UEM 2008 – verão

INSTRUÇÃO: leia o texto a seguir para responder às
questões 09 e 10.
 
“[…] Ao acordá-lo, o rádio-relógio digital dispara
informações sobre o tempo e o trânsito. Ligando a FM, lá
está o U-2. O vibramassageador amacia-lhe a nuca,
enquanto o forno microondas descongela um sanduíche
natural. No seu micro Apple II, sua agenda indica:
REUNIÃO AGÊNCIA 10H/ TÊNIS CLUBE 12H/
ALMOÇO/ TROCAR CARTÃO MAGNÉTICO
BANCO/ TRABALHAR 15H/ PSICOTERAPIA 18H/
SHOPPING/ OPÇÕES: INDIANA JONES-BLADE
RUNNER VIDEOCASSETE ROSE, SE LIGAR/ SE
NÃO LIGAR, OPÇÕES: LER O NOME DA ROSA
(ECO) – DALLAS NA TV – DORMIR COM
SONÍFEROS VITAMINADOS.
Seu programa rolou fácil. Na rua divertiu-se pacas com a
manifestação feminista pró-aborto que contava com um
bloco só de freiras e, a metros dali, com a escultura que
refazia a Pietá (aquela do Miguelângelo) com baconzitos
e cartões perfurados. Rose ligou. Você embarcou no
filme Indiana Jones sentado numa poltrona estilo
Menphis – uma pirâmide laranja em vinil – desfiando
piadas sobre a tese dela de filosofia: Em Cena, a
Decadência. A câmera adaptada ao vídeo filmou vocês
enquanto faziam amor. Será o pornô que animará a
próxima vez.
Ao trazê-lo de carro para casa, Rose, que esticaria até
uma festa, veio tipo impacto: maquiagem teatral, brincos
enormes e uma gravata prateada sobre camisão lilás. Na
cama, um sentimento de vazio e irrealidade se instala em
você. Sua vida se fragmenta desordenadamente em
imagens, dígitos, signos – tudo leve e sem substância
como um fantasma. Nenhuma revolta. Entre a apatia e a
satisfação, você dorme.” (SANTOS, Jair Ferreira. O que
é Pós-Moderno. São Paulo. Editora Brasiliense, 1988.
p.8).
 
Questão 09
Utilizando seus conhecimentos sobre o tema “gostos e
estilos de vida”, assinale a(s) alternativa(s) correta(s)
sobre o texto.
 
01) Trata do cotidiano de um indivíduo urbano que
convive com a tecnologia eletrônica de massa e
individual.
02) Aborda a valorização do estilo de vida hedonista, no
qual predomina a busca pelo prazer individual e
imediato.
04) Exemplifica a lógica de uma sociedade que não é
pautada pelo consumo generalizado de bens e
serviços.
08) Retrata uma situação peculiar aos indivíduos que
vivem em sociedades altamente industrializadas que
oferecem acesso diferenciado às novas tecnologias.
16) Mostra o processo de fragmentação dos indivíduos
em uma sociedade baseada na tecnociência.
 
resposta: 27
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UEM 2008 – verão

INSTRUÇÃO: leia o texto a seguir para responder às
questões 09 e 10.
 
“[…] Ao acordá-lo, o rádio-relógio digital dispara
informações sobre o tempo e o trânsito. Ligando a FM, lá
está o U-2. O vibramassageador amacia-lhe a nuca,
enquanto o forno microondas descongela um sanduíche
natural. No seu micro Apple II, sua agenda indica:
REUNIÃO AGÊNCIA 10H/ TÊNIS CLUBE 12H/
ALMOÇO/ TROCAR CARTÃO MAGNÉTICO
BANCO/ TRABALHAR 15H/ PSICOTERAPIA 18H/
SHOPPING/ OPÇÕES: INDIANA JONES-BLADE
RUNNER VIDEOCASSETE ROSE, SE LIGAR/ SE
NÃO LIGAR, OPÇÕES: LER O NOME DA ROSA
(ECO) – DALLAS NA TV – DORMIR COM
SONÍFEROS VITAMINADOS.
Seu programa rolou fácil. Na rua divertiu-se pacas com a
manifestação feminista pró-aborto que contava com um
bloco só de freiras e, a metros dali, com a escultura que
refazia a Pietá (aquela do Miguelângelo) com baconzitos
e cartões perfurados. Rose ligou. Você embarcou no
filme Indiana Jones sentado numa poltrona estilo
Menphis – uma pirâmide laranja em vinil – desfiando
piadas sobre a tese dela de filosofia: Em Cena, a
Decadência. A câmera adaptada ao vídeo filmou vocês
enquanto faziam amor. Será o pornô que animará a
próxima vez.
Ao trazê-lo de carro para casa, Rose, que esticaria até
uma festa, veio tipo impacto: maquiagem teatral, brincos
enormes e uma gravata prateada sobre camisão lilás. Na
cama, um sentimento de vazio e irrealidade se instala em
você. Sua vida se fragmenta desordenadamente em
imagens, dígitos, signos – tudo leve e sem substância
como um fantasma. Nenhuma revolta. Entre a apatia e a
satisfação, você dorme.” (SANTOS, Jair Ferreira. O que
é Pós-Moderno. São Paulo. Editora Brasiliense, 1988.
p.8).
 
