dividido em camarotes e pista. Nesta, tudo era pago, indo desde água por R$ 5 a espumantes de R$ 200. Mais de 30 pessoas participaram da produção, cujo gasto não foi divulgado, tendo, destacadamente, toda a cúpula da União Nacional dos Estudantes (UNE) em sua composição.

Todos bem vestidos e familiarizados com as atuais autoridades, provavelmente estarão nos quadros políticos no futuro próximo. Representam a corrente União da Juventude Socialista (UJS) no movimento estudantil. Ministros, senadores, governadores e prefeitos foram ao microfone, mediado pelo cantor e pré-candidato a prefeito Netinho (PCdoB-SP). A presidente Dilma e o ex-presidente Lula enviaram um vídeo com saudações ao partido e se fizeram presentes por meio de Gilberto Carvalho e Luiz Dulci, respectivamente. Além dos dirigentes do PCdoB, como Aldo Rebelo e Orlando Silva, a base aliada participou com a presença carioca do senador Marcelo Crivella (PRB), o vice governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) e o prefeito Eduardo Paes (PMDB), e muitos outros. A Internacional Comunista foi tocada para todos no palco.

O presidente do PCdoB, Renato Rebelo, fez longa exposição sobre a história do partido durante o evento. Homenageou comunistas históricos e destacou a participação da atual geração do partido. O programa acertado em 2009 define a transição ao socialismo, com a aplicação de um novo projeto nacional de desenvolvimento e anti-imperialista, latifundiário e oligarquista, declarou. Ao final do ato político ele falou a Caros Amigos o que traduz hoje o caráter marxista e revolucionário do partido que, na sua visão, é leal ao governo mas não renuncia à independência.

“O que traduz o caráter marxista e revolucionário do PCdoB hoje é o rumo que ele defende, uma estratégia nossa, ele sabe para onde ir. Por que ele ainda vive 90 anos? Porque enquanto não cumprir o seu objetivo vai existir. Esse é o grande ideal, o socialismo. Mas o caminho para isso você parte da realidade concreta. O curso mais importante e político que a gente pode impulsionar e levar adiante é esse com a vitória de Lula. Eu não posso escolher o que é o ideal para mim na história, o que eu posso é atuar conforme o curso histórico naquilo que eu acho que pode se aproximar dos objetivos maiores que eu defendo”, afirmou.

O mito Luís Carlos Prestes

Como todo mito, Luis Carlos Prestes, o lendário Cavaleiro da Esperança, apelido dado pelo escritor Jorge Amado, é lembrado de várias formas. Sua figura é prestigiada por todos os partidos, mas não há consenso ideológico nem na sua própria família. Prestes foi um ícone do comunismo no Brasil, passou anos estudando na Rússia e ao retornar ao país foi perseguido, preso e exilado. Foi protagonista em grandes acontecimentos históricos no Brasil. Após anos à frente do PCB e de volta à nação, lança a Carta aos Comunistas e pouco depois se desliga do partido. Nesse período o Comitê Central já estava dividido, com impasses estratégicos envolvendo escolhas antes e durante a ditadura militar de 1964. De volta ao país, após a anistia, Prestes passa o fim de sua vida filiado ao Partido Democrático Trabalhista (PDT).

Anita Prestes, historiadora e filha de Luís Carlos Prestes com Olga Benário, defende que seu pai já denunciava a essa época a história do reformismo do PCB. No ano passado, ela publicou uma carta à direção do PCdoB externando sua estranheza e indignação com a utilização das imagens de seu pai no programa eleitoral do partido. Ela vai lançar em agosto, pela editora Expressão Popular, o livro “Luís Carlos Prestes: um combate por um partido revolucionário”. Ao participar de uma mesa nas atividades do PCB, demonstrou afinidades com o Partidão mas apontando os erros no passado, principalmente os de conciliação com as classes dominantes.

“Não posso aceitar que se pretenda comprometer a trajetória revolucionária dos meus pais com a política atual do PCdoB, que, certamente, seria energicamente por eles repudiada. Cabe lembrar que, após a anistia de 1979 e o regresso de Luís Carlos Prestes ao Brasil, durante os últimos dez anos de sua vida, ele denunciou repetidamente o oportunismo tanto do PCdoB quanto do PCB, caracterizando a política adotada por esses partidos como reformista e de traição da classe operária”, afirma a historiadora na carta.

O resto da família de Prestes, fruto da relação com Maria Prestes, sua viúva, tem mais proximidade com o PCdoB. São 7 filhos e muitos netos, nenhum deles ligado à política. A matriarca foi homenageada na festa do partido e falou para Caros Amigos que esteve no evento do Partidão e não foi anunciada. “Não tem dissidência nenhuma, todos nós temos o mesmo pensamento e lutamos pelos mesmos objetivos: mudanças dos problemas sociais e a defesa de nossas riquezas. Isso que o partido comunista significa para mim e toda a família. Participei da reforma agrária, o petróleo é nosso, luta contra a bomba atômica, pelo aumento dos salários. Nossa família defende esse mesmo pensamento”, afirmou.

Como as lideranças enxergam as dissidências?

São muitas as contradições que envolvem os partidos comunistas no Brasil. Cada um defende a legitimidade de sua trajetória e de seus personagens à sua maneira. Nas declarações dos dirigentes a seguir isto fica claro, exceto a crítica ao Partido Popular Socialista (PPS). Além dessas, ainda existem outras correntes, como a Corrente Comunista Luís Carlos Prestes. De acordo com Anita Prestes, ao contextualizar as dissidências do partido, o país tem uma tradição histórica de conciliação e essa fragmentação decorre da inexistência de um movimento de massas no Brasil.

“A esquerda no Brasil hoje em dia está extremamente dividida. Existem pessoas de esquerda nas organizações de esquerda. Como o movimento de massas ainda está muito embrionário, também faltam lideranças e uma proposta que realmente consiga levar adiante o processo revolucionário. Ninguém é dono da revolução, pode ser o PCB ou não, vai depender de quem vai mostrar na prática essa capacidade de liderar o movimento popular”, analisou.

De acordo com Ivan Pinheiro, secretário geral do PCB, eles são os únicos herdeiros do Partido Comunista Brasileiro, que foi uma árvore frondosa que rendeu muitos frutos. Sua herança, para ele, não é no sentido cartorial por causa do nome e sim porque assume toda a história do partido. Ele explica que o nascimento de outro partido na década de 60 ocorreu em função da revolução chinesa, com a famosa divergência sino-soviética, período em que nasceram dezenas de partidos no mundo todo.

“Ele teve um nome de Partido Comunista do Brasil, em 1959 passa para Partido Comunista Brasileiro, mas sempre foi PCB. Até alguns anos atrás o PCdoB se orgulhava de ter sido fundado em 1962 para se diferenciar daqueles 40 anos anteriores, ele negava peremptoriamente o Prestes, a União Soviética, etc. O povo não está entendendo, parece que nós somos gêmeos, nascemos no mesmo dia. Mas o PPS, a própria linha política dele mostra que hoje não merece nem dizer que foi o PCB, porque é um partido de direita. O PCdoB a gente respeita, ainda tem comunistas, nós discordamos é da linha política que nós chamamos de oportunista e eleitoreira”, afirmou Pinheiro.

O Partidão foi sumindo e se transformou em PPS, é a visão de Renato Rebelo, presidente do PCdoB. De acordo com o líder do partido, o PCB fez parte de um momento de cisão do movimento comunista no mundo e no Brasil. Em entrevista a Caros Amigos, Rebelo afirma que só o PCdoB tem hoje influência no cenário político nacional e, por isso, valeu sua reorganização.

“Ele jogou seu papel no começo e o PCB que era maior desapareceu porque se transformou em PPS. Hoje o PPS é um partido atrelado aos tucanos, o que restou é um grupo pequeno, uma seita política. Não tem influência no curso político brasileiro. Então, na realidade, o PCB que era maioria minguou e desapareceu. Por isso dizemos que valeu a reorganização. Foi o partido que ficou, enfrentou a ditadura, atraiu para suas fileiras um conjunto de revolucionários sinceros. Ele perdeu praticamente 11 membros da direção nacional, os quadros da AP vieram cobrir esse claro. O PCB não, ao contrário, começou a ter crescentemente dissidências desde o início do golpe militar de 1964. Depois ficou Roberto Freire, que numa atitude de apostasia largou tudo, símbolo, nome”, observou.

