Novo grupo indígena no Amazonas

23 de junho de 2011

Por Pedro Peduzzi, na Agência Brasil


A Fundação Nacional do Índio (Funai) confirmou hoje (21/6) a existência de um novo grupo de índios isolados no Vale do Javari, no Amazonas. A Funai estima em cerca de 200 o número de índios no local e diz que eles, são, provavelmente de um grupo cuja língua é da família Pano. A comunidade foi localizada pela Frente de Proteção Etnoambiental, durante sobrevoo realizado em abril deste ano. Três clareiras com quatro grandes malocas foram avistadas pelos técnicos.
Antes mesmo do sobrevoo, o coordenador da Frente do Vale do Javari, Fabrício Amorim, havia identificado as clareiras por satélite. A confirmação desse tipo de descoberta requer, segundo ele, anos de trabalho sistemático e metódico, com realização de pesquisas documentais, expedições e análises de imagens de satélite.
Até a confirmação, a presença desses índios isolados era apenas uma referência “em estudo”, com base em relatos sem informações conclusivas sobre a exata localização e características da comunidade.
Em nota, a Funai informa que tanto a roça quanto as malocas são novas e foram concluídas no máximo há um ano. Essa avaliação tem por base o estado da palha usada na construção e a plantação de milho. No local há, ainda, plantações de bananas e uma vegetação rasteira similar à de amendoins.
Na Terra Indígena Vale do Javari, há um complexo de povos isolados que é considerado a maior concentração de grupos isolados na Amazônia e no mundo.
Amorim aponta, entre as principais ameaças à integridade de povos indígenas isolados, a pesca ilegal, a caça, a exploração madeireira, o garimpo, atividades agropastoris com grandes desflorestamentos, ações missionárias e situações de fronteira, como o narcotráfico. “Outra situação que requer cuidados é a exploração de petróleo no Peru, que pode refletir na Terra Indígena do Vale do Javari”, afirma Amorim.
A Funai reconhece a existência de 14 referências de índios isolados no Vale do Javari, mas o número pode ser ainda maior. Mais de 90 indícios de ocupações indígenas foram localizados entre 2006 e 2010, e há atualmente oito grupos de índios isolados com malocas, roças e tapiris (choupanas) já localizados por sobrevoo ou por expedições terrestres.
De acordo com a Funai, em toda a região do Vale do Javari, vivem cerca de 2 mil indígenas.

Os dilemas de Humala no Peru

Por Atilio Boron

No momento em que escrevi estas linhas, todas as bocas de urna davam Ollanta Humala como vencedor. Ao se confirmar essa tendência, o clima de renovação política e social instalado na América Latina desde o final do século passado se verá consideravelmente fortalecido. Um Peru que supostamente abandonaria, com o novo governo, sua postura de incondicional peão do império – lamentável situação a que chegou não pela mão do conservador Alejandro Toledo , mas pelo ex-líder aprista Alan García –, seria uma lufada de ar fresco para os governos de esquerda e progressistas da América do Sul. Não é um mistério para ninguém que Washington moveu todo o seu arsenal financeiro, político e propagandístico para impedir a vitória de Humala . O nervosismo evidenciado na semana passada pela “comunidade de negócios” do Peru que, assim como seus homólogos de outras partes do mundo, tem acesso à informação que os demais não têm, refletia a preocupação que causava em suas fileiras a eventual derrota do fujimorismo: por causa disso, a Bolsa de Lima registrou uma queda de 6%.

O establisment peruano, personificado desde o século XIX por seu intelectual orgânico, o jornal El Comercio , assumiu com tal descaro seu papel de organizador do anti-humalismo que o próprio Mario Vargas Llosa renunciou a continuar escrevendo em suas páginas. A CNN não foi atrás dele: na sexta-feira passada, sua principal apresentadora, Patricia Janiot , submeteu o candidato da coligação “Gana Perú” a um interrogatório que, por sua forma e conteúdo, a desqualifica, pela
enésima vez, como jornalista e a confirma como operadora política a serviço da Casa Branca. O governo de Alan García, evidentemente, não ficou atrás nesta cruzada direitista.

Convém, em todo o caso, descartar hipóteses maximalistas: o Peru assinou o Tratado de Livre Comércio com os Estados Unidos, que entrou em vigor no dia 1º de fevereiro de 2009, e os condicionamentos deste acordo não deveriam ser subestimados. Por outro lado, a coalizão eleitoral forjada por Humala será outro elemento restritivo no caso de despertar no novo presidente a vocação “bolivariana” que muitos lhe atribuem, mas que foi refreada durante a campanha eleitoral.

E seus inimigos – a oligarquia e as transnacionais, ambas apoiadas por Washington – são muito poderosos para serem desafiados sem antes preparar cuidadosamente a batalha. Mas é um homem que denunciou como poucos as injustiças que desde tempos imemoráveis são cometidas no Peru, e há razões para supor que será fiel a tão nobres sentimentos. Além disso, os ensinamentos que as recentes eleições deixam – Chile, em 2010; Espanha, há duas semanas; e Portugal, no último domingo – são uma sóbria advertência de que diante da gravidade da crise capitalista e da acentuação da congênita incapacidade desse sistema para distribuir, sequer com um mínimo de equidade, os frutos do crescimento econômico (mais que evidente no “milagre peruano”), a adoção de uma política resignada e “possibilista” que continue pela vereda não necessariamente luminosa traçada por seus antecessores é o caminho seguro para uma rotunda derrota ao cabo de
alguns poucos anos.