Questão 10
Podemos considerar o texto anteriormente lido como uma
fábula. Baseado nela, assinale a(s) alternativa(s)
correta(s).
 
01) A fábula se passa em um espaço urbano, no qual o
indivíduo é saturado pela oferta de informações,
diversões e serviços.
02) O indivíduo da fábula pode contar com os avanços
tecnológicos para programar o seu dia-a-dia.
04) A fábula descreve um mundo dominado pelos meios
tecnológicos que podem promover uma
desconstrução estética da arte.
08) O indivíduo descrito na fábula tem ações que
demonstram uma sedução pelo “imediato” e falta de
interesse pelas atitudes reflexivas.
16) A fábula ocorre em uma sociedade movida pela
informação. Nela, os valores são trocados pelo
modismo e o indivíduo tende a ser tomado pelo
conformismo e pela apatia.
 
resposta: 31

UEM 2008 – inverno

11 – Considerando que a produção e a circulação de bens
e de serviços são o resultado da combinação de
trabalho, matéria-prima e instrumentos de produção,
assinale o que for correto.
 
01) Para Karl Marx, no capitalismo, os
trabalhadores encontram-se alienados pelo fato
de não se apropriarem dos resultados do seu
trabalho nem controlarem o processo produtivo.
02) Na produção capitalista contemporânea, a
ciência e a tecnologia tornaram-se forças
produtivas e agentes de acumulação do capital.
04) As atividades relacionadas às artes e à atividade
intelectual não podem ser consideradas trabalho,
pois não produzem riqueza material.
08) No modo de produção asiático, os escravos e os
camponeses entregavam a sua produção ao
Estado, porém o excedente da produção era
dividido igualmente por toda a população.
16) A partir das mudanças ocorridas em seu
processo de produção, o sistema feudal entrou
em declínio, assim, os países europeus
predominantemente agrários lentamente se
transformaram em urbano-industriais.
 
resposta: 11

Para que todas as mídias sejam livres

FÓRUM SOCIAL TEMÁTICO 2012
13 de Fevereiro de 2012
por Michele Torinelli

Porto Alegre, berço do Fórum Social Mundial (FSM), recebeu novamente o encontro por um outro mundo possível, dessa vez em sua versão regional e com o tema “crise capitalista, justiça social e ambiental”. Entre as várias atividades que tomaram a cidade no final de janeiro, o III Fórum de Mídia Livre(FML) foi palco para a troca de experiências de comunicação e a construção de estratégias comuns.

A programação contou com relatos e análises da Primavera Árabe, da luta pela libertação palestina, dos indignados de Espanha e da regulamentação da mídia no Brasil pós Conferência Nacional de Comunicação e na Argentina – onde a Lei dos Meios foi aprovada. Outro tema de debate foram as “redes em redes”, que partiu de experiências para chegar em perspectivas de apropriação conjunta de práticas e plataformas livres, que facilitem a conjunção das diferentes lutas por uma sociedade mais digna, justa e livre.

Apropriação tecnológica, direito à comunicação e políticas públicas de comunicação

O III FML organizou-se a partir desses três eixos complementares entre si. O primeiroabrange as práticas de comunicação e a queda da barreira entre emissor e receptor – mais do que nunca, todos produzem e recebem informação, e surgem remixes e hibridizações. O segundotrata da importância de trazermos à tona os diversos discursos sociais e de garantirmos seu reconhecimento, para que a pluralidade de nossa sociedade encontre espaço nos meios de comunicação e escapemos à ditadura do pensamento único. Já o eixo referente às políticas públicasaborda a necessidade da regulamentação da mídia no Brasil, onde temos um cenário assustador de monopólio da radiodifusão e de falta de transparência e participação social nos processos decisórios.

Os eixos se complementam porque não basta nos apropriarmos dos meios acessíveis, desenvolvermos novas linguagens e que a mobilização social aconteça de forma efetiva e horizontal se os artigos da Constituição Federal referentes à comunicação continuarem sendo ignorados e carecendo de regulamentação, mantendo a propriedade dos meios de comunicação de massa em poucas mãos. Mas também não é suficiente garantirmos a democratização da mídia se não houver mobilização, envolvimento e construção de discursos. Além disso, não podemos travar a luta pela democratização da comunicação sem ter como objetivo maior a construção desse outro mundo mais justo e digno, onde todos tenham voz.

É importante termos claros os princípios que nos unem e as práticas que podem consolidá-los. O marroquino Mohamed Legthas, do portal E-joussour, compartilhou e experiência em seu país, onde a apropriação das redes sociais para a queda do regime teve relevância, mas terminou sua fala com o seguinte questionamento: de que adianta derrubarmos governos, ou acamparmos em praças, se tais atitudes não contribuírem efetivamente para a consolidação dos anseios democráticos?

Como disse o sociólogo português Boaventura de Souza Santos, em outra atividade do Fórum Social Temático, “cuidado: o resultado pode ser pior, pode levar a uma nova forma de barbárie ou barbarismo. Queremos uma democracia real e participativa, mas como construí-la?”, provocou.

Digital X Analógico e a comunicação como luta transversal

Ao mesmo tempo em que as novas tecnologias da comunicação se popularizam e ganham notoriedade em movimentos como os ocorridos no mundo árabe e na Espanha, as “velhas tecnologias” continuam tendo seu papel indispensável e não podem ser esquecidas. Exemplos disso são as rádios comunitárias e as intervenções urbanas, que utilizam os tradicionais pinceis, colas, papeis e tinta. “A mídia livre existe antes do Fórum de Mídia Livre, e existe até muito antes da internet”, enfatizou Renata Miele, do Centro de Estudos Barão de Itararé, durante o debate sobre direito à comunicação.

Entre as resoluções do III FML, estão a necessidade de superar a hegemonia da internet nas discussões acerca de mídia livre e de envolver os demais movimentos e organizações sociais. João Pedro Stédile, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, defendeu na Assembleia dos Movimentos Sociaisque é necessário “fazer a disputa ideológica, enfrentar os meios de comunicação de massa” para superarmos o capitalismo. A concentração da mídia e a necessidade de articulação e debate concernem não só aos movimentos diretamente relacionados à comunicação, mas ao movimento negro, de mulheres, indígena, ecológico, pela reforma agrária e urbana etc. “O que podemos fazer juntos daqui para a frente?”, questionou Stédile.

Contudo, é importante atentar para que, ao mesmo tempo em que as ferramentas digitais ganham relevância, diversas legislações restritivas estão tramitando no mundo, a modo do SOPA (Stop Piracy Act)e PIPA (Protect IP Act) nos Estados Unidos e do “PL do Azeredo” no Brasil. As tecnologias digitais não são as únicas, mas são estratégicas – e a liberdade e o compartilhamento na rede estão em risco.

II Fórum Mundial de Mídia Livre e a Rio +20

O III FML terminou com um grande chamado à construção do II Fórum Mundial de Mídia Livre (FMML), que de acordo com Bia Barbosaserá “mais uma batalha internacional em defesa da comunicação como um direito e também um bem comum”. O encontro acontecerá entre os dias 16 e 18 de junho no Rio de Janeiro como uma das atividades da Cúpula dos Povos da Rio+20 por Justiça Social e Ambiental, evento da sociedade civil paralelo à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável.  “A ideia é que a comunicação contribua para os processos de luta e resistência dos povos”, indicou Tica Moreno, do Grupo de Articulação da Cúpula dos Povos e da Marcha Mundial de Mulheres.

A proposta do II FMML surgiu no FSM 2011 em Dakar, no Senegal. Fazem parte da organização entidades como Abraço (Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária), Amarc (Associação Mundial de Rádios Comunitárias), Ciranda Internacional de Comunicação Compartilhada, Coletivo Soylocoporti, Intervozes, Fora do Eixo, Pontão de Cultura da ECO/UFRJ e Revista Fórum. Internacionalmente participam, entre outras organizações, a Cáritas, a WSFTV – portal de memória audiovisual do FSM – e E-joussour, uma agência de notícias colaborativa do norte da África, que está à frente da organização de um Fórum de Mídia Livre naquela região.

O intuito é dialogar com as diversas lutas para tirar uma pauta comum em torno da comunicação. “O debate que une os defensores do midialivrismo e da democratização da mídia não é um debate corporativo, mas uma luta feita por todos que querem mudanças na comunicação brasileira”, defendeu Rita Freire, da Ciranda Internacional da Comunicação Compartilhada. E o Fórum Mundial de Mídia Livre ocorrer na Cúpula dos Povos propicia o cenário ideal para que essa construção conjunta se consolide.

Michele Torinelli

Comunicadora e caminhante, integrante do Coletivo Soylocoporti – e da Ciranda Internacional de Comunicação Compartilhada – ciranda.net. Atua com comunicação compartilhada, educomunicação e cultura popular e alternativa.

 

UEL 2011

36) Observe a charge.
 
(Disponível em: <http://complexowill.blogspot.com/2010/08/precisamos-aprender-novos-conceitos.html&gt;. Acesso em: 24 out. 2010.)
 
Com base na charge e nos conhecimentos sobre a teoria de Marx, é correto afirmar:
a) A produção mercantil e a apropriação privada são justas, tendo em vista que os patrões detêm mais capital do que os trabalhadores assalariados.
b) Um dos elementos constitutivos da acumulação capitalista é a mais-valia, que consiste em pagar ao trabalhador menos do que ele produziu em uma jornada de trabalho.
c) A mercadoria, para poder existir, depende da existência do capitalismo e da substituição dos valores de troca pelos valores de uso.
d) As relações sociais de exploração surgiram com o nascimento do capitalismo, cuja faceta negativa está em pagar salários baixos aos trabalhadores.
e) Sob o capitalismo, os trabalhadores se transformaram em escravos, fato acentuado por ter se tornado impossível, com a individualização do trabalho e dos salários, a consciência de classe entre eles.
 
resposta: B

The Story of Electronics (2010) – A História dos Eletrônicos – Legendado em Português BR.

A História dos Eletrônicos explora o efeito colateral da revolução de alta tecnologia – 25 milhões de e-lixo e contando, trabalhadores envenenados e um público segurando a conta. Acompanhe a trajetória desde as minas e fábricas onde nossas bugigangas têm início até as terríveis lojas de reciclados de fundo de quintal da China, onde muitas acabam. O filme termina com um apelo por uma “corrida verde até o topo”, onde projetistas competem para fazer produtos duradouros, livres de tóxicos e que são completa e facilmente recicláveis.

Por uma Agenda Digital Brasileira, urgente

Por Patrícia Cornils, em A Rede

Dois bons exemplos de que o Brasil tem necessidade urgente de construir uma agenda digital de médio e longo prazos, que garanta a continuidade das políticas públicas nessa área. O primeiro é a decisão do Ministério da Cultura (MinC) de reverter o processo de revisão da Lei de Direitos Autorais brasileira, uma das mais restritivas do mundo. O MinC recolocou em pauta, no início do ano, um texto produzido pela gestão anterior – fruto de um diálogo com a sociedade que durou três anos, com 80 encontros nacionais, sete seminários, e teve como referência legislações de 20 países. O anteprojeto resultante desse amplo e democrático debate ficou em consulta pública por 79 dias e recebeu 8.431 sugestões.

O segundo é a decisão do Banco do Brasil, de descartar 60 mil máquinas de seu parque tecnológico, este ano. Grandes instituições, como essa, aposentam máquinas e realizam novas aquisições  periodicamente. Só que não existe, ainda, uma regulamentação da Política Nacional de Resíduos Sólidos. Portanto, não há garantias sobre o destino dessas máquinas velhas. Mais que isso, o reúso e a reciclagem de equipamentos eletrônicos devem ser incorporados em projetos de inclusão digital, pois têm grande valor nas metodologias de apropriação de tecnologia.

A urgência da construção da pauta digital como fator de desenvolvimento do Brasil reflete-se também em outras frentes, como: desenvolvimento de uma infraestrutura nacional de banda larga; convergência da comunicação eletrônica de massa; marco civil da internet; produção de conteúdo digital como pauta econômica de desenvolvimento do país e sua inserção no mercado globalizado; coordenação dos acessos públicos à internet e formação de seus gestores; integração desses espaços ao desenvolvimento de cidades digitais e serviços de governo eletrônico. Muitos dos depoimentos colhidos por esta reportagem, cuja íntegra está disponível no site da revista ARede, apontam nessa direção.

“O principal desafio é inserir o uso de tecnologias de informação e  comunicação (TICs) no contexto das políticas de inclusão social que vão ou já estão sendo priorizadas e implantadas na saúde, na educação, no desenvolvimento econômico (pequenas e médias empresas), na ação social (obtenção de benefícios), na cultura, no controle social”, avalia Patrícia Pessi, consultora de serviços de governo eletrônico. “É preciso que o governo federal absorva as várias e ricas experiências dos últimos anos e protagonize a criação de uma política digital que proporcione geração de renda, apropriação tecnológica, formação continuada e desenvolvimento de tecnologia”, afirma Andréa Saraiva, consultora e implementadora de políticas culturais e digitais.

Ronaldo Lemos, diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas, amplia ainda mais a perspectiva: “São muitos os desafios. Temos uma estrutura de internet de país pobre, com preços altos e acesso apenas a um terço da população, mas já enfrentamos questões de países ricos, como a proteção à privacidade, a regulamentação dos direitos autorais, que estão desequilibrados e atrapalham a inovação (basta lembrar que quem transfere as músicas de um CD para um iPod infringe a lei brasileira), e, sobretudo, a ausência de apoio à inovação, que se manifesta no fato de termos pouco capital de risco investido em empresas que apostam em inovação”. O que fazer? “É fundamental incentivar o empreendedorismo e promover um marco regulatório favorável à criatividade na internet. De outra forma, perdemos a chance de desenvolver uma economia limpa, sustentável e de alto valor agregado”, ressalta ele.

Banda larga
Se não temos ainda uma agenda digital, que oriente as ações federais como um todo, várias iniciativas estão em andamento. Iniciadas no segundo governo Lula, começam a ganhar corpo orgânico – embora ainda falte muita articulação para que se transformem em políticas de Estado. Na primeira semana de abril, a presidente Dilma Rousseff determinou que a Agência Nacional de Telecomunicações, o Ministério das Comunicações (Minicom) e as operadoras voltassem à mesa, para negociar pacotes populares de banda larga de R$ 35 (ou R$ 29 sem ICMS) a serem oferecidos dentro do Programa Nacional de Banda Larga (PNBL). As velocidades desses pacotes seriam dos 600 kbps dos planos populares oferecidos pela Oi e os 200 kbps que, de acordo com o mercado, seriam oferecidos pela Telefônica. Dilma quer velocidades maiores, e interveio para que as conversas fossem retomadas.

O PNBL é uma das prioridades do atual governo. Dilma antecipava essa intenção antes mesmo de se candidatar oficialmente, quando era ministra da Casa Civil. Em seu discurso na 2ª Conferência Nacional de Cultura, em março de 2010, ela disse que “o Plano Nacional de Banda Larga é o acesso da nossa população à inclusão digital”. Reiterou a prioridade ao ministro Paulo Bernardo, ainda em dezembro, quando o convidou a assumir o Minicom. E reforçou a questão, na negociação com as operadoras. Na prática, até hoje, a agenda do PNBL se concentra na camada de infraestrutura (conexões, equipamentos) de acesso ao mundo digital, com a revitalização da Telebras, decretos de isenção para equipamentos de redes de tecnologia nacional e a negociação com as operadoras.

As atribuições do novo Minicom, no entanto, vão além do PNBL, quando se trata de ampliar o acesso e a apropriação das tecnologias de informação e comunicação pela população brasileira. Depois de oito anos nas mãos do PMDB, o ministério assumiu, com a posse de Bernardo, a responsabilidade de coordenar as demais iniciativas de inclusão digital do governo federal. O desafio do governo, e da sociedade civil, é ampliar o debate sobre o potencial do digital para promover desenvolvimento, considerando todas as camadas: a física (links, topologias, fibras, onde está o PNBL), a lógica (software), a camada de apropriação dos meios físicos e lógicos para a produção, pelo governo e pela sociedade, de conteúdos e serviços. Também é necessário um arcabouço legal que estimule (e não criminalize) o compartilhamento de conhecimento pela web, a publicação de dados públicos em formatos livres e abertos, e a proteção da privacidade dos internautas.