PPS

O fundador e atual presidente do PPS, Roberto Freire, defende que seu partido é sucessor do PCB. Ele afirma que no XII Congresso Nacional, em janeiro de 1992, em São Paulo, que foi precedido de intenso debate, 2/3 dos delegados decidiram criar um novo partido. O fim da União Soviética, a queda do Muro de Berlim, o fim do centralismo democrático, alguns dogmas, o embate entre reforma e revolução, dentre outros temas, desencadearam um processo de desintegração e revisionismo no partido, na sua opinião. Freire acredita que o PPS vai crescer, mas reconhece que o partido vem sofrendo várias derrotas. E atribui esse cenário a um caráter adesista dos políticos brasileiros, pois no Brasil é muito difícil fazer oposição, complementou.

“Desde quando éramos do PCB sempre havia no dia 24 de março essas contradições em relação à data comemorativa e nós resolvemos que herdeiros de 22 são todos os que desejamos ser herdeiros. As homenagens são livres e todos são respeitados. O comunismo não tem perspectiva de futuro, existe a ortodoxia do passado em homenagem à história, mas não tem mais capacidade de fazer história. Toda a concepção que formava o comunismo perde o sentido na atual conjuntura no mundo. Os valores da esquerda prevalecem, mas outros elementos não”, concluiu.

http://carosamigos.terra.com.br/index2/index.php/noticias/2683-os-90-anos-dos-comunistas-no-brasil

Kandahar: os nomes das vítimas sem nome

19/3/2012,

Qais Azimy, Al-Jazeera, Qatar

http://blogs.aljazeera.com/asia/2012/03/19/no-one-asked-their-names

 

Nos dias que se seguiram ao assassinato de 16 civis afegãos desarmados, por um soldado norte-americano armado – talvez mais soldados, e nada se sabe sobre ‘os fatos em campo’ em Kandahar –, todos os grandes jornais-empresas do mundo, inclusive Al-Jazeera, concentraram-se no “significado” daquela ação, considerados, sempre, os interesses dos EUA.

 

Muitos veículos da mídia-empresa dedicaram-se a vasculhar todos os mais ínfimos detalhes da vida do único soldado dos EUA até agora acusado por aqueles crimes e identificado como Sargento Robert Bales. Sabe-se até onde sua esposa queria passar férias, e o que ela escreve em seu blog pessoal.

 

Mas as vítimas foram deixadas para os rodapés, sem (nem) nome. Falou-se um pouco do número: 16. Sem idade, sem rosto, sem hobbies conhecidos, sem sonhos para algumas possíveis férias. Não se conheceram sequer seus nomes.

 

Como homenagem àqueles mortos nada ‘jornalísticos’, listo aqui os nomes das vítimas dos EUA em Kandahar, e o pouco que consegui saber: que nove, daqueles 16 mortos eram crianças; e três, mulheres.

 

Os mortos são:
Mohamed Dawood, filho de Abdullah

Khudaydad, filho de Mohamed Juma

Nazar Mohamed

Payendo

Robeena

Shatarina, filha de Sultan Mohamed

Zahra, filha de Abdul Hamid

Nazia, filha de Dost Mohamed

Masooma, filha de Mohamed Wazir

Farida, filha de Mohamed Wazir

Palwasha, filha de Mohamed Wazir

Nabia, filha de Mohamed Wazir

Esmatullah, filha de Mohamed Wazir

Faizullah, filho de Mohamed Wazir

Essa Mohamed, filho de Mohamed Hussain

Akhtar Mohamed, filho de Murrad Ali

 

Os feridos são:
Haji Mohamed Naim, filho de Haji Sakhawat

Mohamed Sediq, filho de Mohamed Naim

Parween

Rafiullah

Zardana

Zulheja

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