Há um velho dictum da teoria política que diz que os povos preferem o original à cópia: sofreram-no na própria carne a Concertación no Chile, o PSOE na Espanha e o (mal chamado) Partido Socialista em Portugal.

Mas, ultrapassando estas observações cautelosas, é de se celebrar que – em um momento em que na América Latina o imperialismo e a reação estão passando à contraofensivacom inusitada agressividade, cercando a região com bases militares – a vitória de Ollanta possa representar um marco, anunciando a reversão dessa nefasta tendência.

Por enquanto, a liga reacionária do Pacífico, pacientemente construída por Washington para neutralizar a Unasul e a ALBA , e que tinha como esteios o México, a Colômbia, o Peru e o Chile, perdeu uma de suas duas peças vitais para o controle da Amazônia, pelo menos. O que não é pouca coisa!

Pesquisa mostra segundo turno disputadíssimo no Peru.

Uma nova pesquisa de opinião sobre o segundo turno das eleições presidenciais no Peru, divulgada nesta quinta-feira, mostra que o candidato de esquerda Ollanta Humala tem 40,6% e a conservadora Keiko Fujimori, 36,8%. A diferença é de apenas 3,8 pontos. Na conta dos votos válidos, ele aparece com 52,5% e ela com 47,5%. A eleição ocorre no dia 5 de junho. A pesquisa é do Instituto CPI e está disponível na íntegra na internet.

Essa pesquisa trouxe dados bem interessantes. O primeiro é que a disputa pelo centro é voto a voto, o que obrigou ambos a moderarem seus discursos ainda mais. Ollanta Humala busca consolidar o voto popular e ser aceito pelos empresários. Ele já conquistou o apoio do escritor Mario Vargas Llosa, que perdeu a eleição para Alberto Fujimori, na década passada. Mas não conseguiu o do ex-presidente, Alejandro Toledo, que ficou em quarto lugar no primeiro turno. E tem apanhado muito dos meios de comunicação que questionam o tempo todo mudanças no seu programa de governo e especulam sobre o que faria na economia. Num segundo turno cheio de acusações, Humala tem que provar agora que não recebeu dinheiro de Hugo Chávez na campanha de 2006.

Já Keiko Fujimori tenta abrandar seu discurso e mostrar que fará um governo diferente do pai, mas não nega completamente os erros cometidos por ele. Para amenizar sua rejeição parou, por exemplo, de defender a pena de morte e acenou para a esquerda ao propor aumento nos impostos das empresas mineradoras, muitas estrangeiras, incluindo brasileiras.

Apesar da imprensa ser mais condescendente com as fragilidades de Keiko Fujimori, hoje ela precisou reponder a uma reportagem publicada no jornal El Comercio sobre seu vago programa de governo de 58 páginas, que só faz menção aos direitos humanos num subtítulo e não tem uma só palavra sobre as Forças Armadas, que se envolveram até o pescoço do chefe do Exército com a corrupção do governo de seu pai.

Pelo contrário. No programa ela não nega os anos Fujimori, que está preso numa base naval de Lima, acusado de corrupção e desrespeito aos direitos humanos. Até porque no governo do pai ela teve um papel ativo ao assumir a vaga da mãe como primeira dama após acusações desta ao presidente, em meio a um rumoroso divórico. Keiko defende ganhos da Constuição de 93, as reformas econômicas de Fujimori e faz uma única ressalva à corrupção. Também não fala sobre liberdade de expressão e de imprensa, o que é cobrado na reportagem, já que o ex-presidente comprou o apoio de vários orgãos de imprensa, conforme ficou claro em gravações do principal assessor dele à época. O problema é que vários dos auxiliares de Alberto Fujimori estão nesta campanha, conforme lembrou Rogelio Nuñéz em um artigo no site Infolatam.

Altiplano e região da selva com Humala / JP

Para onde foram os liberais

A pesquisa do Instituto CPI mostra que parte do centro liberal do país, formado fortemente pela população das classes médias de Lima, que não conseguiu colocar nenhum candidato no segundo turno, está falando “sim” a Keiko Fujimori.
Veja abaixo os números:
Lima Resto do país

Keiko 40,2% 33,8%
Humala 35,6% 45%

Os votos do ex-ministro da Fazenda, o liberal Pedro Paulo Kuczynski, vão fortemente para Keiko Fujimori. Assim como os do ex-prefeito de Lima, Luis Castañeda, que se dividem um pouco mais. Ambos estão com ela no segundo turno. Os do ex-presidente Alejandro Toledo, ao contrário, se alinham com Humala.

Divisão dos votos:

Humala Keiko
PPK 17,9 43,9
Toledo 42,2 27,6

Lima com Keiko Fujimori / JP

Rejeição e votos decididos
Outro dado importante é a rejeição dos candidatos. A de Keiko Fujimori chega a 47,8% enquanto a de Ollanta Humala é um pouco menor, 44,2%. E a percepção de vitória também é maior em relação a Humala. A metade do eleitorado acha que ele será o próximo presidente, enquanto só 35,2% consideram que ela chegará ao Palácio do Governo. O voto do esquerdista também está mais consolidado. 38,2% de seus eleitores dizem já estão decididos e os de Keiko são um pouco menos, 33%.

http://alemdosandes.com.br/?p=1016

Blog Stats

  • 1.360.242 visitas
%d blogueiros gostam disto: