Um século do invencível general Giap

Hanói (Prensa Latina) Vo Nguyen Giap parece desconhecer o significado de render-se ou retroceder: nem sequer o tempo pôde vencer este mítico general vietnamita, que recentemente celebrou seu 100 aniversário.

Chegar a um século de existência é espantoso, ainda mais se se trata de um protagonista da história, sagrada relíquia das lutas vietnamitas contra japoneses, franceses e estadunidenses.

Gênio logístico, convincente político e firme condutor de massas, a lenda rodeia a vida deste filho de camponeses que acabou sendo um grande amigo e aprendiz do legendário presidente Ho Chi Minh.

Quase tão venerado como o Tio Ho, Giap redefiniu vários conceitos da luta armada, em particular o de guerra de guerrilhas, e explorou como poucos esses detalhes que fazem o vietnamita tão peculiar.

De fato, assim lho disse pessoalmente Robert MacNamara, o ex-secretário estadunidense da Defesa durante a guerra: “Vocês perderam no Vietnã, porque vocês não conhecem o vietnamita”.

Forte crítico dos projetos de extração de bauxita, este diminuto homem ainda é uma voz respeitada no Vietnã, ainda que tenha saído há anos das altas esferas do poder para se retirar em seu vilarejo.

Com grande sagacidade, o também chamado Napoleão Vermelho supriu suas lacunas como tático com um afinco à prova de balas, a ponto de suas contribuições estratégicas serem estudadas em academias militares.

Mas sobretudo, legou um exemplo de vontade inquebrantável de avançar a qualquer preço em prol da vitória, ensinando que nada importa mais que a Pátria, nem sequer a própria vida.

As sempre lubrificadas guilhotinas francesas decapitaram a sua cunhada e sua primeira esposa, a tailandesa Dang Thi Quang, morreu enquanto cumpria prisão perpétua, mas a França não rendeu o incômodo Giap.

Ele mesmo experimentou a prisão por sua militância política e sua ativa participação nas conspirações contra a metrópole gala, que inclusive matou seu pai quando Giap era uma criança de oito anos.

Pouco depois morria uma irmã, vítima de humilhações e torturas sofridas na prisão, bem como uma cunhada que tinha acabado de voltar de uma viagem de estudos na antiga União Soviética.

Homem extremamente inteligente, que fala francês com fluência, Giap foi um autodidata que levou durante quase quatro décadas as rédeas do exército vietnamita, e portanto do povo.

Admirador de Napoleão, forjou-se na doutrina guerreira de Mao e adaptou-a à insondável idiossincrasia do vietnamita, fortaleza que explorou quase tão magistralmente como as debilidades inimigas.

Além disso, por vezes um revés militar redundou em contundente vitória política que acabava por inclinar a balança a seu favor, como ocorreu durante a Ofensiva do Tet, em 1968.

Talvez toda a ebulição interna que ocultava seu rosto sereno lhe valeu o apelido “Ge Luo” ou “Vulcão sob a neve”, como chamavam ao herói de Dien Bien Phu e da fuga ianque de Saigon.

Licenciado em Direito e professor de História, admirou as lutas nacionalistas de seu país, vencedor ante as recorrentes invasões chinesas graças à liderança de generais como Tran Hung Dao.

Em junho de 1940 conhece na China a Ho Chi Minh, quem lhe confiou o braço armado do movimento Viet Minh, impressionado por seus vastos conhecimentos de história militar e seu caráter.

Em 1945, o Viet Minh lutava simultaneamente contra a ocupação japonesa e o colonialismo francês, com cerca de cinco mil combatentes que foram o núcleo do Exército de Libertação Nacional.

Já promovido a general, Giap é ministro do interior do primeiro governo democrático do Vietnã, a 2 de setembro de 1945.

O fracasso das negociações de Fontainebleu reativa a guerra com a França e Giap volta ao campo de batalha, onde derrota generais de elite, como Le Cler, Revair e De Lattre de Tassigny, o único que pôde vencer em vários combates.

Os franceses perderam mais de 300 mil homens nessa guerra, e Paris apostou no general Navarre para guiar a legião na Indochina, e seu maior confronto ainda estava por vir.

A 13 de março de 1954, os vietnamitas abriram fogo contra o bastião francês de Dien Bien Phu, lançando várias ofensivas cuja última, a primeiro de maio, aniquilou um inimigo já desmoralizado.

A 7 de maio, o general Giap aceitou a capitulação do general Christian de Castries, tomando prisioneiros 16 mil homens e depois de derrubar 62 aviões inimigos.

O movimento genial de Giap foi dispersar 70 dos 84 batalhões móveis que tinha a França na Indochina, lhes impedindo de apoiar as proximidades em Dien Bien Phu, numa paciente guerra de desgaste.

Depois viria a guerra contra o governo fantoche de Saigon, e de novo Giap, como comandante-em-chefe do Exército Popular, teve que enfrentar tropas mais bem equipadas e as derrotou.

A realidade demonstrou-lhe que o confronto direto não era a solução, e retomou a guerra de guerrilhas, pondo a natureza ao serviço da luta contra um invasor incapaz de se adaptar.

Depois da vitória de 30 de abril de 1975, Giap admitia que “o armamento norte-americano era o mais moderno do mundo, mas o fator determinante na guerra é o homem”.

O herói de Dien Bien Phu organizou a defesa do Norte e dirigia as operações no Sul, ampliou a rota de fornecimentos Ho Chi Minh e preparou minuciosamente a grande ofensiva do Ano Novo Lunar.

Ainda que as graves perdas humanas sugiram uma derrotar militar, a Ofensiva do Tet advertiu aos Estados Unidos e ao mundo que os “viet cong” jamais seriam derrotados e a guerra se eternizaria.

Em 1972, Giap organizou a Ofensiva da Páscoa e depois começou a ceder protagonismo ao general Van Tien Dung, quem comandou a Ofensiva de Primavera e a tomada de Saigon em 1975.

Seis anos depois, Giap volta à tona ao dirigir o ataque à Kampuchea Democrática para derrotar o regime genocida de Pol Pot, líder do Khmer Rouge, e em 20 dias controlava o reino vizinho.

Em 1980, depois de derrotar a invasão chinesa às províncias de Cao Bang, Loa Cai e Lang, Giap sai do Ministério de Defesa e um ano depois do Bureau Político do Partido Comunista, dedicando-se a escrever.

Em julho de 1992, recebe a ordem de Estrela de Ouro, a honra mais alta do Vietnã, como reconhecimento a suas contribuições históricas à independência, reunificação e defesa da soberania nacional.

Agora o consideram-no o “irmão maior” do Exército Popular, o que o dotou de tal prestígio que chegou a se dizer que tentar freá-lo era como tentar tirar sangue de uma pedra”.

Em seus 100 anos, o mítico general ainda nega se render, ainda que a morte somente possa conseguir uma vitória aparente levando seu corpo, pois há muito tempo Giap conquistou a imortalidade histórica.

* Corresponsável da Prensa Latina no Vietnã.

Texto: / Postado em 03/09/2011 ás 21:21

http://www.patrialatina.com.br/editorias.php?idprog=58c58f9c6366538eaa0dde3624592b81&cod=8602

No Vietnã, agente laranja faz terceira geração de vítimas

Assolado por um confronto que durou cerca de 20 anos, o Vietnã ainda vê em sua população as marcas de uma das guerras mais impactantes do século passado. O conflito, travado pelos Estados Unidos, deixou 2 milhões de inválidos e 300 mil desaparecidos. Os 83 milhões de litros de agente laranja – herbicidas altamente tóxicos – despejados por Washington sobre milhares de hectares do Sudeste Asiático já faz a terceira geração de atingidos no país.

 

Por Fabíola Perez

Vinte anos após a Guerra do Vietnã, Estado tenta reconstruir o país marcado pelo confronto contra os EUA

Com o objetivo de debater as conseqüências do agente laranja deixadas ao longo de décadas na população do Vietnã, ocorrerá entre os próximos dias 7 e 10 de agosto, a 2ª Conferência Internacional das Vítimas do Agente Laranja, e o Brasil será representado pelo Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz) e pelo Conselho Mundial da Paz (CMP).

Segundo a presidente do Cebrapaz e do CMP, Socorro Gomes, movimentos de todo o mundo estarão reunidos para reivindicar que a ONU se manifeste a favor da indenização das vítimas. “Queremos uma reparação dos danos causados. Os responsáveis devem ser identificados e punidos pelo crime cometido durante a guerra e que se perpetura até hoje”, afirma ela.

De acordo com as estimativas, Washington lançou o produto em mais de 25 mil quilômetros do Sudeste Asiático. Conhecido como agente laranja, o líquido continha grandes quantidades de dioxina, substância cancerígena que causou doenças e incapacidades tanto em soldados quanto em civis. Atualmente, mais de dois milhões de vietnamitas sofrem os efeitos da contaminação em seu organismo.

Socorro lembra que “famílias inteiras foram afetadas”. “Foi uma atitude criminosa, um genocídio contra o povo vietnamita. Houve uma mutação genética que ocasionou diversos tipos de câncer, doenças de pele e de pulmão, incapacidades mentais, entre outras anomalias”, lembra. “Ainda hoje milhares de pessoas continuam sofrendo essas conseqüências. Filhos e netos das vítimas foram afetados pelas mutações”, recorda ela.

Sem responsabilidade

Movimentos e associações vietnamitas cobram dos Estados Unidos uma reparação e uma indenização pelos danos da guerra. A Casa Branca, no entanto, nega a responsabilidade no caso e atribui os malefícios aos fabricantes do produto. Em 2004, as associações de vítimas do Vietnã e dos Estados Unidos entraram com um processo na Justiça Federal de Nova York contra 36 empresas que forneceram o desfolhante. A petição foi negada, em primeira instância, pelo juiz Jack Weinstein.

Para a presidente do Cebrapaz, “o judiciário americano não deu ganho de causa porque daria precedentes para processos em outros países onde o produto também foi lançado”, com na ex-Iugoslávia, no Afeganistão e no Iraque. “A humanidade não pode se esquecer disso. Esse foi um dos crimes pelos quais os Estados Unidos nunca foram julgados, assim como a bomba em Hiroshima e Nagasaki. E os médicos consideram a atual indenização de US$ 18 oferecida pelos Estados Unidos absolutamente insuficiente para manter as vítimas”, enfatiza.

Muitas associações de vítimas sobrevivem, segundo Socorro, graças ao apoio do Estado. “As famílias não têm como se virar, por isso, as associações mantêm escolas, abrigos e hospitais para crianças”, conta. “O Estado está buscando a reconstrução do país e o grande desafio é atingir o desenvolvimento social e econômico, diminuindo a pobreza no campo”, afirma ela.

Além do debate em torno das conseqüências do produto ainda hoje presentes na vida da população do país, Socorro ressalta que o Cebrapaz deverá aproveitar a Conferência para debater a erradicação do uso de armas químicas em conflitos.

Campo minado até hoje

No último dia 1º de agosto, três pessoas morreram no Vietnã devido à explosão de uma bomba da época da guerra com os Estados Unidos no centro do país. O fato ocorreu no sábado em Binh Chau, na província de Quang Ngai, depois que três camponeses encontraram uma bomba de artilharia de 105 milímetros, disse o chefe local da Polícia, Tieu Viet Thanh.

A bomba explodiu quando os três homens, de entre 51 e 57 anos, tentavam desmantelar a bomba com uma serra para vender o ferro-velho. Dois deles morreram no ato e o terceiro pouco depois enquanto era levado para o hospital, segundo a Polícia.

Desde o final da guerra em 1975, por culpa das bombas abandonadas morreram cerca de 40 mil vietnamitas, uma terceira parte deles sucateiros que procuram e desativam bombas para vender o metal. Cerca de 15 milhões de toneladas de bombas foram jogadas durante a guerra, das quais, 10% falharam ao detonar, segundo a organização Renew, dedicada à desativação de explosivos.

Fonte: http://www.vermelho.org.br

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