Nova estrutura
Para dar conta dessa demanda, o Minicom está se reestruturando. Internamente, criou uma Secretaria de Inclusão e montou um grupo que vai trabalhar em cima das propostas de criação de um novo marco da comunicação eletrônica de massa, desenvolvidas pela Secretaria de Comunicação no segundo governo Lula. Na relação transversal com outros ministérios e órgãos de governo, o ministério reforçou o Comitê Gestor do Programa de Inclusão Digital (CGPID). E vai reinstituir a instância de diálogo do CGPID com a sociedade civil, o Fórum Brasil Conectado, que tem representantes de estados e municípios, Poder Legislativo e diversos setores da sociedade civil.

Todas essas mudanças são consequências de projetos iniciados no governo Lula. O CGPID foi criado, em 2009, para coordenar o Plano de Inclusão Digital – o decreto de criação, 6948/2009, se referia, textualmente, ao Computador para Todos –, elaborar planos e subsidiar a presidência da República em temas relacionados a projetos e programas de inclusão digital. Em maio de 2010, no decreto que criou o PNBL, o CGPID recebeu a atribuição de definir as metas e ações do programa e acompanhar sua implementação.

Este ano, em março, o governo anunciou que o CGPID será remodelado. Sua coordenação será transferida para o Minicom e  os participantes serão, agora, os ministros de cada pasta, que somente poderão ser substituídos pelos respectivos secretários-executivos, para que as ações pactuadas nesse fórum interministerial tenham maior peso no governo. Além disso, entre as atribuições do CGPID, estará explicitada a coordenação de todas as ações de inclusão digital sustentadas pelos órgãos públicos federais – não apenas as que o decreto original definia. Com isso, o comitê tem estrutura e competência administrativa suficiente para passar a política do papel para o dia-a-dia dos cidadãos, observa Paulo Rená da Silva Santarém, jurista e ciberativista pelos direitos fundamentais. “O comitê é um ponto de encontro institucional de vários programas governamentais, incluindo o PNBL”, explica ele.

Rená, no entanto, chama a atenção para um aspecto fundamental: não há, na página oficial, notícia de reuniões ou ações realizadas pelo comitê. “Não registrar as ações é uma contradição em relação aos propósitos do CGPID”, diz ele. Daniela Silva, da comunidade Transparência Hacker, concorda: “Não há como fazer política para a internet sem olhar para o que acontece no país e incorporar”. Somente no segmento de política digital, são muitos os coletivos articulados para contribuir — o Mega Sim, a comunidade Transparência Hacker, o Lixo Eletrônico.org, a campanha Banda Larga é um Direito Seu, a mobilização pela Lei do Cultura Viva, a mobilização pela reforma da Lei de Direitos Autorais, a campanha Informação é um Direito Seu.

“Se o governo deseja a participação da sociedade, essa participação deve estar na gênese da política. “A agenda de reuniões deve ser publicada na internet, as pessoas devem ser convidadas, os encontros devem ser transmitidos pela rede”, acrescenta Daniela. Sem isso, observa ela, os plano podem se descolar da realidade, ou deixar de incorporar a contribuição de milhares de acertos dos movimentos de cultura livre, inclusão digital, e democratização da comunicação no país.

Além dessa articulação interministerial, o Minicom, por meio da Secretaria de Inclusão Digital, pretende organizar grandes projetos antes distribuídos entre os ministérios da Ciência e Tecnologia; do Planejamento, Orçamento e Gestão e em divisões do próprio Minicom. A secretaria vai ter duas divisões (uma de infraestrutura e outra de formação) e vai assumir o Gesac, os Kits Telecentros, o Observatório Nacional de Inclusão Digital (Onid), o Telecentros.BR, o Computadores para a Inclusão. Terá como prioridade o Programa de Cidades Digitais, uma inciativa a ser apresentada à sociedade no segundo semestre. A secretária de Inclusão Digital, Lygia Pupatto, disse, em entrevista publicada na revista eletrônica do ministério, Conexão Eletrônica, que o programa de cidades digitais será a contribuição da secretaria ao PNBL.

Esses programas governamentais herdam a experiência das iniciativas realizadas nos últimos anos. As principais, na esfera do governo federal, estão nas próximas páginas, e algumas deverão ser descontinuadas. Já há um certo consenso de que, para as ações de governos serem consequentes, são necessários investimentos em meios físicos e digitais (equipamentos, conexões, softwares, aplicativos, conteúdos) e, principalmente, em formação, ativação de redes e participação de pessoas e comunidades. “As ações do governo federal buscam cada vez mais a pactuação federativa, a interlocução com empresas, universidades, sociedade civil e a participação deste conjunto de atores na elaboração, implementação, acompanhamento e avaliação das políticas públicas”, contata Kiki Mori, coordenadora do Telecentros.

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